Museu de Las Vegas presta homenagem a mafiosos

Nova instituição de cidade americana reconhece alegado de integrantes da máfia que reinaram no passado

The New York Times |

Lefty, Lucky, The Ant, Bugsy, The Snake, Chin, Scarface, The Brain. Os apelidos dos mafiosos são parecidos com os apelidos de super-heróis. São apelidos relativamente simples, que evocam animais assustadores, características físicas ou poderes misteriosos.

Os mafiosos já estiveram tão em casa em Las Vegas quanto os Deuses no Olimpo. Agora eles finalmente ganharam algo que merecem: o Museu da Máfia, um retrato dos gângsteres americanos, que custou cerca de US$ 42 milhões e ocupa três andares de um edifício da Avenida Stewart.

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NYT
Vídeo projeta imagem de Al Capone em muro do Museu da Máfia em Las Vegas (12/02)

Com artefatos curiosos, exposições interativas, fotografias e vídeos, aprendemos como Las Vegas cresceu no meio do deserto no início do século 20 e como os trabalhadores que construíram a represa Hoover deram à cidade a sua primeira explosão demográfica. Podemos ver também a maneira com a qual a máfia acabou administrando empresas de lazer sem perder sua força até o final do século 20, quando os cassinos corporativos acabaram com o seu reinado.

Nele, descobrimos os imigrantes judeus e italianos que trataram a "terra da oportunidade" como a terra para "ter a oportunidade de pegar para si mesmos tudo o que pudessem", e que através do tráfico de bebidas construíram impérios nacionais até perderem seu poder na guerra contra suas organizações ilegais.

Como grande parte da cultura mafiosa americana, o museu provoca atração e repulsa, sentimentalismo e realidades, gosto e desgosto. Assim como num filme de mafiosos, ele nos seduz com estas propostas por um lado e, por outro, nos lembra da necessidade de justiça. A sedutora abreviação de seu nome, Museu da Máfia, é contrariada por uma certa dose de realidade contida na fachada principal do prédio, onde se lê : "Museu Nacional do Crime Organizado e da Aplicação da Lei".

O museu buscou certo apelo romântico ao abrir suas portas na terça-feira, dia 14 de fevereiro, Dia dos Namorados nos EUA - a data também marca o 83º aniversário do Massacre do dia de São Valentim, em Chicago, quando membros da gangue de George "Bugs" Moran foram assassinados pelos mafiosos membros da gangue de Al Capone disfarçados de policiais. Mas o museu também faz questão de acabar com a ideia romântica de ser um mafioso, lembrando-nos que este fato foi algo tão brutal que deu início a uma longa investigação federal contra a máfia. Temos até mesmo a oportunidade de ver uma parte da parede de tijolo original onde ocorreu o massacre, marcada por diversos buracos de tiros, que serve como uma tela na qual é projetado um dos curta-metragens do museu chamado "Bootleg Wars" (Guerras da Pirataria, em tradução literal).

A tensão entre o fascínio e o desgosto está presente em todo o museu. Podemos ficar chocados com a descrição do assassinato de Bruno Facciola, em Nova York, em 1990 (tiros em ambos os olhos, esfaqueado e com um canário morto dentro de sua boca), mas também vemos fotografias de celebridades dos anos 1950 em cassinos administrados pelos mafiosos e de grandes atores interpretando criminosos no cinema. A máfia é retratada como uma organização com fins criminosos (o museu acredita que o assassinato de John F. Kennedy foi resultado do envolvimento da máfia na tentativa do matar Fidel Castro), mas também como um objeto de fascínio.

Os responsáveis pela exposição, a empresa Gallagher & Associates, os "criadores de conteúdo" da Barrie Projects e a curadora Kathleen Barrie Coakley ambientam o visitante desde sua entrada, onde o visitante se depara com caixas de correio originais atrás de telas de projeção de vídeos e painéis com textos.

Você acaba sendo seduzido por um conceito museológico: Você é tratado como um mafioso "sob suspeita". O elevador para o terceiro andar, onde as exposições estão localizadas inclui um vídeo de um policial lendo seus direitos constitucionais durante sua prisão e a primeira "galeria" é uma fila policial para reconhecer suspeitos na qual fotos são tiradas (e eventualmente vendidas na loja do museu).

Esse conceito, no entanto, é rapidamente deixado para trás. A ênfase é colocada não sobre o apelo misterioso da máfia, mas na luta contra ela. O coração do museu é uma sala esplendidamente restaurada, onde a Comissão Especial do Senado responsável por investigar o crime organizado no comércio interestadual realizou a sua sétima audiência em 1950, liderada pelo senador Estes Kefauver. As audiências foram realizadas por Kefauver em várias cidades do país, transmitidas ao vivo e vistas por 30 milhões de pessoas - umas das primeiras transmissões de grande audiência televisiva. Aqui, o tribunal se torna o pano de fundo de um filme que fala sobre as audiências.

A ênfase na aplicação da lei cresce à medida que se caminha pelo museu, com relatos de casas e telefones grampeados, informantes ameaçados de morte e agentes à paisana que tentaram impedir assassinatos. O museu nunca deixa para trás certos aspectos do romantismo da máfia - numa galeria encontram-se fotos das famílias dos mafiosos - mas tal fascínio nunca pode ser analisado sem que algum tipo de informação o acompanhe. A galeria ao lado é uma crônica sobre a bandidagem e a violência.

Mas o mundo "romântico" da máfia é mais reverenciado em outra exposição sobre o assunto na cidade. Chamada de "Las Vegas Mob Experience", quando foi inaugurada no ano passado no Tropicana ela fez com que os visitantes se tornassem aspirantes da máfia em uma viagem através de vários cenários que representam a história dos mafiosos, acompanhados ao longo do percurso por imagens de James Caan, Mickey Rourke em personagens cinematográficos de mafiosos durante suas carreiras.

A exposição foi rapidamente à falência, mas em breve deve ser revitalizada sob um novo nome: "Mob Attraction Las Vegas". Os visitantes irão percorrer cenários da história da máfia; no centro da exposição estará uma série de galerias de artefatos fornecidos pelas famílias de mafiosos locais.

Em uma galeria chamada "Meyer Lansky" se encontram os filmes que ele tinha em casa, roupas e poemas; em outra estão a mobília da sala da casa de Sam Giancana, o pistoleiro "sem escrúpulos e fiel" da gangue de Al Capone. Somos de fato influenciados e atraídos por estas figuras, e o roteiro planejado do programa sugere que ele vai fazer com que a máfia se torne um tipo de entretenimento divertido, recusando-se a levá-la a muito a sério.

O Museu da Máfia tem interesses completamente diferentes, mas a necessidade de se criar a ideia romântica da máfia permanece. De certa maneira, isso é inevitável por culpa da cidade onde ele se encontra. "Las Vegas era uma cidade 'aberta'", determina a exposição, "o que significa que nenhum sindicato dominava a cidade. Isso fez dela um paraíso para os mafiosos do país que estavam ansiosos para começar de novo e administrar novos empreendimentos."

Até os hotéis que foram administrados pela máfia ajudaram a moldar a cultura de Las Vegas como a conhecemos hoje. Claro, eles eram maus, mas o apelo desta cidade era que todos podiam liberar o que tinham de pior com certa garantia de imunidade: "O que acontece em Vegas, fica em Vegas" está escrito em todos os hotéis da década de 1950 e 1960. Temos a oportunidade de ver uma foto de Elvis Presley e Liberace fazendo palhaçadas em 1950, ou de Marlene Dietrich tocando com Louis Armstrong no Riviera em 1962.

Além disso, ao abraçarem a ilegalidade com sua afirmação de poder sobre a vida e a morte, os mafiosos pareciam mestres das próprias forças da sorte que a maioria dos jogadores da cidade parecia também desejar. Seus gestos e decisões eram tão rápidos e precisos quanto o barulho de uma bola na roleta. Eles ainda fazem parte dos deuses que habitaram Las Vegas. Agora, com muito entusiasmo, são homenageados pela cidade como um gesto de retribuição ao seu legado.

Por Edward Rothstein

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