Mumbai reverencia heróis nascidos do medo

MUMBAI, Índia - Em um dia comum, Vishnu Datta Ram Zende usaria o sistema de alto falantes da maior estação de trem de Mumbai para direcionar as hordas de viajantes a seus vagões.

The New York Times |

Mas na última quarta-feira, pouco antes das 22h, quando ouviu uma explosão e viu pessoas correndo pela plataforma, ele pegou seu microfone e calmamente direcionou a multidão apavorada às saídas de emergência. A estação Victoria Terminus estava sob ataque, o começo de três dias de cerco realizado por um grupo de jovens fortemente armados.

"Caminhem para os fundos da estação e saiam pelo Portão Número 1", ele repetia em alternadamente em hindi e marathi, quase esquecendo de respirar, até que não havia mais ninguém nas plataformas. Rapidamente, os terroristas encontraram sua cabine e atiraram, quebrando uma de suas janelas. Zende não foi ferido.


Soldado indiano observa destruição após ataque em estação de trem / Reuters

Do dia para a noite, Zende se tornou um dos novos heróis de Mumbai, cuja humanidade resplandece diante da desumanidade dos terroristas. Conforme a cidade enfrentava um dos piores ataques terroristas da história do país, muitos cidadãos comuns, como Zende, de 37 anos, mostraram graça extraordinária.

Muitas vezes, eles fizeram isso arriscando a própria vida, fazendo atos de heroísmo que não eram parte da descrição de seus trabalhos. Sem seu raciocínio rápido e bom senso, o número de vítimas dos ataques poderia ter sido ainda maior do que os 173 mortos confirmados na segunda-feira.

Não muito longe da estação de trem, enquanto homens armados do mesmo grupo atacavam o hotel Taj Mahal Palace & Tower, um chef chamado Nitin Minocha e seus funcionários acompanharam mais de 200 clientes a um clube particular conhecido como The Chambers.

Durante o resto da noite, eles prepararam lanches, serviram refrigerantes, buscaram cigarros e então, quando receberam a informação de que seria seguro, tentaram sair dali. Eles queriam garantir que seus hóspedes, muitos dos quais eram da elite de Mumbai, tivessem algum conforto.

"A única coisa que pensávamos era em proteger os hóspedes", disse o chefe executivo, Hemant Oberoi. "Eu acho que minha equipe fez um ótimo trabalho. Perdemos algumas vidas para isso".

Seis funcionários da cozinha morreram. Outro funcionário da manutenção noturna do hotel foi alvejado no abdôme e permanece em estado crítico no hospital.

Minocha, 34, foi atingido no braço. Ele sentiu um amortecimento e viu que o osso havia sido quebrado. "Eu sou um chef", ele disse a si mesmo. "Preciso das duas mãos para cozinhar".

Mas mesmo depois que abandonaram a ideia de fugir do hotel, os funcionários ajudaram a pegar água para os hóspedes e seguraram lençóis para improvisar banheiros.


Indiano observa o hotel Taj Mahal, atingido pelos ataques da última semana / AP

Perto da Casa Nariman, quartel de uma organização religiosa judaica, onde homens armados fizeram reféns, vizinhos ajudaram vizinhos a fugir.

Em outro hotel, o Oberoi, membros da equipe ajudaram os hóspedes que estavam no restaurante. Ali, 10 funcionários morreram.

No Victoria Terminus, também conhecido como Chhatrapati Shivaji Terminus, os alertas de Zende impediram que muitos viajantes se encontrassem com os atiradores. "Eu pensei: preciso evitar que as pessoas sigam para aquela direção", ele disse. Os terroristas já haviam disparado na outra ala da estação de trem de 130 anos, deixando corpos para trás e marcas de bala por todos os lados.

Ao escolher seus alvos, os terroristas não pouparam ricos nem pobres, ocidentais nem indianos.

No Taj, por exemplo, Minocha estava trabalhando no Golden Dragon, o mais caro restaurante japonês da cidade, quando ouviu a comoção causada pela invasão dos terroristas armados. Ele e seus colegas levaram os hóspedes ao The Chambers.

"Eles fizeram tudo o que podiam", disse Bhisham Mansukhani, que participava de uma festa de casamento naquela noite.

Durante horas, a equipe de funcionários tentou manter todos calmos e alimentados. A certa altura, Minocha relembrou na segunda-feira de seu leito no hospital, ele viu o domo do hotel em chamas.

Zende começou a trabalhar na estação aos 19 anos, quando seu pai morreu. Com educação fundamental, Zende começou por baixo e batalhou para conseguir o cargo por trás do microfone. Agora, ele viaja uma hora e meia todos os dias para receber seu salário de US$ 300.

Na segunda-feira, uma mulher veio até sua cabine e disse: "Sr. Zende, você fez um ótimo trabalho. Precisamos de mais pessoas como você". Ela não quis fornecer seu nome, mas disse ser uma cientista que saiu de casa pela primeira vez desde os ataques.

Ao ir embora, ela disse: "Jai Hind" ou "vida longa à Índia".

Zende respondeu: "Jai Hind."

- SOMINI SENGUPTA

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