Mulheres trabalham para ter refúgio no Afeganistão

Projeto patrocinado pelos EUA busca recuperar jardim destinado apenas para afegãs

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Havia um antigo jardim em Cabul, no Afeganistão. Nesse jardim existiam árvores. Sob elas estavam as mulheres. E não haviam lenços sobre as cabeças delas, que se sentavam sob as árvores no Jardim de Mulheres de Cabul.

Agora, este oásis de liberdade, rodeado pelo misógino deserto que é a capital, está passando por um renascimento.

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Afegãs fazem aula de tae kwon no Jardim de Mulheres de Cabul

Karima Salik conta a história do Jardim de Mulheres de Cabul, que frequentava desde quando era menina na década de 1970, uma época tranquila para o Afeganistão e suas mulheres, antes de começarem os anos de guerra, que já são 32.

"As árvores cobriam tudo", ela lembra. "Havia conversa, risos e música".

Nos últimos três anos, Salik tem gerido o jardim, que agora está passando por uma reforma de US$ 500 mil patrocinada pela Agência Americana de Desenvolvimento Internacional (Usaid).

A maioria do dinheiro paga pelos trabalhadores responsáveis pelo paisagismo, plantio de árvores, reconstrução de passeios e colocação de muros ainda mais altos.

Mulheres em projetos de construção é algo praticamente inexistente no Afeganistão, mas o programa da Usaid exige que pelo menos 25% da força de trabalho seja feminina. Aqui elas representam 50% do grupo de trabalhadores.

Agora, policiais homens abrem os altos portões de aço apenas para as mulheres e crianças do sexo masculino, se forem menores de 9 anos.

Dentro dos portões estão as mais raras das funcionárias públicas do país: duas policiais do sexo feminino.

Elas têm o apoio de cinco agentes de inteligência militar, também mulheres, cuja principal tarefa é procurar por possíveis insurgentes que possam esconder bombas sob suas burcas.

Geralmente as burcas são tiradas dentro dos portões e há vestiários onde muitas das mulheres podem trocar de roupa, colocar maquiagem e salto alto.

Então, coisas inéditas acontecem.

As mulheres arrecadaram fundos para uma pequena mesquita, que oferece instrução religiosa dada por uma mulher - um dos poucos lugares assim em uma cidade onde vivem pelo menos 1,5 milhões de muçulmanas.

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Afegãs são vistas em sala de aula no Jardim de Mulheres

Um consórcio de grupos de ajuda humanitária da União Europeia ajudou a construir um ginásio espaçoso, onde as mulheres em collants têm aulas de ginástica ou jogam badminton.

Italianos abriram o Restaurante Primavera, com algo desconhecido em Cabul: pizzaiolas.

Entre as paredes do local, surgiu um pequeno shopping gerido por mulheres, muitas das quais obtiveram microempréstimos: cabeleireiras, vendedoras de bordados, roupas infantis e lingeries.

Algumas vêm aqui pelas oportunidades, muitas usam o espaço como refúgio. Mas nada disso aconteceu sem luta. "Trata-se de mulheres contra homens", disse Salik, estranhamente desanimada a certa altura. Poucas semanas depois, ela estava esperançosa de novo.

A renovação deve ser concluída no dia 5 de julho. A cada 40 dias uma nova equipe de trabalhadoras é trazida, dando a outras pessoas uma nova oportunidade para ganhar dinheiro e aprender.

Por Rod Nordland

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