Mulheres sauditas lutam por direito de praticar esportes

Exemplo de saudita vitoriosa em jogos de Cingapura gera debate em país onde atividade física é proibida nas escolas para meninas

The New York Times |

Depois que a saudita Dalma Malhas, 18 anos, ganhou uma medalha de bronze nos saltos de obstáculos nos primeiros Jogos Olímpicos da Juventude em Cingapura, em agosto, ela foi usada como exemplo por Jacques Rogge, presidente do Comitê Olímpico Internacional, em uma coletiva de imprensa na conclusão do evento.

"Esta é certamente a primeira vez que uma mulher saudita está participando de um evento internacional" e já ganhou uma medalha, disse Rogge. A conquista de Malhas, ele disse, deixou o COI "absolutamente feliz".

A reação no país conservador muçulmano de Malhas – onde a prática de esportes por mulheres é algo visto como indecente e até mesmo imoral por alguns – tem sido muito mais complicada.

A atividade física de qualquer tipo é proibida nas escolas estaduais da Arábia Saudita para as meninas. Apesar de academias para mulheres existirem em grandes cidades sauditas, elas geralmente não tem placas, para que suas clientes não precisam temer atrair a atenção.

A Arábia Saudita não permite que mulheres representem o país em competições internacionais de atletismo e é um dos três únicos países que ainda não enviam mulheres aos Jogos Olímpicos (ao lado de Catar e Brunei.) Apesar da Arábia Saudita ter enviado uma delegação oficial de atletas do sexo masculino aos Jogos Olímpicos da Juventude, Malhas – filha da famosa saltadora Arwa Mutabagani – teve de entrar no campeonato por conta e despesa própria.

Agora, sua medalha de bronze, colocou-a no centro de uma polêmica crescente no reino sobre o tipo de atividade atlética que pode ser aceitável para meninas e mulheres sauditas, se houver.

Leis restritivas

As leis e costumes que regem a vida das mulheres na Arábia Saudita estão entre as mais restritivas do mundo. A separação pública dos sexos é rigorosa. As mulheres sauditas não podem dirigir ou votar, e precisam usar capas que vão até o chão conhecidas como túnicas e lenços na cabeça sempre que saem de casa. Elas não podem comparecer em tribunais.

Mas nos últimos anos, as questões das mulheres tornaram-se um grande campo de batalha entre liberais e conservadores. As tradições sauditas em relação aos direitos e ao tratamento das mulheres raramente, ou nunca, foram contestadas. A questão das mulheres no esporte na Arábia Saudita é uma manifestação desse grande debate.

No dia 31 de julho, o dissidente saudita Ali Al-Ahmed, que dirige o Instituto de Assuntos do Golfo, em Washington, começou uma campanha chamada "Nenhuma Mulher. Nenhum Jogo", instando o COI a suspender a Arábia Saudita de participar da competição olímpica até que permita a participação feminina.

Em entrevista por telefone, Ahmed comparou a situação das mulheres hoje na Arábia à dos negros na época do apartheid (regime de segregação racial) na África do Sul e questiona por que o COI não suspendeu o país dos Jogos uma vez que proibiu a África do Sul de 1964 até o fim do apartheid no início de 1990.

"Mais do que pressão política, a expulsão da África do Sul das Olimpíadas foi uma das ferramentas mais eficazes para acabar com o apartheid", disse Ahmed, sem fazer referência ao papel mais importante concedido aos esportes em geral na sociedade sul-africana ou se uma proibição Olímpica teve um efeito maior do que poderia sobre a Arábia Saudita.

"A liberdade de praticar esportes e exercícios é uma questão muito básica", disse Ahmed. "Tem a ver com a saúde física. Eu acho que uma vez que as mulheres sauditas forem livres para a prática esportiva, isso vai abrir outras discussões sobre os seus direitos".

Política do comitê

O mandamento Olímpico estabelece que "a prática do esporte é um direito humano" e que "qualquer forma de discriminação em relação a um país ou uma pessoa por motivos de raça, religião, política ou sexo é incompatível com a participação no movimento olímpico".

A porta-voz do COI Emmanuelle Moreau sugeriu por email que o comitê não tinha intenção de censurar formalmente países que não permitem a participação das mulheres nas Olimpíadas. Ela disse que a organização não pretende dar a Arábia Saudita um prazo, como fez na época do Apartheid à África do Sul. "O COI se esforça para garantir que os Jogos Olímpicos e o movimento olímpico sejam universais e não discriminatórios", disse Moreau.

Saúde

Colunistas de jornais sauditas têm argumentado que relaxar as proibições contra o exercício físico pode ajudar a conter os altos níveis de obesidade e osteoporose entre as mulheres da Arábia Saudita.

Lina Al-Maeena, que em 2003 fundou a Jeddah United, uma equipe de basquete feminino que desde então se tornou uma companhia de formação esportiva completa, concorda. "Temos taxas muito elevadas de obesidade, diabetes e osteoporose entre as mulheres, uma taxa muito elevada de depressão", ela disse. "Você tem esse segmento conservador aqui que está usando a religião para se opor ao esporte feminino. Mas esse é um argumento muito válido". Ela espera que a pressão do COI possa ajudar a quebrar as barreiras da participação das mulheres atletas.

Liberais sauditas notam que mesmo Aisha, a jovem esposa do profeta Muhammad, desfrutava de corridas contra o marido e que as sociedades conservadoras muçulmanas, como o Kuwait e os Emirados Árabes Unidos, têm atitudes mais abertas sobre a participação das mulheres nos esportes.

No ano passado, o jornal Al-Riyadh informou que um levantamento realizado com mais de 2.250 sauditas revelou que apenas 4% se opuseram a academias para meninas e mulheres.

Monarquia

Mas a opinião da maioria conta pouco em uma monarquia absolutista em que o rei governa em conjunto com um estabelecimento salafista religioso. Alguns dos mais proeminentes clérigos continuam a se opor à prática de esportes por mulheres em todas as circunstâncias, argumentando que o esporte vai levá-las a se envolver em comportamentos como uso de roupas indecentes ou sair de suas casas desnecessariamente.

Outros clérigos afirmam que o esporte é absolutamente fora dos limites apenas para virgens, pois poderia prejudicá-las e até danificar o hímen.

Atletas sauditas dizem achar improdutivo o debate de seu ponto de vista abertamente.
Maeena disse que ver os movimentos das mulheres pelo mundo a ajuda a ficar otimista.

"Não é só na Arábia Saudita que o esporte para as mulheres é uma questão política", ela disse. Até 1972, com o Título IX, as mulheres nos Estados Unidos também não tinham igualdade de direitos no esporte. E isso é, o que, três décadas atrás? E é um país de 250 anos de idade.

''Nós somos um país de apenas 78 anos de idade", ela continuou. "Quando você se mede a partir da perspectiva histórica, vê que o processo pelo qual a Arábia Saudita está passando é um processo muito normal que todas as sociedades passaram em relação aos diferentes campos de atuação para as mulheres”.

*Por Katherine Zoepf

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