Mulheres na Líbia esperam conseguir manter conquistas da guerra

Líbias que tiveram papel fundamental nas revoltas contra Muamar Kadafi querem espaço na reconstrução de um novo país

The New York Times |

Aisha Gdour, uma psicóloga escolar, contrabandeou balas em sua bolsa de couro marrom. Fatima Bredan, uma cabeleireira, cuidou de rebeldes feridos. Hweida Shibadi, uma advogada de família, ajudou a Otan a encontrar alvos para ataques aéreos. Amal Bashir, uma professora de arte, usou um código secreto utilizado para coletar as encomendas de munições: balas de pequeno calibre eram chamadas de "alfinetes", as maiores eram “pregos”. Uma "garrafa de leite" significava uma Kalashnikov.

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Líbias realizam comício em apoio aos rebeldes (2/9)

Na improvável vitória dos rebeldes sobre Muamar Kadafi, as mulheres fizeram muito mais do que enviar seus filhos e maridos para o front. Elas esconderam os combatentes e prepararam suas refeições. Costuraram bandeiras, arrecadaram dinheiro, contataram jornalistas. Transportaram armas e, em alguns casos, as usaram contra o governo. O levante de seis meses contra Kadafi impulsionou as mulheres desta sociedade tradicional a assumir papéis que nunca imaginaram. E, agora, embora já enfrentem obstáculos para preservar a sua influência, muitas mulheres não querem mais voltar a ser o que eram antes da guerra.

"Talvez eu possa ser a nova presidenta ou prefeita", disse Gdour, 44, na tarde de segunda-feira, enquanto saboreava a vitória ao lado de outros membros de sua célula rebelde.

Ela é uma das três mulheres que, sob o antigo governo, coordenava uma instituição de caridade secreta que transformou em uma condutora para o transporte de armas aos rebeldes.

Mas na emergente nova Líbia, as mulheres permanecem quase invisíveis na liderança. Entre os 45 membros do Conselho Nacional de Transição da Líbia, há apenas uma mulher. A Sede do Conselho não tem sequer um banheiro feminino.

No vizinho Egito, as mulheres tiveram problemas em preservar as conquistas de sua própria revolução. E em sua maneira extremamente excêntrica, Kadafi pode ter tido uma visão mais ampla do comportamento feminino adequado do que algumas famílias conservadoras da Líbia.

Ainda assim, como Rosie, a rebitadeira, mudou irreversivelmente a vida de mulheres americanas após a Segunda Guerra Mundial, as líbias dizem que seus esforços durante os conflitos estabeleceram conquistas que não podem ser facilmente desfeitas. Mulheres de muitas origens transformaram pequenas células de suporte aos rebeldes em redes maiores, questionando o que podem fazer agora para ajudar a construir uma Líbia pós-Kadafi.

Os homens também estão respondendo. Alguns, que já se opuseram a noivas e irmãs trabalharem até tarde ou participarem de protestos, agora começam a apoiar essas atividades. O medo da coerção sexual por comparsas de Kadafi, antes uma ameaça generalizada às mulheres de destaque, evaporou. Talvez o mais importante seja que as mulheres aqui participaram em tão grande escala que elas ajudaram a estabelecer a legitimidade da revolução, demonstrando que o apoio à revolta penetrou profundamente na sociedade líbia.

"As pessoas sabem o papel que as mulheres tiveram nesta revolução, mesmo que não tenha aparecido na mídia", disse Abu Ras Abdelrahman Nabila, 40, que ajudou a organizar os primeiros protestos de advogados em Trípoli em fevereiro e, em seguida, no final da sua gravidez, imprimiu panfletos revolucionários que mulheres atiravam de carros em alta velocidade. "Mesmo se eles não nos derem os nossos direitos, temos o direito de exigi-los."

As mulheres ajudaram a começar a revolução na Líbia.

Em 15 de fevereiro, parentes de presos mortos em um massacre na prisão de Abu Salim realizaram um protesto em Benghazi. Proeminentes advogadas se juntaram a eles e, dentro de dois dias, as forças de Kadafi atacaram a multidão com metralhadoras. Assistindo a audácia de suas colegas na televisão, Shibadi ficou subitamente eletrificada. "Eu estava com inveja", disse.

Shibadi, 40, ajudou a organizar cem colegas, incluindo cerca de 20 mulheres, para protestar em Tripoli. Soldados cercaram o protesto, mas a multidão crescia de qualquer maneira. Logo, ela faria mais.

Poucas revolucionárias viam a si mesmo lutando pelos direitos das mulheres. Mas, em retrospectiva, muitas mulheres da Líbia, educadas o suficiente para sonhar grande, disseram ter sido retidas pela ditadura e pela tradição. Quando a revolução chegou, elas estavam preparadas para a ação.

Kadafi via a si mesmo como um defensor das mulheres. Em seu Livro Verde, reflexões compiladas que ele insistia que os líbios estudassem, ele dedicou várias páginas à santidade do aleitamento materno e à domesticidade feminina. Ele se mostrou como um baluarte contra o extremismo religioso e impôs uma lei exigindo que os homens pedissem permissão a uma primeira esposa antes de se casar com uma segunda.

No entanto, muitas líbias viam sua defesa como superficial. As mulheres, como a maioria dos cidadãos, tinham praticamente nenhuma voz no governo. Aquelas que ele promovia, como suas guarda-costas, eram vistas como acompanhantes, objetos sexuais ou ambos.

As oportunidades educacionais para as mulheres de famílias bem conectadas faziam pouca diferença para as famílias conservadoras e rurais que mantinham as mulheres fora da esfera pública. Mesmo em Trípoli, onde muitas mulheres trabalham, dirigem e se misturam com os homens, levando vidas menos limitadas do que algumas de suas colegas árabes, a independência feminina era frágil. Bredan perdeu sua chance na escola de medicina por zombar do Livro Verde.

Bashir, a professora de arte que ri quando lembra de seus dias como traficante de armas, queria construir uma carreira como artista. Mas o patrocinador de sua primeira exposição de desenhos, um homem do governo, exigiu sexo. Ela cancelou a exposição, escondeu os desenhos e focou sua vida pública em torno de criar os filhos. "Eu esqueci tudo que eu sonhava", disse Bashir, 40.

Mas ela encontrou outra saída, uma que se mostrou valiosa durante a revolução: coordenou uma instituição de caridade sigilosa. No início, em 2005, Bashir e Gdour, a psicóloga de sua escola, secretamente arrecadaram cerca de US$ 5 mil por mês para famílias pobres. Quatro ou cinco famílias um dia vieram a Gdour, a filha solteira de um imam, em busca de dinheiro e roupas.

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Dra. Rabia Gajun arrecadava dinheiro secretamente para construir uma clínica e oferecer cuidados e medicamentos aos rebeldes

Do outro lado da cidade, Dra. Rabia Gajun, a quem não conheciam, mas que iria fazer parte de suas vidas durante a revolução, também arrecadava dinheiro secretamente para construir uma clínica e oferecer atendimento gratuito.

Quando seus parentes do sexo masculino deixaram Trípoli para lutar, suas instituições de caridade adquiriram uma nova missão. Gajun contrabandeou remédios e uma impressora para os rebeldes. Um vizinho de Gdour lhe disse que os rebeldes fora da cidade precisavam de munição. Então, ela comprou balas de um conhecido que atuava nas forças militares de Kadafi e as entregou em sua bolsa.

Gdour dirigiu com seu vizinho para entregar fuzis escondidos sob o assento de um carro. Uma amiga transportou dinheiro para os rebeldes dentro da fralda de seu bebê.

Enquanto Trípoli se preparava tranquilamente para uma possível revolta, Bashir anotava pedidos de armas – que ela chamava de "papel de cera" e "carne" – de diversos grupos. Um conhecido de Gdour entregava as armas em seu veículo militar.

Ao mesmo tempo, Shibadi, a advogada que antes pensava ser muito emocional para se tornar uma juíza e que foi proibida por sua família de estudar inglês no exterior, ajudou a determinar alvos para ataques aéreos. Ela coletava informações sobre os locais com amigos e familiares atuantes nas forças de segurança e repassava a informação para uma amiga cujo primo, um rebelde, transmitia os dados para líderes com contato com a Otan.

Duas vezes, uma amiga que vive em um arranha-céu perto do aeroporto viu soldados carregando armas pesadas. Duas vezes, Shibadi relatou o acontecido e bombas da Otan logo atingiram o local. Ela não tinha certeza de que os bombardeios aconteceram por sua causa, mas a possibilidade disso era emocionante.

Quando os combates atingiram Trípoli, mulheres revolucionárias seguiram para o Hospital Matiga, abandonado por médicos e enfermeiros pró-Kadafi. Foi ali que muitas se conheceram pela primeira vez.

Bredan, finalmente usando uniformes e tratando pacientes, não saiu do hospital desde então. "Agora todo mundo me chama de doutora", disse ela na semana passada com um sorriso.

Fawzia al-Dali, 51, cozinhava o almoço. Ela deixou seus sobrinhos construírem armas em sua casa, que foi saqueada pelas autoridades. "Por que eu arrisquei?", ela perguntou. "Por Deus, pelo gosto da liberdade, pela nossa terra, pela liberdade, pelo futuro."

As mulheres líbias têm grandes planos e enfrentam grandes obstáculos. Mas na semana passada Gdour, Gajun e outras se reuniram para planejar a continuação de seus atos.

Gajun queria rastrear prisioneiros desaparecidos. Gdour queria concorrer a um cargo político. Naima Badri, uma de suas sócias na instituição de caridade, queria organizar uma conferência de mulheres no conselho municipal de Trípoli. Elas estão todos trabalhando juntas em uma feira de caridade. "Nós nunca mais vamos deixar ninguém nos controlar", disse Shibadi.

Por Anne Barnard

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