Mulher luta por informações sobre sul-coreanos sequestrados

Filha de sequestrado luta para saber destino de cerca de 83 mil civis levados para a Coreia do Norte durante a guerra

The New York Times |

Em uma calçada no centro de Seul, na Coreia do Sul, Lee Mi-il e vários outros coreanos mais velhos se revezavam em um microfone, ditando o que parecia ser uma lista interminável de nomes. Eles começaram pela manhã e continuaram ao longo da noite, anunciando um nome após o outro – 83 mil no total – em um dos mais movimentados distritos da cidade. Alguns pedestres mais jovens faziam uma pausa incomum para observar a manifestação. Mas a maioria deu pouca atenção.

A cena poderia ter sido uma metáfora para a luta de Lee, que já dura mais de uma década. Desde 2000, Lee faz campanha para chamar atenção ao destino de dezenas de milhares de sul-coreanos que teriam sido levados à força para a Coreia do Norte durante a Guerra da Coreia, seis décadas atrás. Ela exige que o governo negocie o retorno daqueles que ainda podem estar vivos e os restos mortais daqueles que já não estão.

NYT
Lee Mi-il (esquerda) olha álbum de fotos da família com a mãe, Kim Bok-nam, em sua casa em Seul, na Coreia do Sul (26/11)

Oficiais do governo que nunca fizeram da questão uma prioridade quando negociam com os representantes norte-coreanos, tratam sua campanha como uma distração do que consideram uma tarefa mais importante: convencer o Norte a abandonar suas armas nucleares.

Mas Lee, 62, não vai desistir e recentemente conseguiu algumas vitórias contra o que ela chama de "uma gigantesca escuridão e esquecimento”. "Gritamos os nossos de nossos pais porque a sociedade já não se lembra deles", disse ela durante uma entrevista em seu escritório, onde uma parede está coberta com as fotografias em preto e branco de pessoas que teriam sido sequestradas durante a guerra, incluindo seu próprio pai. "Esperamos que eles nos ouçam e saibam que são lembrados."

Durante a guerra que durou de 1950 a 1953, a Coreia do Norte sequestrou dezenas de milhares de civis sul-coreanos, principalmente servidores públicos, educadores, escritores, juízes, pastores e empresários. Quase todos eram homens. Alguns de seus nomes aparecem nos livros didáticos sul-coreanos que descrevem seus papéis na construção do jovem Estado conforme ele emergiu do domínio colonial japonês. De acordo com relatos da família e do governo, os norte-coreanos muitas vezes pareciam acreditar que as pessoas queriam ir para o Norte, aparentemente para fazer parte de sua massa de profissionais para reconstruir o país após a guerra ou, em outros casos, para neutralizar inimigos como membros de grupos anticomunistas de direita.

Quando o pai de Lee, proprietário de uma fábrica em Seul, foi levado, ela tinha 18 meses de idade e estava doente. Uma lesão medular a deixou com as costas curvadas. Quando ela fala, sua voz é pouco mais que um sussurro rouco, e ela tem apenas 1,37 metros de altura. Mas raramente deixa de sorrir. "Durante os ataques aéreos, minha mãe disse que eu gritava sem parar no abrigo subterrâneo", disse ela. "Isso arruinou minhas cordas vocais."

Quando o Exército dos Estados Unidos assinou uma trégua com a Coreia do Norte em 1953, prisioneiros de guerra foram trocados, mas os civis sequestrado ficaram de fora do acordo. Seu destino e o sofrimento das mulheres que deixaram para trás são narrados em uma canção popular: “Mãos atadas com um fio de aço / meu amor olhou para trás como quando foi arrastado descalço e mancando / Mesmo que demore 10 ou 100 anos / por favor, volte para casa vivo.”

Mas durante a ditadura da Guerra Fria no Sul, as mulheres foram impedidas de realizar protestos nas ruas. Elas foram mantidas sob vigilância por medo de que a Coreia do Norte pudesse enviar de volta seus parentes como espiões. Muitas vezes seus filhos foram levados para interrogatório por agentes locais que procuravam qualquer indício de traição.

Com o passar dos anos, muitos idosos abandonaram a esperança de fechar um acordo com o Norte, e as gerações mais jovens estão ansiosas para seguir em frente. Muitas famílias perderam a esperança de que seus parentes ainda estejam vivos, ou temem que o ativismo em seu nome possa apenas prejudicá-los no Norte.

Lee, que é divorciada e sem filhos, tinha uma creche em Seul, em 2000, quando decidiu romper seu longo silêncio. Naquele ano, o presidente da Coreia do Sul, Kim Dae-jung, e o líder norte-coreano, Kim Jong Il, realizaram o primeiro encontro de cúpula entre as duas Coreias. Quando seus governos depois arranjaram reuniões de famílias separadas pela guerra, os sequestrados foram mais uma vez excluídos.

Nos anos que se seguiram, a Coreia do Sul injetou bilhões de dólares em ajuda humanitária na esperança de que isso iria incentivar mais gestos humanitários pelo Norte. Mas o governo do Norte ainda não divulgou nenhuma informação sobre os desaparecidos sul-coreanos ou permitiu a comunicação entre familiares, insistindo que qualquer intelectual do Sul que acabou no Norte o fez voluntariamente. O país diz que a campanha de Lee é "uma provocação política grave."

"Eles nunca admitiram o sequestro, porque isso seria admitir um crime," disse Lee. "Eles só esperam que todos nós estejamos mortos em breve e tudo isto seja esquecido."

Em 2000 ela fechou sua creche e criou a União das Famílias dos Sequestrados da Guerra da Coreia, que reúne 700 famílias.

Em 2002 seu grupo encontrou um documento governamental de 1952 que enumera 83 mil sul-coreanos sequestrados, uma compilação preliminar de guerra que as autoridades tinham anteriormente negado existir. Ele estava juntando poeira, um material não catalogado numa biblioteca do governo.

Em seu site, o grupo publica entrevistas com as esposas e mães cujos relatos em primeira mão da guerra de outra forma seriam perdidos com suas mortes.

No ano passado, após sete anos de lobby por seu grupo, os legisladores aprovaram uma lei que autoriza a primeira investigação do governo sobre sequestros cometidos durante a guerra. Em agosto, o painel do governo confirmou 55 homens como sequestrados. Outras decisões como essa são esperadas durante a investigação de quatro anos. Para Lee, o reconhecimento oficial era um primeiro passo para estabelecer um "crime de guerra (cometido de maneira) sistemática" pela Coreia do Norte.

De acordo com estimativas do governo sul-coreano, as tropas comunistas e as milícias do Norte mataram entre 59 mil e 122,8 mil civis sul-coreanos durante a guerra.

Tropas da Coreia do Sul realizaram massacres semelhantes de civis que eram suspeitos de serem de esquerda, de acordo com investigações recentes do governo. Ainda não está claro quantas pessoas foram mortas em execuções em massa na Coreia do Norte. No entanto, durante o seu avanço de curta duração para o Norte, as tropas americanas e sul-coreanas descobriram sepulturas coletivas de civis, incluindo mulheres e crianças, aparentemente mortos por comunistas na pressa de se retirar. Também não está claro o que aconteceu com os sul-coreanos levados para o Norte.

Kim Yong-il, que foi sequestrado e depois escapou da Coreia do Norte durante a guerra, disse que 600 dos 3 mil sul-coreanos aos quais foi forçado a se juntar participaram de uma "marcha da morte" para Pyongyang, capital da Coreia do Norte, sendo vítimas da fome, de doenças e de ataques na região onde estavam.

"Os jovens devem saber que a prosperidade que desfrutam hoje foi construído sobre os sacrifícios dessas pessoas esquecidas," disse Lee. "Esquecer é ingratidão, o pior de todos os pecados."

Neste ano, alguns ministros começaram a usar alfinetes de lapela na forma de uma flor azul conhecida como “Não me Esqueça”, que o grupo de Lee distribui como parte de sua campanha de conscientização.

Ela também levou sua campanha para os Estados Unidos, onde algumas famílias coreanas imigraram para escapar da vigilância política e da pobreza em casa. Eles estão apelando para uma resolução do Congresso dos Estados Unidos pedindo o retorno de seus parentes da Coreia do Norte.

"Apesar de estarmos gratos aos americanos por defender a nossa nação durante a guerra, estamos decepcionados com seu fracasso em libertar as pessoas sequestradas durante as negociações do armistício", disse Lee. "Muitos são agora cidadãos americanos. Por isso trata-se também de um problema americano.”

Quando seu grupo fez uma manifestação em abril para recitar os nomes dos sequestrados, a mãe de Lee, Kim Bok-nam, 89, foi a primeira a falar ao microfone. Com a voz trêmula, ela começou com o nome de seu próprio marido, Lee Seong-hwan, que se ainda estiver vivo, teria 91 anos.

Kim nunca se casou novamente. Duas de suas três filhas imigraram para os Estados Unidos, mas ela e Lee permaneceram na antiga casa da família. "Minha mãe acredita que se meu pai voltar, ele virá a esta casa", disse.

Por Choe Sang Hun

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