Mudanças na segurança afegã colocam grupos de auxílio em risco

Plano para abolir empresas de segurança privadas e manifestações antiamericanas levam crise a projetos financiados pelos EUA

The New York Times |

A gerência de uma empresa que faz o trabalho de auxílio e desenvolvimento para o governo dos Estados Unidos sabe que alguns de seus funcionários alocados no Afeganistão possuem armas de fogo em seus quartos – e optam por fingir que não veem. Em outra empresa do mesmo ramo, advogados analisam se a companhia poderia processar a Agência de Desenvolvimento Internacional dos Estados Unidos por violação de seu contrato, citando a deterioração da segurança no Afeganistão .

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Um plano do governo afegão para abolir as empresas de segurança privada no fim deste mês, juntamente com uma onda de manifestações antiamericanas no Afeganistão no mês passado, deixaram os grupos privados que ajudam a realizar a maior parte do trabalho de desenvolvimento financiado pelos EUA no norte do país em crise para ver o que acontecerá com suas operações, colocando em risco bilhões de dólares que já foram investidos em projetos, disseram as autoridades.

Isso, por sua vez, ameaça uma parte vital dos planos do governo Obama para o Afeganistão, que preveem uma missão de desenvolvimento contínuo após o término da missão de combate da Otan no país em 2014.

NYT
Membros da Força de Proteção Pública do Afeganistão que substituirão empresas de segurança privadas treinam em Cabul
As recentes manifestações, desencadeadas pela queima de Alcorões por militares americanos no dia 20 de fevereiro, gerou dúvidas sobre quase todas as facetas da presença dos EUA no Afeganistão, incluindo um acordo de uma parceria estratégica de longo prazo. Na sexta-feira, algum progresso foi feito quando os EUA e o Afeganistão chegaram a um acordo para que os afegãos assumissem o controle da principal prisão da coalizão nos próximos seis meses.

Mas os problemas no lado civil da missão podem ter um efeito colateral imediato, segundo trabalhadores e especialistas de desenvolvimento. Além disso, estão aumentando as preocupações sobre as novas medidas de segurança implementadas pelo governo afegão, que no dia 20 de março visa substituir as companhias privadas de segurança que agora cuidam dos trabalhadores humanitários por uma força de segurança afegã.

Diante da perspectiva de uma mudança repentina na organização de sua segurança, sem nenhuma garantia de que a força afegã poderá ser organizada a tempo ou que irá satisfazer as suas necessidades específicas, as organizações estão avaliando o futuro de suas operações no país.

Expatriados e guardas afegãos, armados com revólveres e rifles de assalto, perambulam pelas ruas de Cabul já faz muito tempo, e o presidente Hamid Karzai tem criticado por um bom tempo sua presença como sendo uma afronta à dignidade do Afeganistão e uma ameaça à lei e ordem da nação. Em 2010, ele ordenou repentinamente que as empresas de segurança fossem dissolvidas e substituídas por uma nova força oferecida pelo governo afegão.

Plano

O plano sugere que guardas particulares afegãos façam parte da nova força, conhecida como a Força Pública de Proteção do Afeganistão, que será responsável pela segurança de tudo, desde projetos de auxílio até comboios de abastecimento da Otan.

A força já formou 8 mil novos guardas, disse Siddiq Siddiqi, um porta-voz do Ministério do Interior que porta uma arma particular para sua proteção.

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Os 11 mil guardas afegãos que trabalhavam para as 45 empresas de segurança privadas que operavam no Afeganistão farão parte da força afegã, disse ele. Eles então serão enviados de volta para os mesmos lugares em que trabalhavam anteriormente e as empresas que antes pagavam uma empresa de segurança privada para os guardas irão pagar ao Ministério do Interior para cobrir seus salários, além de uma taxa de 20% a mais para que possam ter um lucro – que de certa maneira acaba sendo um negócio para o endividado governo afegão.

As duas primeiras empresas americanas - a International Relief and Development e uma junção entre a Louis Berger Group e a Black & Veatch - assinaram contratos na semana passada com o Ministério do Interior afegão para trabalhar com a nova força. Autoridades americanas disseram que essas ações podem ser vistas como o primeiro sinal de que a nova guarda está ganhando a confiança da comunidade internacional.

Cortes

A maioria das organizações independentes de auxílio espera para ver o que irá acontecer quando a Otan partir do país, determinadas a permanecer no Afeganistão ainda que de forma reduzida. A CARE, por exemplo, já reduziu seu quadro de funcionários de 1,1 mil para 450 pessoas, principalmente porque a ajuda internacional está diminuindo. Cortes no orçamento forçaram o fechamento de dois de seus maiores programas: um programa de formação de professores destinado, em grande parte, à educação de mulheres nas províncias, e um programa de projetos de trabalho em Cabul.

A maioria dos funcionários de sua equipe são afegãos, mas sua equipe internacional de 16 diminuiu para cerca de seis, e os trabalhadores humanitários que antes viajavam mais livremente pelo país, agora estão confinados à capital, Cabul, por causa da intensificação das preocupações com sua segurança.

Os seus funcionários afegãos também estão achando que o espaço no qual eles podem trabalhar com segurança está cada vez mais restrito. Em uma província central afegã perto de Cabul, os funcionários locais costumavam ser capazes de chegar até um projeto no qual trabalhavam em uma província próxima em um percurso que durava cerca de duas horas, agora eles devem precisam fazer uma viagem de quase 14 horas através de duas outras províncias para evitar uma zona de conflito que está cada vez maior.

"A situação está ficando mais difícil", disse Jennifer Rowell, coordenadora da CARE no Afeganistão. "O conflito está piorando e deve continuar a piorar. O país está em um estado de declínio constante", relatou.

*Por Matthew Rosenberg e Graham Bowley

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