Mudança no mercado exclui trama e encurta filmes pornográficos

A atriz conhecida como Savanna Samson costumava gostar de se preparar para um papel. Eu mal podia esperar pelo meu próximo roteiro, ela conta. Agora não há motivo para estudá-los, ela diz, porque seus filmes atualmente pedem apenas ação. Mais especificamente, sexo.

The New York Times |

A indústria de filmes pornográficos há muito tem interesse apenas casual por diálogos e trama. Mas os cineastas passaram a se concentrar cada vez menos nos arcos narrativos nos dias atuais. Ao invés disso, eles filmam cenas curtas que podem ser facilmente publicadas em websites e vendidas em instâncias contabilizadas por minutos.


Filmes longos e com roteiro perderam espaço para pequenas "vinhetas" / Getty Images

"Na internet, a atenção concentrada dura entre três e cinco minutos", disse Steven Hirsch, vice-presidente do Vivid Entertainment. "Nós temos que servir isso".

O Vivid, um dos maiores estúdios de filmes pornográficos, faz cerca de 60 títulos por ano. Há três anos, quase todos eram longa metragens com trama. Hoje, mais da metade representa uma série de cenas de sexo, interconectadas aleatoriamente por algum tema ("vinhetas", no jargão da indústria) que podem ser apresentadas online. Outros grandes estúdios seguem o mesmo caminho.

O interesse do setor por cenas roteirizadas desapareceu lentamente com as mudanças na tecnologia. No começo dos anos 1970, os filmes com algum roteiro, como "Deep Throat" e "Behind the Green Door", conquistaram um grande público e outros tentaram copiar este sucesso, vendendo filmes centrados na trama a casais que os assistiam em casa, com tecnologia VCR de 1975.

Depois, a queda no preço das câmeras filmadoras fez surgir uma geração de pornográficos com pouco interesse na trama, além do clichê envolvendo o entregador de pizza, disse Paul Fishbein, presidente da AVN Media Network, uma editora do setor.

Fishbein afirmou que o roteiro entrou mesmo na moda no final dos anos 90 com o surgimento do DVD. Grandes estúdios, ele disse, acreditavam que a narrativa faria com que os filmes se tornassem mais atraentes para as mulheres e encorajaria casais a tê-los em casa (seja em DVD ou em pay-per-view).

O roteiro esteve no auge em 2005 com o lançamento de "Pirates", sobre um grupo de marinheiros que caça um bando de piratas do mal. Este filme, com um orçamento de mais de US$ 1 milhão, teve efeitos especiais (piratas se materializando da névoa) e, claro, muito sexo. 

Dois anos depois, o estúdio responsável pela produção, o Digital Playground, gastou US$ 8 milhões em uma sequência (um valor marcante para uma indústria na qual um filme custa em média US$ 25 mil), de acordo com o diretor dos dois filmes, Ali Joone.

Mas o interesse nos DVDs despencou, disse Fishbein, porque a internet facilitou que as pessoas assistam trechos de filmes online.


DVDs perderam espaço para internet / Getty

Fishbein estima que a venda de DVDs pornográficos e seu aluguel nos Estados Unidos gerou US$ 3,62 bilhões em 2006, mas caiu até 50% desde então. Ele afirma que essa mudança no mercado faz com que algumas companhias relutem em divulgar os números de vendas, então as análises não são precisas.

Os grandes estúdios, como Vivid e Digital Playground, passaram a adotar um modelo de assinatura, cobrando mensalmente pelo acesso a seus websites e fazendo propaganda sobre a frequência com a qual disponibilizam novos vídeos.

Joone disse que das 60 produções da Digital Playground deste ano, cerca de 30 não tinham trama. No ano anterior, apenas 10 eram assim. Na Wicked Pictures, que realiza em média um filme por semana, um terço das produções é composta essencialmente de cenas de sexo, o dobro de dois anos atrás, disse o presidente da companhia, Steve Orenstein.

"A história já não é de grande interesse da indústria", disse Orenstein. Mas ele afirmou também que planeja dois ou três grandes filmes por ano, inclusive o recém-filmado "2040", que se passa no futuro. Orenstein descreveu o filme como "uma história de Romeu e Julieta entre um astro do cinema pornográfico envelhecendo e um ciborgue".

No lugar da trama, hoje existem temas. Entre os novos lançamentos do New Sensations, um estúdio que faz 24 filmes por mês, está "Girls 'n Glasses", composto de cenas nas quais mulheres fazem sexo de óculos. "Parece que voltamos aos anos 70 ou 80 quando os filmes tinham em média oito minutos e apenas cenas de sexo", disse Hirsch.

Alguns membros da indústria parecem preferir um maior desenvolvimento das personagens. Samson, por exemplo, disse que levou seu curso de atuação a sério e que costumava se preparar para os papéis, como a personagem que interpretou em "Flasher", um filme de 2006.


Savanna Samsom autografa fotos para fãs / Getty Images

Ela disse que interpretava uma psicótica que, por causa da forma como sua mãe a tratava, "tinha obsessão em mostrar os peitos e fazer coisas em público".

"Eu costumava ter diálogos", disse Samson, uma das maiores celebridades da indústria cinematográfica da pornô, cujo nome de batismo é Natalie Oliveros. "Mandar ver em uma cena hardcore atrás da outra não é tão divertido", ela acrescentou.

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