Muçulmanas buscam igualdade nos princípios islâmicos

KUALA LUMPUR ¿ A ordem religiosa que impede a mulher de vestir roupas consideradas masculinas já era ruim o suficiente. Mas o fatwa (pronunciamento legal) pelo clérigo que lidera o país contra o ioga foi a última gota.

The New York Times |

Eles nunca fizeram ioga, disse Zainah Anwar, fundadora do grupo de direitos das mulheres malaias, chamado Irmãs do Islã.

Anwar argumenta que o decreto, lançado no ano passado pelo Conselho Nacional Fatwa da Malásia, é absolutamente patriarcal. De acordo com ela, o islamismo é apenas um disfarce.

Foram insatisfações como essas que levaram centenas de muçulmanas a uma conferência no país que ocorreu neste fim de semana, no país cuja maioria é muçulmana. A missão delas era levantar formas de exigir direitos iguais para as mulheres. E suas ferramentas, embora duvidosas, foram os próprios princípios da religião.

O feminismo secular cumpriu seu papel histórico, mas não tem mais nada a nos oferecer, disse Ziba Mir-Hosseini, antropologista iraniana que ajudou a formular alguns argumentos. O desafio que enfrentamos agora é teológico.

Encontro

Os defensores vieram de 47 países para participar do projeto, chamado Musawah, palavra que significa igualdade em árabe. Eles passaram o fim de semana pensando em ideias e soluções e aprendendo os melhores argumentos islâmicos para serem apresentados à sociedade em defesa contra os clérigos, que insistem que a vida das mulheres deve ser ditada pelas interpretações rigorosas do islamismo feitas pelos homens.

Estamos tentando desenvolver uma nova linguagem, oferecer ela ao mundo e usá-la, disse Marwa Sharafeldin, ativista do Egito.

Anwar, principal organizadora, disse que seu grupo era um dos únicos quando foi fundado há 20 anos, mas agora é um de muitos. É um movimento cuja hora chegou.

Visões diferentes

A repressão não vem do Alcorão, argumenta ela, mas da interpretação humana dele, na forma da lei islâmica, que, com os séculos, se tornou mais dura enquanto a vida globalizada seguia em frente. Então, elas voltarão ao texto original, argumentando que sua ênfase na justiça aponta para a igualdade.

A sabedoria do Islamismo Feminista está tentando revelar os fatos que estavam lá, disse Mir-Hosseini a uma sala cheia de ativistas ávidos, neste domingo. Não podemos ter medo de olhar para a tradição legal de forma crítica.

Ela se referiu ao trabalho de intelectuais muçulmanos, como Nasr Aby Zayd do Egito e Abdolkarim Soroush do Irã, reformadores que argumentam que o Alcorão deve ser lido a partir de um contexto histórico, e que as leis deverivadas dele podem mudar com o tempo. Suas idéias são controversas e ambos estão exilados no ocidente.

Mir-Hosseini argumenta que as sociedades muçulmanas estão presas em uma batalha entre duas visões do islamismo: uma legalista e absolutista que enfatiza o passado; outra pluralista e mais inclinada à democracia. Ela disse que no Irã os reformadores estão ganhando espaço, mas o antagonismo do ex-presidente George W. Bush em relação ao país acabou fortalecendo extremistas.

É realmente uma luta entre duas visões de mundo, disse Mir-Hosseini, acrescentando que o tempo está do lado das mulheres.

Fortalecimento

Foi o crescimento do islamismo político que uniu as mulheres. Enquanto as leis de famílias progressivas começavam a ser reprimidos na Malásia, no fim dos anos 80, Anwar e muitas outras mulheres formaram um grupo de leitura do Alcorão.

O entendimento que os mulás (aquele versado na lei islâmica) mais conhecem é o de que mulheres não devem falar, disse Anwar. Grupos de muçulmanas estão surgindo para desafiar essa autoridade.

Alguns acadêmicos disseram que o esforço parecia irrealista e não teria impacto, principalmente porque parece ignorar mais de milhares de anos de sabedoria e prática da lei islâmica. Autoridades religiosas são as únicas com poder para interpretar a lei, e burlar o sistema bem estabelecido exigiria uma substituição dele por completo.

Esse tipo de argumento está sendo feito nos limites do mundo islâmico, disse Barnard Haykel, especialista na lei islâmica da Universidade de Princeton. Ele foi desenvolvido e consolidado, mas sem um conteúdo consistente. Não há realmente uma maneira de fazer essas mudanças.

Conquistas

Embora essa mudança acrescente algo, muitos dizem que ela está acontecendo aos poucos em diversas sociedades muçulmanas. Isobel Coleman, membro veterano do Conselho de Relações Exteriores, que participou da conferência, argumenta que esses movimentos femininos estão progredindo, com o aumento do nível educacional de garotas e porque o mundo ocidental estava a apenas um clique por meio da televisão por satélite. As mulheres estão até assumindo posições em instituições religiosas, disse ela: Uma mulher está no Shariah College da Universidade do Catár.

É uma mudança lenta, disse Coleman, cujo livro sobre o tópico, Paradise Beneath Her Feet: Women and Reform in the Middle East (Paraíso sob os pés dela: mulheres e a reforma no Oriente Médio, em tradução livre), será publicado pela Random House em 2010. Está apenas começando a ser reconhecida como um movimento.

Já houve alguns sucessos. Em Marrocos, mudanças abrangentes na lei familiar em favor da mulher causaram efeito em 2004. Críticos argumentaram que foi possível simplesmente porque o rei do país aprovou, mas ativistas marroquinas disseram que isso nunca teria acontecido se não tivessem passado anos intermediando a causa e formulando argumentos legais, alguns deles baseados em princípios islâmicos. Isso resultou em uma onda de efeitos.

Elaheh Koolaee, professora da Universidade de Teerã, que anteriormente serviu no Parlamento do Irã, disse que as mulheres iranianas estão assistindo ao exemplo marroquino e que o sucesso muçulmano era um instrumento inestimável. É importante para nós mostrar experiências positivas em sociedades muçulmanas que não são dos Estados Unidos ou da Europa, disse ela.

Mir-Hosseini disse acreditar que a mudança está por vir e que é apenas uma questão de tempo. Há tanta tensão e energia no país agora, disse. Será um dilúvio.

Por SABRINA TAVERNISE

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