Muçulmana visita o Marco Zero em busca do conforto de Alá

Viúva desde o 11 de Setembro, Hadidjatou Traore cria os filhos sozinha depois de ter perdido o marido em 2001

The New York Times |

Praticamente em todos os 11 de setembro desde o 11 de Setembro, Hadidjatou Karamoko Traore garante que seus três filhos estejam vestidos com suas melhores roupas e os leva de sua casa de tijolos no Bronx ao local onde ficava o World Trade Center, e onde seu marido, o pai das crianças, trabalhava e morreu.

Depois dos ataques tudo o que restou de Abdoul-Karim Traore, um cozinheiro do restaurante Windows on the World, foram a sua carteira de couro, seus cartões de identificação e algumas moedas.

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A viúva Hadidjatou Karamoko Traore, 40 anos, com os filhos Siaka, 9 anos, e Souleymane, 11 anos, em Nova York
"Eu gosto de ir lá e orar e ver o lugar e lembrar ", disse Traore, nativa da Costa do Marfim que chegou aos Estados Unidos em 1997. "Quando eu vou lá, me sinto mais perto dele. E ele de mim. Eu rezo por ele também". Quando reza, ela chama por Alá.

Hadidjatou, 40 anos, diz que orar diante da cratera parece algo totalmente natural, mesmo que alguns daqueles que estão ao seu lado – as viúvas e viúvos, pais e filhos – culpem sua religião pela destruição daquele dia. "Isso não é justo", ela disse. "Não é por causa de Alá que os prédios caíram".

Ela é a viúva de um dos cerca de 60 muçulmanos – cozinheiros, empresários, membros de equipes de emergência e passageiros de aviões – que acredita-se terem morrido no 11/09. É um grupo que tem sido pouco analisado e não há uma contagem precisa de seus números. Porém, suas histórias, têm sido frequentemente usadas como contrapeso no último debate público sobre o terrorismo e o islã.

Turno da noite

Hadidjatou trabalha no turno da noite, como assistente de enfermeira no Centro Médico Jacobi no Bronx. Ela gosta de cozinhar: molho de amendoim e pastas para fritura são suas especialidades. Tem um sorriso largo e uma gargalhada rouca. Sua vida, um constante malabarismo entre casa, contas e oração, é uma história do 11 de Setembro – o tipo de relato pessoal que o prefeito Michael R. Bloomberg e outros têm procurado destacar em meio ao debate sobre um centro comunitário islâmico planejado para perto do local onde Hadidjatou ora em setembro.

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Na foto, Abdoul-Karim Traore, vítima do 11 de Setembro, com seus filhos
Ao longo dos últimos nove anos, ela viveu uma espécie de vida dupla. Ela é uma viúva do 11/09 lutando para criar os filhos, lidar com sua perda e domar sua raiva. As dificuldades de seus dias são conhecidas por mães e pais solteiros de Staten Island a Washington. Mas ela também é uma mulher muçulmana, dedicada à sua fé e consciente do desconforto que pode evocar em sua pátria adotiva.

Ela usa roupas ocidentais quando vai às compras no supermercado Costco. Mas opta por uma túnica e lenço na cabeça quando visita sua mesquita no Bronx. Quando está em seu traje religioso, ela pode perceber uma mudança em como as pessoas a olham com desconfiança nas ruas.

"Quando as pessoas fogem de mim, eu me sinto triste", ela disse. "Mas eu entendo porque fazem isso. O que aconteceu foi terrível".

Seus dois filhos, Souleymane, 11 anos, e Siaka, 9 anos, frequentam uma escola católica perto de sua casa. Durante a oração, eles se sentam na parte de trás da sala de aula com outros poucos alunos que não são católicos. Eles se sentem confortáveis lá, mas também têm escondido a sua religião de valentões do colégio.

Hadidjatou recebeu dinheiro do governo como compensação pelo 11 de setembro e disse ter ficado surpresa e grata com a generosidade americana. Mas também está frustrada e incomodada sobre como tantos americanos acham impossível separar os devotos de sua fé de seus fanáticos. Mas isso não tem minado suas crenças.

"Eu tenho orgulho de ser muçulmana", ela disse. "Eu vou ser muçulmana até Alá levar o meu espírito".

*Por Sam Dolnick

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