Movimento contra monarquia cresce na Suécia liberal de hoje

Um dos maiores defensores do fim do regime monarquista, a Associação Republicana Sueca vem apresentando boom de sócios

The New York Times |

Dezenas de membros de uma associação que busca abolir a monarquia se sentaram em torno de uma mesa em um espaçoso apartamento no extremo norte de Estocolmo, capital da Suécia, quando alguém no fundo da sala murmurou: “Duzentos anos após a Revolução Francesa e nós ainda temos um rei”.

Em outros tempos e em outros lugares, essas pessoas teriam sido perseguidas por agentes do rei. Mas na Suécia liberal de hoje, elas estão ganhando espaço. Na verdade, a Associação Republicana Sueca cresceu tão rápido - seu número de sócios passou de 2.500 para 7.300 em um ano -, que essa reunião foi convocada para discutir uma série de propostas ambiciosas, incluindo a abertura de um escritório permanente, a criação de um jornal anti-monarquista e a formação de um movimento europeu conttrário à monarquia.

O grupo prevê filiais em sete países onde reis ou rainhas continuam a reinar, incluindo Grã-Bretanha, Holanda, Espanha e os países escandinavos vizinhos, Dinamarca e Noruega. “O apoio à monarquia está caindo em toda a Europa”, disse Mona Abou-Jeib Broshammar, secretária-geral da associação.

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A princesa Victoria e o marido Daniel Westling, da Família Real sueca, na chegada para espetáculo
Certamente uma adesão de 7.300 pessoas não é muito em um país de 9 milhões, mas o crescimento da associação é notável, dado que a Suécia vive um período de alta da monarquia por causa do casamento de conto de fadas da princesa Victoria, 33 anos, com seu ex-personal trainer. Milhares de pessoas se reuniram na capital para o desfile do casamento, enquanto outros milhões acompanharam tudo pela televisão.

Dúvidas

Em meio à euforia, no entanto, as dúvidas permaneceram. Apesar de o principal jornal da Suécia, o Aftonbladet, ter estabelecido uma equipe em fevereiro para cobrir o casamento, a publicação complementou fotos da cerimônia com editoriais e artigos de opinião que criticavam a monarquia.

Na primavera passada, o Instituto SOM publicou os resultados de uma pesquisa mostrando que o apoio à monarquia havia caído de 58% para 56% em seis anos.

“É importante que também haja crítica”, disse Susanne Nylen, que liderou a equipe de cobertura do casamento. “Todo esse dinheiro foi gasto”.

As reclamações aumentaram depois que a companheira do príncipe Carl Philip, 31 anos, irmão da princesa Victoria, deixou-o por causa de sua fama de mulherengo. “Nós achávamos que poderíamos ter dois casamentos este ano”, disse Susanne. “Esta notícia foi uma bomba. Sabíamos que ele tinha casos há muito tempo”.

Democracia

A atitude de Susanne, que foi correspondente em Londres antes de assumir a cobertura real, é como a de muitos suecos. “Eu posso ver que a monarquia não está em consonância com a democracia, e entendo por que as pessoas estão contra ela”, disse. “Mas eles são bons em representar a Suécia, e é difícil obter publicidade dessa maneira com um presidente”.

Além disso, conforme a data do casamento se aproximava, menos críticas eram ouvidas. O Aftonbladet descobriu que 74% dos entrevistados em uma pesquisa apoiavam a monarquia.

Anders Janeborn é um dos apoiadores. “Eu acho que é bom, é uma coisa histórica”, disse Janeborn, cuja empresa vende equipamentos de ginástica.

O rei Carl Gustaf XVI era esperado neste fim de semana na aldeia Janeborn para comemorar seu aniversário em “uma grande festa”, disse Janeborn. Para aqueles que se opõem à manutenção das despesas da família real, de cerca de US$ 16 milhões por ano, segundo ele, membros da família real “trazem muito mais, pois estão vendendo a Suécia de um jeito bom”.

Lennart Nilsson, do Instituto SOM, no entanto, lembrou que a confiança na família real caiu ano a ano desde que o instituto começou a medi-la em 1995. “Ela continua caindo”, disse.

No entanto, ele não vê urgência da sociedade para fazer uma mudança. Em setembro, os suecos vão votar nas eleições nacionais, mas a monarquia não é um problema. “Outras questões” – como empregos, educação e saúde – “são muito mais urgentes”, disse Nilsson.

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A secretária-geral da Associação Republicana Sueca, Mona Abou-Jeib Broshammar, de origem libanesa
A Associação Republicana Sueca quer mudar isso a longo prazo, disse Mona Abou-Jeib Broshammar, sua secretária-geral. Nascida no Líbano, filha de pai sírio e mãe sueca, Mona, 32 anos, é emblemática quando fala das mudanças enfrentadas pela Suécia. Ela se mudou para a Suécia, quando sua família fugiu do Líbano por causa da guerra.

“Tenho visto como um país pode desmoronar por falta de democracia e direitos humanos”, disse ela, acrescentando que tem recebido mensagens de ódio por sua herança cultural – o pai é muçulmano e a mãe cristã. “Por causa da minha formação multiétnica, eles dizem que eu deveria deixar o país. Eles são racistas, não monarquistas”. Ainda assim, ela não sugere que a Suécia vai acabar como o Líbano.

Alto escalão

A associação tem atraído algumas figuras de alto escalão, incluindo o ministro de Assuntos Europeus e dirigentes de vários partidos políticos. A maioria dos partidos de esquerda inclui em sua plataforma o estabelecimento de uma república, mas nenhum persegue-a ativamente.

Os líderes de todos os partidos representados no Parlamento foram convidados para o casamento de Victoria, apenas Lars Ohly, 53 anos, do Partido de Esquerda - antigo Comunista da Suécia - não participou.

Os membros discutiram uma mudança de nome para a Associação Republicana, de modo a não ser confundido com o partido dos americanos John McCain e Sarah Palin, disse Mona. E se um dia conseguirem depor a monarquia, ressaltou Magnus Simonsson, membro do Partido Liberal e da associação, eles prometem clemência ao rei.

“Ele seria mais livre do que é hoje”, disse Simonsson, sorrindo. “E é claro que pode permanecer na Suécia”.

*Por John Tagliabue

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