Motim no Starbucks expõe falta de banheiros públicos em NY

Revoltados com sujeira deixada por clientes e não clientes, funcionários trancam sanitários e provocam revolta

The New York Times |

Para muitos funcionários da rede Starbucks em Nova York, a pior parte do trabalho não são as levas de turistas exigentes. Ou a irritação por fazer Frappuccinos cada vez mais complexos e “lattes” de chá verde. Ou, ainda, os chapéus de elfo que alguns baristas foram convidados a usar antes mesmo do dia de Ação de Graças.

É terem que ser faxineiros de banheiros tratados como públicos.

Agora, ao que parece, alguns desses baristas se cansaram.

Cansados de clientes – e não clientes – que deixam os banheiros desarrumados - ou pior do que isso – funcionários de algumas lojas começaram a trancá-los. Placas "Apenas para Funcionários" foram adotadas em outras.

NYT
Homens fazem fila para usar o banheiro de uma loja do Starbucks em Nova York (22/11)

A revolta parece refletir um descontentamento que se esconde entre os alegres baristas.

"Já limpei quase todos os fluidos humanamente possíveis e muitos que não pareciam sequer humanos", escreveu um funcionário no site StarbucksGossip, que faz uma defesa apaixonada da rede de cafés.

"Fico continuamente espantado com o que as pessoas fazem quando têm poucos metros quadrados de privacidade", disse outro. "Por que você quer fazer sexo em um banheiro? Na minha opinião o banheiro mata o desejo".

Além disso, a mesma pessoa gostaria de saber: "Por que beber cervejas lá dentro?"

Mas o motim não passou despercebido. Primeiro veio uma cobertura noticiosa na semana passada que retratou a empresa como inóspita. Ou, como disse o jornal New York Post: "Quando você tiver que ir ao banheiro, não conte com o Starbucks".

Leia também: Nova York estuda criação de parque subterrâneo

Em uma cidade com poucas opções de banheiro público, as pessoas reagiram como se a rede Starbucks estivesse revogando um direito.

O blog Gawker classificou os nova-iorquinos como "abalados e alarmados". Entre pedidos de cafés Tall, Grande e Venti, os funcionários da empresa em toda a cidade passaram a responder perguntas dos indignados, dos preocupados e dos desesperados. Finalmente, a sede da Starbucks em Seattle publicou uma defesa melancólica no Twitter: "Ei, nós não estamos fechando nossos banheiros, isso não é verdade."

Em poucos dias, de acordo com funcionários atuais e antigos, gerentes de alto escalão da rede Starbucks visitaram pelo menos duas lojas citadas e as obrigaram a liberar seus banheiros.

O fechamento dos banheiros pareceu tocar um nervo, expondo a dependência do público no que é essencialmente uma estratégia de marketing corporativo. A Starbucks há muito cria suas lojas como pontos de encontro onde as pessoas podem se sentar, usar o seu acesso à Internet gratuitamente e esvaziar o café de suas bexigas sem serem instadas a seguir em frente ou ir embora.

Há anos os nova-iorquinos têm esperado a instalação de banheiros públicos pagos, de limpeza automática, que a prefeitura apresentou com muita fanfarra em 2005 e novamente em 2008.

Mas os banheiros públicos pagos foram instalados em apenas três locais. O Departamento de Transportes da cidade disse que seria difícil identificar os pontos com a infra-estrutura necessária e onde os comerciantes locais não reclamariam. De qualquer forma, o programa municipal prevê apenas a colocação de 20 banheiros ao longo de um período de 20 anos. Há 190 lojas Starbucks em Manhattan.

Em uma loja na esquina da Rua 45 com a Sexta Avenida, uma marca é a única coisa que restou no local onde havia uma placa que determinava o uso "Apenas para Funcionários". "Estávamos usando o banheiro como um vestiário", disse uma funcionária.

Ela explicou que o banheiro tinha sido fechado porque um pequeno número de clientes sem consideração repetidamente haviam quebrado o vaso sanitário.

No terraço deserto de um Starbucks na Rua 85 com a Primeira Avenida, numa manhã nublada na semana passada, Chris Dalldorf fumava um cigarro.

"Você está falando com um cara que nunca bebe café no Starbucks", disse ele. “Quando eu quero café, uma lanchonete qualquer serve”.

"Mas", ele continuou, "sou um usuário habitual dos banheiros do Starbucks."

Matthew Shakespeare, um supervisor de turno no local, disse não estar preocupado.

"Eu também preciso usar o banheiro, e estamos vendendo café", ele disse. "A cidade não oferece banheiros. As pessoas arranjam problema nas menores coisas."

O banheiro de Shakespeare estava limpinho. Mas na Rua 87 com a Avenida Lexington, um local de tráfego para um número maior de pessoas, havia evidências de que alguns visitantes foram menos precisos em seu uso do banheiro, e Jesus Diaz, um assistente de gerente de turno no local, foi menos indulgente.

"A rede Starbucks definitivamente é a rede de banheiros públicos de Nova York", disse ele, parando para anunciar: "Chocolate com Menta Tall!". "É um pouco demais."

Por Anne Barnard

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