Mostra sobre Galileu ganha 'toque' católico

Partes recém-recuperadas do corpo do italiano são exibidos em Florença como relíquias de um santo

The New York Times |

O caso Galileu é muitas vezes visto como o primeiro golpe decisivo da ciência, não somente contra fé, mas também contra o poder da Igreja Católica Romana. Porém, nunca foi tão simples assim. Galileu era um fiel e ficou devastado por ter sido condenado por heresia, em 1633, por destruir a visão bíblica do universo.

Agora uma prática católica especialmente resistente está em exposição no Museu da Ciência de Florença, recentemente renovado e rebatizado em homenagem a Galileu: os defensores modernos do famoso herege estão exibindo partes recém-recuperadas de seu corpo - três dedos e um pedaço de um molar, quase um século depois de sua morte - como se fossem relíquias de um santo.

"Ele é um santo secular e as relíquias são um importante símbolo de sua luta pela liberdade de pensamento", disse Paolo Galluzzi, diretor do Museu Galileu, que colocou o dente e os dedos polegar e indicador à mostra no mês passado, ao lado de outro dedo do cientista que já fazia parte de sua coleção.

"Ele é um herói e um mártir da ciência", acrescentou.

A forma como as relíquias foram parar no museu pode ser um novo capítulo na vida e no legado de Galileu, que ainda estão em debate. Em 1992, a Igreja voltou atrás e reconheceu que os juízes que o condenaram por heresia cometeram um erro, mas não chegou a inocentar Galileu. E o retorno das relíquias ressalta, mais uma vez, contínuas tensões entre a Igreja e a cultura secular na Itália.

Os problemas do cientista não terminaram com sua morte, em 1642.

Como herege ele não pôde ser enterrado adequadamente. No entanto, durante anos após a sua morte seus seguidores na nobreza da Toscana pressionaram para dar-lhe um lugar de descanso à altura.

Quase um século depois, em 1737, os membros da elite cultural e científica de Florença revelaram os restos mortais do cientista em um rito maçônico peculiar. A maçonaria cresceu como um contrapeso ao poder da Igreja naquela época e até hoje paira no imaginário popular italiano como uma força anticlerical.

Embora as relíquias sejam a maior atração do museu, elas são uma pequena parte do museu, que reabriu no mês passado depois de uma grande e elegante reforma que fez uso de alta tecnologia para transformar o local no lar de uma das melhores coleções de luxo da Itália - um gabinete de curiosidades belamente ornado com instrumentos científicos .

Em uma manhã ensolarada recente, os visitantes pareciam cativados por telescópios, joias, globos pintados, relógios e um modelo do universo quase do tamanho de uma sala.

Por Rachel Donadio

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