Morte de Bin Laden é momento crítico para o mundo árabe

Questão é saber se morte de líder da Al-Qaeda estimulará movimentos pró-democracia na região ou alimentará forças extremistas

The New York Times |

Nos primeiros dias da primavera árabe, o presidente americano, Barack Obama, frequentemente afirmou a seus assessores que o movimento que tomou conta da região, do Egito ao Iêmen – do lugar onde a Al-Qaeda encontrou suas raízes intelectuais, aquele em que ele se refugiou – criou o que chamou de uma "narrativa alternativa" para uma geração abandonada.

Divulgação/Casa Branca
Barack Obama durante em uma das reuniões ocorridas neste domingo em que se discutiu a missão contra Osama bin Laden
Não havia fotos de Osama Bin Laden nos protestos de rua, ele observou. Tampouco houve gritos de "Morte à América". A questão agora é saber se a morte de Bin Laden nas mãos de forças especiais americanas e da agência central de inteligência (CIA) estimula o movimento para promover a democracia na região – uma alternativa muito real – ou alimenta as forças islâmicas que agora tentam preencher o vácuo de poder deixado no novo mundo árabe.

A Casa Branca, não surpreendentemente, defendeu na noite de domingo que a morte de Bin Laden veio justamente no momento crucial, quando o mundo árabe vira as costas à ideologia da Al-Qaeda. "É importante notar que é mais adequado que a morte de Bin Laden chegue em um momento em que há grande movimento em direção à liberdade e à democracia no mundo árabe", afirmou um dos assessores de segurança nacional de Obama após o fim do ataque à fortaleza de Bin Laden. "Ele estava em oposição direta ao que os grandes homens e mulheres de todo o Oriente Médio e Norte da África estão arriscando suas vidas para conseguir: direitos individuais e dignidade humana".

Se a Casa Branca de Obama estiver certa na sua interpretação dos acontecimentos, a morte do líder da Al-Qaeda vai representar muito mais do que simplesmente levar justiça ao mentor dos ataques de 11 de setembro de 2001. Ela irá ressaltar o argumento de que o caminho adotado pela Al-Qaeda para mudar o Oriente Médio – através da violência – nunca destituiu um único ditador e nunca trouxe uma mudança real. Por esse motivo, o apelo da Al-Qaeda já estava sumindo antes mesmo de Bin Laden ter seu fim.

Pode também marcar o início de uma nova era em que a guerra global contra o terrorismo, como a administração Bush dizia, deixa de ser a raison d'etre da política externa dos Estados Unidos, como tem sido desde a tarde de 11 de setembro de 2001.

Durante anos, as relações dos Estados Unidos com o mundo foram medidas quase que inteiramente de acordo com a decisão de Washington sobre os países estarem ajudando ou impedindo sua guerra contra o terrorismo. Como candidato, Obama prometeu mudar isso, mesmo que mantivesse uma estratégia contra o terrorismo – e a caçada a Bin Laden – de maneira implacável.

Abordagem

Mas até agora, as esperanças de Obama de levar os Estados Unidos a uma abordagem radicalmente diferente haviam se mostrado mais uma aspiração do que um plano. Ele tentou mudar a atenção dos Estados Unidos para a Ásia, onde está o futuro econômico do país, e buscou reduzir o papel das armas nucleares ao redor do mundo.

Mas os esforços eram sempre sobrepujados pelas questões restantes das "guerras-legado" do Afeganistão e do Iraque: o envio de outros 30 mil soldados ao Afeganistão para evitar que o país se torne um refúgio da Al-Qaeda novamente, a tentativa fracassada de fechar a prisão de Guantánamo, os problemas nas relações com um Paquistão armado com armas nucleares.

A Primavera Árabe acrescentou um novo e confuso elemento, conforme Washington procurou orientar os eventos que prometiam uma nova relação com uma região que estava derrubando seus ditadores e, talvez, abraçar alguma forma de democracia. Mas como os mais sincero dos assessores de Obama reconhecem, é um movimento que, em sua essência, está fora do controle de Washington.

Agora, a eliminação do símbolo central da Al-Qaeda oferece uma nova oportunidade para que Obama argumente que o grupo não precisa ser uma fixação da política americana. "Até agora, fizemos um bom trabalho em impedir as ações da Al-Qaeda", disse um dos principais conselheiros de Obama este ano, conforme as agências de inteligência secretamente chegavam perto da fortaleza luxuosa em que Bin Laden foi morto nos arredores de Islamabade, no Paquistão. "Mas ainda não não ‘desmantelamos’ o grupo e certamente não o ‘derrotamos’”.

Objetivos

Hoje, Obama pode argumentar que está mais perto de ambos objetivos. De fato, seus assessores alegaram na noite de domingo, que os possíveis sucessores de Bin Laden, incluindo Ayman Al-Zawahri, não têm seu carisma e apelo, e que sua morte vai levar a uma ruptura da organização. A decisão de enterrar o corpo de Bin Laden no mar fez parte de um esforço cuidadosamente calibrado para evitar um túmulo que possa se transformar em um santuário para o líder da Al-Qaida, um lugar onde seus adeptos possam declará-lo um mártir. 

Mas nada disso garante que a "narrativa alternativa" frequentemente mencionada por Obama vai acontecer. Com a Irmandade Muçulmana mostrando algum sucesso na sua organização para as próximas eleições no Egito, e os grupos extremistas que esperam lucrar com a guerra civil na Líbia e os protestos na Síria, está longe de ficar claro que as revoluções em curso hoje não serão sequestradas por grupos que têm uma grande afinidade com a ideologia da Al-Qaeda do que com a reforma democrática.

Henry Kissinger observou recentemente que os revolucionários "raramente sobrevivem ao processo da revolução." Geralmente, há uma ‘segunda onda’ que pode desviar o movimento para uma direção diferente”. Se essa segunda onda irá seguir o caminho traçado pelos jovens criadores da Primavera Árabe, ou pelos seguidos de Bin Laden em busca de vingança, pode muito bem determinar se Obama poderá usar a morte de Bin Laden para colocar um fim a uma década sombria.

*Por David E. Sanger

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