Morte de Bin Laden desencadeia emoções confusas entre americanos

Notícia de morte de terrorista levou a sentimentos que variaram de ostentações nacionalistas e gritos de alegria a expressões de medo e reflexões

The New York Times |

Finalmente, o inimigo dessa geração americana foi encurralado e morto pelas determinada forças de operações especiais americanas, terminando uma década de caça ao vilão que alterou o modo de vida dos Estados Unidos. Aqui, ao que parecia, estava o nosso momento de dar um beijo de comemoração em uma enfermeira ou em um soldado na Times Square e cantar "EUA, EUA, EUA" até de madrugada – à espera de ver nascer um amanhã melhor.

Mas as emoções reprimidas que foram liberadas pela notícia da ação no Paquistão, a cerca de 12 mil quilômetros de Manhattan, mostraram-se tão complicadas quanto os tempos que vivemos. Elas variaram de ostentações ultranacionalistas a expressões de medo, de alegres gritos de vitória a reflexões sombrias sobre um prato que é servido melhor frio, a vingança.

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Inez Martinez vende bandeiras americanas perto de onde ficavam as torres do World Trade Center, alvo dos atentados do 11 de Setembro em Nova York
"Docemente amarga", é como Todd Polk, um major do Exército, que completou dois turnos no Afeganistão, descreveu a notícia da morte de Osama Bin Laden. Falando por telefone do Centro de Treinamento do Exército Nacional, no sul da Califórnia, ele disse estar feliz que a última coisa que Bin Laden viu "foi um rosto americano".

Um grande dia, sem dúvida. Mas, acrescentou, a guerra continua. "Isso impulsiona a moral", disse Polk, antes de começar outro dia de treinamento de soldados para o combate. "Mas não é o dia da vitória final".

Bin Laden tornou-se o Inimigo Público Número 1, o único responsável por coordenar os ataques de 11 de Setembro, que mataram mais de 2,9 mil pessoas e justificaram o envio de mais de 1 milhão de soldados dos Estados Unidos para a guerra. Ao mesmo tempo, ele era apenas um homem, um asceta magro e barbudo morto por um tiro na cabeça e agora sepultado no mar.

Sua morte pode representar justiça, mas não oferece resolução. Tampouco fornece uma sensação de que haverá fim da guerra ou da ameaça do terrorismo tão cedo.

Nas primeiras horas, pelo menos, parecia mais um dia de vitória, principalmente em determinados cantos da cidade de Nova York. O anúncio da morte de Bin Laden na noite de domingo levou centenas de pessoas às ruas que circundam o local onde ficava o World Trade Center. Que muitos deles eram crianças quando as torres caíram pode explicar um pouco da alegria, o homem mau que pairou sobre seus anos de juventude havia sido derrotado, e assim eles levantaram vozes, bandeiras e latas de cerveja.

Na manhã, porém, os números e o entusiasmo haviam minguado. Não havia nenhuma enfermeira ou soldado em um abraço fotogênico. Apenas as palavras solenes do prefeito Michael Bloomberg – "Ontem, Osama Bin Laden descobriu que a América mantém a sua palavra" – e o anúncio de um aumento da presença policial nos metrôs da cidade.

Reações

Em outros lugares do país que tiveram destaque no 11/9, houve menos celebração e mais pausas pensativas para colocar o acontecimento em contexto. Em Boston, no Aeroporto Internacional Logan, a correria matinal nos portões de embarque e de saída continuava tal como há quase uma década, quando sequestradores embarcaram nos dois aviões que iriam colidir com as Torres Gêmeas. Os viajantes que deixavam de lado o vaivém para considerar a morte de Bin Laden, geralmente expressavam uma alegria tingida com certo desconforto.

Luis Jimenez, 53 anos, tinha acabado de voltar da Califórnia depois de fazer algo tão comum na cultura americana: visitar universidades com sua filha, Paola, uma estudante colegial. Antes de seguir para sua casa em Moultonborough, New Hampshire, ele disse que sentiu euforia, choque e alívio com a notícia da morte de Bin Laden. "Eu acho que a justiça foi feita", disse ele, mas acrescentou: "Eu me preocupo um pouco sobre o que pode acontecer".

Em Shanksville, Pensilvânia, onde um avião caiu em um campo aberto depois de alguns passageiros e tripulantes frustrarem os planos dos sequestradores de acertar a Casa Branca ou o Capitólio, visitantes colocaram pequenos símbolos – flores, bandeiras americanas e jornais anunciando a morte de Bin Laden – ao longo da cerca de arame farpado do memorial provisório que marca o local do acidente.

Michael Barham, que se descreveu como um veterano militar de Phoenix que serviu no Afeganistão, disse que estava em Pittsburgh para uma feira, mas dirigiu a Shanksville com seu pai na manhã de segunda-feira porque "esse era o lugar em que tínhamos de estar hoje". "Estou muito contente de vê-lo morto", disse Barham sobre Bin Laden. "Meu único desejo é que eu pudesse ter sido a pessoa que o fez”.

E em Washington, não longe de onde sequestradores de Bin Laden jogaram um avião contra o Pentágono, dezenas de pessoas se reuniram em frente à Casa Branca na noite de domingo para cantar em louvor aos Estados Unidos. Mas na manhã de segunda-feira, o canto tinha parado, com pequenos grupos de turistas tirando fotos e curtindo o momento, enquanto fotógrafos e cinegrafistas aguardavam sinais de celebração digna de registro. Qualquer buzina de carros na capital do país sinalizava impaciência e não comemoração.

Lá estava Katie Russell, 25 anos, a caminho do trabalho no canal National Geographic e dizendo que a notícia era "muito impressionante". Mas também estava Chris Halley, 42 anos, um funcionário de sindicato, confirmando que a justiça havia sido feita, mas acrescentando que nada mudou. "Sempre vai haver outra barata no caminho", disse Halley, uma avaliação que deve irritar os oficiais militares que passaram quase metade de uma geração à procura de Bin Laden.

Justiça

Com efeito, no frio e nublado subúrbio de Dearborn, Michigan, onde um terço dos quase 100 mil habitantes é de ascendência do Oriente Médio, parecia haver pouca dúvida de que a prolongada caçada a Bin Laden, concretizada com a sua morte, foi algo bom e justo.

Mohammed Al-fula, que se mudou para os Estados Unidos do Iraque há 27 anos e agora trabalha no restaurante de sua família, fez uma pausa em seu almoço para dizer que não achou nada estranho nas celebrações públicas da morte de Bin Laden.

"Por que não?", ele perguntou, esticando os braços. "O homem era um assassino. Por que as pessoas não deveriam estar felizes? É um bom dia. Um dia muito bom".

Madiha Ridha, uma imigrante iraquiana que trabalha em uma loja de roupas em Dearborn que atende a mulheres árabes-americanas, concordou. "Agradecemos a Deus por o terem pego", disse ela. “Foi um longo período. Estamos muito felizes”. E acrescentou, sacudindo a cabeça: “O que ele fez em Nova York, nós nunca esqueceremos. Ele não é um ser humano".

Mas a conversa no Facebook e Twitter reflete uma troca de farpas virtual sobre a propriedade de celebrar a morte de um homem – não importa que milhares de americanos foram mortos por sua ordem.

"Muitas pessoas falaram alegremente sobre isso no Facebook", disse Kirk Barron, 22 anos, estudante na Universidade de Columbia, em Chicago. "Muitas pessoas não necessariamente sabem o que estão falando. Tudo o que sei é que um bandido foi morto. É uma forma de patriotismo. É como se você estivesse torcendo por seu time favorito".

Confusão

Barron, que estava na escola primária quando aconteceram os ataques do 11 de Setembro, admitiu que estava tendo dificuldades em entender como se sentia sobre a morte de Bin Laden. "Eu sou muito espiritual, por isso eu não quero comemorar a morte de uma pessoa", disse ele. "Ele era um cara mau, então é bom que tenha sido parado. E eu questiono se os seus apoiadores retaliarão”.

Esses foram os temas que intrigaram os alunos nas aulas de história da Escola do Ensino Médio William Lamme, em Chicago. Eles queriam saber mais sobre Bin Laden, mais sobre a Al-Qaeda – mais sobre os eventos distantes que ainda impactam os eventos atuais.

"Os alunos queriam saber se isso de alguma forma representava um fim às coisas – que na minha opinião, infelizmente, não", disse Lamme. "O movimento tornou-se muito maior. Nós conversamos sobre a importância que a morte dessa pessoa teria para um movimento que se tornou tão grande. Muitos dos alunos disseram que eles acreditam ser simbólica e importante".

Enquanto isso, em Knoxville, Tennessee, um gerente de negócios chamado Donald Fitzgibbon, 40 anos, passou parte da segunda-feira limpando os danos causados pelas violentas tempestades da semana passada, que quebraram as claraboias de seu escritório, destruíram as paredes de sua casa e arruinaram dois de seus carros.

Inicialmente, Fitzgibbon ficou feliz ao ouvir que Bin Laden tinha sido morto. Ele tem um interesse mais profundo do que a maioria neste acontecimento: quase dois anos atrás, seu filho Patrick Fitzgibbon, 19, recém-chegado ao Exército, pisou em uma mina terrestre no sul do Afeganistão, matando ele e outro soldado.

Mas quanto mais Fitzgibbon pensava na morte de Bin Laden, menos ele sentia alegria, pois isso, disse, "me faria igual a ele".

Aqui estava a verdade sobre a questão. Uma pessoa não pode abrir um buraco em Manhattan, derrubar aviões na Pensilvânia e na Virgínia, matar mais de 2,9 mil americanos e não pagar por isso. Ao mesmo tempo, pelo menos para Fitzgibbon, a morte de Bin Laden não justifica a guerra nem dá significado à trágica perda de Patrick Fitzgibbon e milhares de outros soldados. "Olho por olho, dente por dente", lembrou Fitzgibbon. "Nem sempre funciona assim”.

*Por Dan Barry, com colaboração de Mary Chapman, James Dao, Emma G. Fitzsimmons, Abby Goodnough, Daniel Lovering, Sabrina Tavernise, Dan Frosch e Jennifer Medina

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