Morte de Bin Laden: Comemorar pode não ser 'educado', mas é humano

Segundo especialistas, apetite de vingança é reflexo no ser humano do custo da ameaça que o outro representa

The New York Times |

Alguns americanos comemoraram a morte de Osama bin Laden em voz alta, com cantos e festa que tomaram as ruas. Outros ficaram horrorizados – não com a morte, mas com as celebrações.

"Era apropriado ir atrás de Bin Laden, apenas para tentar cortar a cabeça da serpente, mas eu não acho que seja digno comemorar um assassinato como esse", disse George Horwitz, um açougueiro aposentado e veterano do Exército americano, de Bynum, Carolina do Norte.

Outros foram muito mais críticos. "O pior tipo de arrogância patriótica", disse um estudante da Universidade de Virgínia no jornal estudantil The Daily Cavalier.

AP
Nova-iorquinos comemoram morte de Bin Laden após anúncio feito por Obama (2/5/2011)
Em blogs e fóruns online algumas pessoas questionaram: vingança e a glorificação de uma morte não nos tornam parecidos com os terroristas?

A resposta é "não", dizem os cientistas sociais: isso nos torna humanos. Em uma série de pesquisas, tanto em laboratórios quanto fora deles, os psicólogos têm mostrado que o apetite de vingança é uma medida sensível de como a sociedade percebe a seriedade do crime e qualquer ameaça maior que o seu autor possa representar.

Custo

A vingança é mais satisfatória quando há fortes razões para exigi-la, prática e emocionalmente. "A vingança evoluiu como um impedimento, para impor um custo às pessoas que ameaçam a comunidade e chegar às cabeças de outras pessoas que possam estar contemplando um comportamento semelhante", disse Michael McCullough, psicólogo da Universidade de Miami e autor do livro Beyond Revenge: The Evolution of the Forgiveness Instinct (Além da Vingança: A Evolução do Instinto de Perdão, em tradução livre). "Nesse sentido, é uma resposta muito natural".

Muitas das fontes das comemorações eram óbvias: uma vitória clara depois de tantos conflitos prolongados. Uma demonstração de competência dos Estados Unidos e de consequências cumpridas. O valor das relações públicas de dar um golpe público numa rede terrorista mundial. Além disso, o momento: a notícia chegou quando muitas pessoas estavam nos bares com amigos.

Mas isso foi muito mais do que um simples pretexto para festa. "Pura libertação existencial", disse Tom Pyszczynski, um psicólogo social da Universidade do Colorado, em Colorado Springs, que estudou as reações ao 11 de Setembro. "Não importa se a morte fará diferença na eficácia da Al-Qaeda, derrotar um inimigo que ameaça o seu mundo, os próprios valores em que você acredita. Essa é a maneira mais rápida para acalmar a ansiedade existencial".

Depois de quase 10 anos, o fim foi bastante definitivo. "As emoções foram tão fortes, eu acho, porque o evento foi compactado: Bin Laden foi encontrado e morto. Pronto, rápido assim", disse Kevin Carlsmith,  psicólogo social da Universidade Colgate e do Centro de Estudos Avançados em Ciências Comportamentais da Universidade de Stanford. "Estamos tão acostumados a pessoas sendo trazidas a Guantánamo, aos julgamentos, apelações, que parece que a justiça nunca é feita".

Como regra, as pessoas são muito mais tolerantes do que se pode imaginar, segundo estudos. Depois de traições, como ser abandonado por um par amoroso ou insultado, o desejo de vingança corrói em torno do mesmo tempo que certas memórias: acentuadamente nas primeiras semanas, e muito mais lentamente depois. O mesmo tipo de padrão pode acontecer até mesmo diante de agressões físicas, dependendo das circunstâncias e da personalidade da vítima.

"A intensidade da emoção cai vertiginosamente, simplesmente porque o corpo não consegue transportar uma carga gigantesca de indignação e funcionar bem", disse McCullough.

Mas o desejo de dar o troco – especialmente por um crime como os ataques de 11 de Setembro de 2001, que matou quase 3 mil civis – nunca passa completamente. "Há uma parte teimosa da memória que guarda aquele desejo" e a dor é atualizada toda vez que essa memória vem à tona, disse McCullough.

Ataques

É fácil esquecer quanto o medo estava no ar após os ataques de 11/9: os envios de antraz, as filas nos aeroportos, os alertas de terrorismo codificados por cores. Muitos dos que comemoraram a morte do ex-líder da Al-Qaeda eram adolescentes que durante esses anos viveram parte de suas vidas sob a ameaça do terrorismo – e desse terrorista, em particular – e que tinham tempo e energia para ir às ruas e compartilhar o momento. "Para eles essa era uma oportunidade de fazer parte da história", disse Pyszczynski.

Em uma série de estudos, os psicólogos têm demostrado que quando as pessoas lembram que vão morrer um dia elas se fixam nos atributos que consideram central para sua autoestima. Aqueles que são religiosos tornam-se mais ainda, aqueles que valorizam a força ou a atratividade física intensificam seu foco nessas qualidades, e as pessoas geralmente se tornam mais patrióticas, mais favoráveis a uma ação militar agressiva. "Mesmo lembranças sutis do 11/9 têm o mesmo efeito", explicou Pyszczynski.

A visão do rosto de Bin Laden na televisão ou no smartphone poderia ser o suficiente para levar as pessoas às ruas para torcer para o time da casa.

Estudo

Finalmente, as pessoas do mundo têm uma forte crença na "vingança" como "prato frio". Em um estudo realizado em 2002, psicólogos da Universidade de Princeton analisaram mais de 1 mil participantes e deram recomendações de condenação para cada um. Essas pessoas alinharam cada sentença com os pormenores da infração, sua brutalidade e o histórico do autor.

O esforço para fazer cumprir essas penas varia muito de pessoa para pessoa. Mas em uma multidão de pessoas parecidas, as unidades mais intensas de justiça são a norma: pessoas que podem ter sentido um misto de emoções em resposta à notícia podem ter saído às ruas após verem a folia geral.

Assim, o desejo natural de vingança - satisfeito tão repentinamente, liberando uma década de ansiedade profunda, alimentada por seus pares - se alimenta de si mesmo. A satisfação vira cantoria e euforia que leva muitos a subir em postes.

*Por Benedict Carey

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