Moradores do sul dos EUA lamentam declínio nas boas maneiras

Com menos "sim, senhor" e "não, senhora", população se preocupa com perda da tradição sulista de cavalheirismo

The New York Times |

Em uma noite de agosto, dois homens entraram em um restaurante popular no shopping de Atlanta, nos Estados Unidos. Eles se sentaram no bar, pediram bebidas e refletiram sobre o menu. Duas mulheres estavam em pé atrás deles.

A garçonete perguntou se eles se importariam de oferecer seus lugares para as senhoras. Sim, eles se importariam. Muito.

Palavras raivosas vieram em seguida. Depois, uma audiência na corte federal e um pedido de mais de US$ 3 milhões em compensação.

Os homens, um ex-jogador de basquete profissional e um advogado, eram negros. As mulheres, brancas. Advogados dos homens argumentaram que o restaurante usou uma política envolta em cavalheirismo como um disfarce para práticas discriminatórias.

Após uma semana de depoimentos em setembro, um juiz decidiu em favor do bar.

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Caroline Ball e Jared Bass, ambos de 12 anos, têm aula de etiqueta em Augusta, na Geórgia, sul dos EUA

Os proprietários admitiram que encher o bar com mulheres gera uma vantagem econômica, porque atrai mais consumidores do sexo masculino. Mas no sul dos Estados Unidos, segundo eles, dar seu lugar a uma mulher também faz parte de uma cultura de civilidade.

Pelo menos costumava ser assim. O caso na Tavern at Phipps e um número cada vez maior de exemplos de comportamento pessoal e político que esconde um código tradicional de gentileza têm feito estudiosos da cultura americana e os próprios sulistas se perguntarem se a civilidade está morta ou pelo menos ferida.

"As boas maneiras são uma das muitas coisas centrais para a identidade de um sulista, mas elas já não são primordiais. Tudo isso foi corroído", disse Charles Reagan Wilson, professor de história e cultura do sul da Universidade de Mississippi.

É verdade que regras rigorosas em matéria de cortesia têm sido historicamente utilizadas como uma forma de impor uma ordem social na qual as mulheres e os negros não eram considerados cidadãos de pleno direito. Na era Jim Crow, negros e brancos seguiam um código de hiperpolidez como uma forma de suavizar as regras de um sistema racial rígido e, claro, para mantê-lo no lugar, explicam os estudiosos da cultura do sul.

Conforme essas questões desapareceram, as boas maneiras permaneceram um importante marcador cultural que os sulistas têm trabalhado para manter. Desde a Guerra Civil, qualquer declínio na civilidade do sul americano tem sido amplamente atribuído aos "Yankees, desgraçados".

Os recém-chegados ainda levam grande parte da culpa. Na última década, o sul viu um afluxo sem precedentes de imigrantes tanto de outros Estados quanto de outros países. A população no sul do país cresceu 14,3% de 2000 a 2010, tornando-se a região de maior crescimento no país.

Mas há mais por trás da mudança social, afirmam os estudiosos. A comunicação digital e a globalização têm conspirado para tornar muitas partes do sul menos insulares. Junte isso ao clima político mais controverso e uma onda de insegurança econômica tomando conta da região e você tem uma situação em que dizer "obrigado, senhora" já não é bom o suficiente.

"Há muitas outras complexidades", disse Wilson. "Boas maneiras e um código de civilidade não podem ajudá-lo a resolver tudo."

Alguns dizem que as maiores cidades do sul parecem estar perdendo a civilidade mais rápido do que outras comunidades do país, onde parar para pedir indicações ainda pode levar a um convite para jantar.

Muitas pessoas de fora tentam escapar das pressões da vida em cidades maiores migrando para Atlanta, na Geórgia, e Birmingham, no Alabama, disse Saahara Glaude, uma especialista em mídia que trabalha com clientes que incluem alguns membros da família Martin Luther King Jr.

Como resultado, afinidades baseadas em raça ou religião se foram. "Antes um afro-americano sabia que podia confiar em um afro-americano aqui em Atlanta", disse ela. "As coisas já não são assim".

Dana Mason, professora do ensino médio em Birmingham, diz que os costumes estão em seu nível mais baixo em seus 36 anos em sala de aula. Os pais que mudam para o sul dizem que não querem que seus filhos aprendam a dizer "sim, senhor" ou "sim, senhora”. É muito humilhante, dizem eles.

Mas ela e outros apontam que as boas maneiras estão em declínio em todos os lugares. Mason acusa o ritmo mais rápido da vida e o fim da refeição caseira em família. "Você não precisa ter graça social para se sentar no McDonald’s e comer um hambúrguer e batatas fritas", disse ela.

A civilidade também está em queda no casamento. A marca de um evento de sucesso era o quão confortável a noiva fazia seus convidados se sentirem. Agora, os casamentos são assuntos egoístas, disse Barbara S. Clark, proprietária de uma empresa de planejamento de cerimônias, a Elegant Affair, em Raleigh, Carolina do Norte. "Tudo gira em torno da noiva e do noivo", disse ela.

A capacidade de colocar o encanto sulista no processo político tem sido usada por muitos candidatos que ganham destaque nacional, entre eles os ex-presidentes Jimmy Carter e Bill Clinton e, mais recentemente, Herman Cain, pré-candidato do Partido Republicano à presidência.

As boas maneiras também ajudaram a criar a famosa cultura do "abençoe o seu coração" – uma maneira poderosa de parecer educado sem ser genuíno. "Boas maneiras são muitas vezes uma forma de distanciamento, de manter seu próprio espaço intacto”, disse William Ferris, pesquisador da Universidade da Carolina do Norte que editou a Enciclopédia da Cultura do Sul. “Se alguém é educado, é melhor você tomar cuidado e considerar o que pode ser apenas polidez."

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Adolescentes têm aula de dança de salão em Augusta, na Geórgia

Mas já não é tão eficaz como era antes, disse ele. O discurso político da nação se tornou mais agressivo. Quando acontece no sul, ele só parece mais chocante.

"Não somos tão diferentes como costumávamos ser e talvez aquilo fosse interpretado como civilidade", disse Nathalie Dupree, especialista em culinária do sul. "Como um todo, agora estamos mais dispostos a dizer o que pensamos", disse ela. "E isso é uma coisa boa para o sul".

O país terá a chance de ver a civilidade do sul quando Charlotte, na Carolina do Norte, sediar a Convenção Nacional Democrata em setembro.

A vida em Charlotte já não é tão agradável como antes. Como muitas cidades dos Estados Unidos, ela tem sua parcela de grosseria. E embora as taxas de criminalidade tenham caído, em maio a cidade usou a sua Unidade de Emergência Civil e prendeu 70 pessoas que se revoltaram duas horas após o término de um evento da competição Nascar.

Mas, na melhor tradição do sul, a cidade vai tentar manter seus costumes para a convenção. "Vai ser uma festa de chá doce e bolinhos", diz Michaele Ballard, escritora sulista.

Aqueles que preservam a civilidade do sul afirmam que as boas maneiras serão sempre uma característica definidora da região.

Uma dessas pessoas é Dorothy McLeod, 70, de Augusta, Geórgia, que passou décadas ensinando dança de salão e etiqueta a milhares de criança através de seu programa, o Social Inc.

Dorothy atribui o declínio da civilidade ao estresse das famílias com dois pais que trabalham e crianças que não são responsabilizadas por suas ações.

Mas ela é destemida.

"Não vou desistir", disse, firme em sua crença de que os sulistas ainda querem criar filhos que sejam amáveis e bem-educados. "Eles devem querer, caso contrário minhas aulas não estariam lotadas."

Por Kim Severson

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