Moradores do SoHo, em NY, querem impedir renovação da região

Residentes de bairro nova-iorquino temem que criação de distrito comercial atraia mais negócios e turistas

The New York Times |

Morar no bairro do SoHo, em Nova York, por muito tempo fez com que Sean Sweeney aprendesse a apressar as pessoas em várias línguas, algo que sempre o deixa estressado. "Rápido! Vite! Mach schnell!", diz Sweeney para as multidões que visitam o bairro e caminham pelas calçadas.

Nos fins de semana ele às vezes tem que atravessar um mar de pessoas como se fosse uma bola de boliche derrubando pinos. Uma vez, quando um grupo de pessoas, todas com cafés nas mãos, se recusou a sair de seu caminho para que ele pudesse entrar em seu prédio, o impasse quase acabou em briga.

Agora há planos para se criar um “distrito comercial” - uma parceria público-privada que pode pagar por melhorias locais, como saneamento, marketing e embelezamento da região - e Sweeney e muitos de seus vizinhos não estão muito contentes com isso.

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Pedestres caminham pelo SoHo, bairro de Nova York (26/01)

"Não precisamos de uma melhoria nos comércios do bairro e sim de uma melhoria na qualidade de moradia do bairro", disse Sweeney, que se mudou para um loft na Rua Greene, no início de 1980, na época em que a maior parte do SoHo era pouco cuidada e tinha apenas armazéns e fábricas abandonadas. “Hoje não temos mais espaço no bairro.”

O SoHo, chamado assim por sua localização ao sul da Rua Houston, tem nas últimos quatro décadas passado de um paraíso abandonado que abrigava muitos artistas a um ímã para varejistas de alto luxo, como Prada e Chanel. Por isso, uma parte dos moradores do bairro está se posicionando de maneira incomum ao tentar lutar contra a melhoria das condições de sua área, apesar de o método adotado ter sido amplamente utilizado por outras regiões da cidade e seja visto como algo útil e que veio para ajudar muitos bairros a se recuperar.

A controvérsia está em seu segundo ano e pode chegar ao auge provavelmente em março deste ano, com uma audiência pública perante o Conselho Municipal. Isto não causou apenas angústia em muitos dos moradores do bairro como também uma certa divisão entre os moradores.

Os artistas que colonizaram o bairro décadas atrás podem ter encontrado seu espaço, mas eles também se encontram rodeados por ruas que ficam cheias de turistas e repletas de grandes varejistas e lojas de luxo. Para eles, um projeto que visa “melhorar” os negócios do bairro com a ajuda de grandes empresas imobiliárias significa ceder mais terreno para os invasores que irão servir apenas para aumentar o fluxo de pedestres e assim poder cobrar mais pelo espaço de varejo.

Mas aqueles que apoiam o distrito dizem que Sweeney, que lidera um grupo ativista do bairro chamado Aliança SoHo, e outros oponentes, são mercadores do medo e não estão entendendo bem o conceito.

O distrito, dizem eles, seria formado em grande parte para lidar com os efeitos das massas que fazem com que o SoHo tenha toda essa popularidade devido ao varejo presente na região.

Durante os fins de semana, as lixeiras na Broadway ficam tão sobrecarregadas que as pessoas começam a empilhar lixo ao seu redor.

O departamento de saneamento não consegue lidar com o fluxo de lixo. Varejistas têm recebido multas por deixar as calçadas na frente de sua loja sujas. Enquanto isso, os vendedores ambulantes ocupam um espaço precioso da calçada, bloqueando o tráfego de pedestres.

Apoiadores do distrito dizem que um membro da equipe trabalhando em tempo integral poderá fazer com que vendedores ilegais e caminhões de alimentos saiam da região ou até mesmo possam alertar a polícia.

Os primeiros sinais de uma proposta para criar este distrito comercial aconteceram há três ou quatro anos atrás. Por quase duas décadas, o grupo sem fins lucrativos chamado ACE forneceu limpadores de rua através de um programa profissional que oferecia experiência de trabalho para ajudar na transição de homens e mulheres que foram moradores de rua.

Mas nos últimos cinco anos, o grupo, que foi fundado pelo filantropo Henry Buhl, recebeu cada vez menos doações dos moradores e comerciantes ao longo da Broadway entre a rua Houston e a Rua Canal. Às vezes, os déficits orçamentários ultrapassavam US$ 100 mil e o grupo teve que desviar dinheiro de outros programas.

"Estávamos fazendo isso para corporações multinacionais que ganhavam bilhões de dólares. Este pequeno grupo sem fins lucrativos estava assumindo uma responsabilidade que não levava a nenhum lugar” , disse Jim Martin, diretor executivo da ACE.

Então, no verão passado, a ACE parou de limpar um trecho da Broadway, e o lixo começou a acumular.

Buhl e alguns proprietários de imóveis da região tem considerado criar o distrito de negócios através da recolha de tributações dos proprietários ao longo da Broadway para financiar uma agência que teria um diretor executivo, organizaria limpezas da rua regularmente e resolveria questões que estão pendentes faz tempo, como a frequência de carrinhos de comida que não tem permissão para vender alimentos.

Após o plano inicial dos organizadores despertar certa resistência na comunidade, eles mudaram alguns de seus aspectos, inclusive diminuindo o orçamento proposto pela área para US$ 550 mil dólares e garantindo que os proprietários de residências cooperativas e condomínios pagariam apenas as taxas e cotas de avaliação.

"Existe muita desinformação sobre o projeto", disse Cheryl Klauss, fotógrafo que vive na Broadway há 30 anos. "Acho que o projeto vai acabar solucionando os problemas de termos muitos turistas no bairro".

Mas muitos moradores permanecem contra o projeto. Eles temem que o distrito comercial possa fazer com que as grandes empresas que possuem muitas propriedades no bairro expandam seus negócios.

Eles também acreditam que o orçamento proposto, agora fixado em cerca de US$ 550 mil, continua excessivo, e temem que o SoHo seja rapidamente ser enfeitado com luzes de Natal e placas que poderão atrair ainda mais turistas.

"Os distritos comerciais estão conquistando uma grande parte da cidade de Nova York e estão reivindicando essas áreas como seus feudos, financiados pelo dinheiro dos contribuintes", escreveu em um email Pete Davies, que está na comissão que é contra os BIDs.

Outra crítica do conceito, Jamie Johnson, disse que o plano era uma solução muito cara para um problema de lixo terrível. "É como se estivéssemos instalando um lustre quando na verdade precisamos apenas de uma lâmpada", disse ela.

Por Cara Buckley

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