Modernização de Roma ameaça faces de seu passado

Enquanto novos museus são inaugurados, patrimônio arquitetônico da cidade italiana está em risco

The New York Times |

Roma, a Cidade Eterna. Não é bem assim.

O desmoronamento de alguns sítios arqueológicos na primavera deste ano fizeram com que cansados arqueólogos alertassem, mais uma vez, sobre outras calamidades iminentes que ameaçam o precário patrimônio arquitetônico de Roma.

Enquanto isso, os inteligentes de plantão ficavam boquiabertos com a inauguração de um museu nacional de arte contemporânea, o Maxxi, juntamente com a expansão do antigo museu de arte-nova, o Macro.

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Visitante do museu Maxxi observa a instalação "Widow", de Anisk Kapoor

Isso aconteceu logo após o prefeito de Roma, Gianni Alemanno, convocar uma conferência de urbanistas e arquitetos para ponderar sobre uma proposta para sediar os Jogos Olímpicos de 2020 como um incentivo para atualizar a capital da Itália.

A arquitetura contemporânea agora promete ser o motor e símbolo de uma nova identidade criativa para Roma que, se o desenvolvimento for feito corretamente dessa vez, irá completar o glorioso passado da cidade.

"O que Roma quer ser quando crescer?", é como Richard Burdett, um planejador de Londres com raízes italianas, resumiu a situação. Ele se referia à situação de Roma em uma encruzilhada - querendo seguir em frente, mas ficando para trás.

A mudança nunca é fácil aqui. Quando um museu projetado por Richard Meier, um edifício de vidro e mármore para hospedar o Ara Pacis, abriu há alguns anos, os romanos reclamaram. Mas claro, ele se assemelha a um mausoléu extravagante fascista.

O Maxxi, cujo estilo apresenta uma série de outros problemas, tem se saído muito melhor em termos de aprovação do público, atraindo cerca de 74 mil visitantes em seu primeiro mês e acelerando os debates de líderes como Alemanno sobre a Roma do século 21.

Mas uma coisa é os políticos apoiarem um novo museu que possivelmente chegará às capas de jornais. Os amantes da arte tomam a cidade, abençoam o prédio e vão embora. Outra coisa é assumir desafios mais corajosos, como imigração, transporte e expansão.

Mesmo a cultura: uma nação cuja identidade e sobrevivência fiscal recai sobre ela agora dedica apenas 0,21% do seu orçamento de Estado (e esse número vem caindo), que é cerca de um quinto da percentagem que a França dedica, ao teatro, cinema, exposições, música e museus, para não mencionar a manutenção de todos os milhares de sítios históricos para os quais ainda não há um plano central de conservação.

E não há nada perto de uma abordagem pensada para a definição da nova identidade desta cidade, também, apenas uma explosão de arquitetura mista que cria objetos no terreno e uma nova ânsia por algo melhor.

Os problemas de Roma não vão ser resolvidos por alguns prédios grandes que chamem a atenção, mas por uma concepção mais ampla de edifícios que repensem uma cidade que rapidamente chegou a 3.7 milhões de habitantes, quase todos fora do centro histórico, onde o seu passado está se desintegrando.

Como equilibrar o novo e o antigo? Este é um dilema familiar. O arquiteto romano Massimiliano Fuksas está criando um imenso centro de congressos em uma estrada construída por Mussolini para conectar o centro ao mar. De um lado do centro está o Museu Luigi Pigorini de Pré-História e Etnografia, um resplandecente edifício de calcário, vitrais, luz e ar de 1930 que simboliza as antigas aspirações de modernização.

Do outro lado, novos prédios de apartamentos estão sendo projetado por Renzo Piano, cujo Complexo de Artes e Espetáculos Parco Della Musica, inofensivo e pragmático, abriu há alguns anos fora do centro da cidade para satisfação geral.

Esta área onde está o Pigorini, por contraste, nunca decolou como se acreditava que iria antes da guerra. A maioria dos romanos não se arrisca a ir ao museu de etnografia depois da escola primária, embora fale do local com nostalgia. A construção de Fuksas, acrescenta um enorme ornamento no que ainda é visto como o meio do nada, portanto é muito cedo para dizer com certeza no que este trecho do bairro se tornará quando for inaugurado.

O que está claro é apenas que o esforço de levar o espaço passível de vivência de Roma para as áreas mais remotas da cidade é um passo na direção certa. Apenas um passo.

Ou, como Fuksas explicou, "A arquitetura é interessante, mas por si só não significa nada".

Especialmente quando algumas das melhores espécies dela estão desintegrando. Prova A: a Domus Aurea, a mansão que Nero construiu perto do Coliseu, onde uma galeria abobadada desabou nesta primavera. Ninguém ficou ferido, felizmente. Isso porque o local está fechado desde 2008, por causa de problemas estruturais e de umidade que ameaçam os afrescos.

Sob grande festa, a cidade abriu uma parte do local para turistas em 1999. Em seguida, a chuva pesada fez com que parte do telhado desabasse, o local foi fechado e reaberto depois de um tempo - depois fechou de novo.

A comissão atribuída para resolver o problema gastou milhões, mas não evitou o último acidente. Em uma manhã recente, operários mexiam com escavadeiras em pedaços de colunas antigas, vasos quebrados e andaimes. Fedora Filippi, um arqueólogo veterano recentemente encarregado pelo sítio, apontou para onde o teto cedeu em uma galeria adjacente construída por Trajano, depois de Nero.

A chuva infiltrou acima de um parque, ela disse. Todo mundo tem conhecimento do vazamento há muito tempo. Mas o parque é propriedade do município e a Domus Aurea é propriedade nacional, de modo que o problema é de ninguém para resolver.

Após o colapso do Domus Aurea, alguns pedaços caíram do Coliseu. Depois Salvo Barrano, vice-presidente da Associação Nacional dos Arqueólogos da Itália, listou constantes ameaças aos aquedutos, o Palatino.

O país é basicamente um gigante sítio arqueológico, disse Barrano, com toda cidade e região competindo por recursos, nenhum político disposto a fazer escolhas difíceis, e poucos engenheiros qualificados e arqueólogos responsáveis.

"O problema nos últimos 12 ou 13 anos é que o país parou de investir em cultura", disse. "Em casos como o Domus Aurea, simplesmente não há recompensa política que seja rápida o suficiente".

Mas então veio o Maxxi, ao custo de US$ 223 milhões, entregues ao longo de uma década durante a qual o governo mudou três vezes. A arquiteta Zaha Hadid foi contratada para fazer para Roma o que Frank Gehry fez para Bilbao, Espanha - não importa que Roma não seja Bilbao.

Verdade seja dita, o museu, que começou em clima de furor arquitetônico combate espaços impraticáveis, por vezes impossíveis, em nome de curvas sexy, mas cada vez mais clichês, e tem um ar de bom gosto ultrapassado. Enquanto o dinheiro foi derramado quase inteiramente na sua construção, a coleção e programação do Maxxi, além de sua estrutura interna e pessoal de formação superior, tiveram dificuldades. Foi um caso claro daquilo de que Roma carece.

"Perspectiva" foi palavra usada por Fuksas. "A verdadeira cidade já não é o centro histórico, mas a chamada periferia, e para se tornar um sucesso é preciso aceitar um novo conceito de Roma maior", Fuksas acrescentou. "Os imigrantes precisam dormir em algum lugar, mesmo os ilegais".

Nova Roma, Roma antiga.

Roberto Cecchi, encarregado de supervisionar os valorizados sítios arqueológicos em ruínas da cidade, disse quase o mesmo: "Os engenheiros romanos de 2 mil anos se preocupavam com a manutenção da cidade", disse. "Precisamos definir os métodos e regras. Devemos começar a pensar no futuro, não apenas a responder quando as crises acontecem".

Portanto, em teoria todos querem o mesmo.

Mas quem sabe? Trata-se de Roma. Algumas coisas são eternas.

Por Michael Kimmelman

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