Mistério em Honduras: como exatamente o líder deposto retornou?

CIDADE DO MÉXICO - Ele é o homem mais procurado em Honduras, com seu rosto e bigode preto conhecido por todo soldado, policial e guarda de fronteira. Portanto, conforme o impasse político em Honduras entrava em um novo e surpreendente capítulo, a grande pergunta era como Manuel Zelaya, o presidente deposto e exilado, conseguiu voltar furtivamente ao seu país sem ser percebido.

The New York Times |

No porta-malas de um carro? Com ajuda de soldados leais? Disfarçado? Sob proteção de outros países? Todas as opções foram consideradas e discutidas em Tegucigalpa, onde a população está bastante dividida a respeito de Zelaya.

Seu inesperado aparecimento na embaixada do Brasil na segunda-feira certamente surpreendeu o governo que o tirou do poder há quase três meses e prometeu prendê-lo com 18 acusações caso ele ousasse retornar. Depois de inicialmente negar que Zelaya tinha voltado, o governo foi forçado a enviar soldados e policiais na terça-feira para dispersar milhares de apoiadores de Zelaya que desafiaram um toque de recolher e se amontoaram diante da embaixada para vislumbrar seu antigo líder.


Polícia dispersa partidários de Zelaya na manhã de terça-feira / AP

Que Zelaya queria retornar não era nenhum segredo. Ele sobrevoou a capital em um pequeno avião no dia 4 de julho e no mesmo mês deu vários passos fronteira adentro, vindo da Nicarágua, para a alegria de seus apoiadores. Em ambos os casos, no entanto, o exército hondurenho o impediu.

Como ele conseguiu a façanha desta vez e, ainda mais importante, se sua presença ajudará a solucionar o impasse em seu país, são temas de um feroz debate.

"Todos têm trabalhado muito para se chegar a uma solução pacífica para esta crise", disse um oficial sênior do Departamento de Estado americano, quando questionado sobre a reaparição de Zelaya. "O retorno de Zelaya foi inesperado e o fato dele ter feito isso sem consultar as outras partes envolvidas também não ajudou muito. Dito isso, esta é a realidade e ela pode fazer com que as pessoas tomem as decisões que estão evitando - ou pode desestabilizar a situação".

Roberto Micheletti, o presidente em exercício, prometeu não invadir a Embaixada do Brasil, onde Zelaya, em seu característico chapéu branco de caubói, e dezenas de amigos e familiares agora estão sitiados. Entretanto, o governo cortou o fornecimento de água, eletricidade e telefonia ao prédio.

Mas, na terça-feira, ele apelou à comunidade internacional por um diálogo para resolver a crise, que começou no dia 28 de junho quando as Forças Armadas, o Judiciário e o Legislativo decidiram que Zelaya havia violado a lei ao planejar prolongar seu mandato além do tempo permitido pela Constituição, e portanto tinha que sair.

Mas apesar da condenação mundial da deposição de Zelaya, Micheletti tem se recusado a ceder o poder. Eleições serão realizadas no dia 28 de novembro para a escolha de um novo presidente, mas muitos países disseram que não reconhecerão os resultados e que Zelaya deve poder terminar seu mandato.

De dentro da Embaixada brasileira, Zelaya descreveu seu retorno aos repórteres como uma viagem árdua de 15 horas, que incluiu caminhada pelas montanhas e o transporte em ônibus, carros e caminhões por ruas secundárias para evitar os postos militares de fiscalização. Ele disse que foi ajudado por um cidadão hondurenho cujo nome se recusou a informar.

"Eles não perceberam quando eu entrei", disse Zelaya na rádio hondurenha. "Eu os enganei".

Vários relatos emergiram a respeito da viagem de Zelaya, que pode ter envolvido a ajuda de outros países. Depois de inicialmente insistir que Zelaya não estava em Honduras, mas sim em um hotel de luxo na Nicarágua, Micheletti disse ter descoberto que o líder deposto havia passado por vários países da América Central, aparentemente para disfarçar seus movimentos, antes de entrar em Honduras.

O jornal espanhol "El Pais", citando um oficial salvadorenho cujo nome não foi revelado, disse que Zelaya viajou como passageiro em um avião venezuelano que pousou sem autorização na noite de domingo em El Salvador. Ele foi recebido, segundo o jornal, por um carro que pertence à Frente de Libertação Nacional Farabundo Marti, o partido do governo salvadorenho. Tanto a Venezuela quanto El Salvador possuem governos esquerdistas que apoiam Zelaya.

Para onde Zelaya foi em seguida, entretanto, ninguém parece saber.

As forças armadas hondurenhas negam que seu retorno tenha sido uma grande falha de segurança. "A inteligência militar não falhou", disse Adolfo Lionel Sevilla, Ministro da Defesa em exercício, ao "El Heraldo", um jornal hondurenho. Ele acrescentou misteriosamente: "Nem tudo pode ser divulgado porque causaria ansiedade".

Uma preocupação é que alguns membros das forças armadas hondurenhas leais a Zelaya possam ter ajudado seu retorno. "Há uma certa preocupação entre os hondurenhos a respeito de como Zelaya entrou no país", disse Christopher Sabatini, editor do jornal acadêmico "Americas Quarterly", de Nova York. "É difícil de imaginar que ele conseguiria entrar sem alguma cooperação das forças armadas. E Micheletti, em particular, deve se preocupar se tem controle total de suas forças".

Um jornal venezuelano disse que Zelaya se escondeu parte do tempo no porta-malas de um carro. Outros relatos dizem que ele chegou à Embaixada do Brasil em um carro diplomático que pertence ao parlamento da América Central. Se os brasileiros sabiam que ele estava a caminho é motivo de debate.

Zelaya descansa em embaixada brasileira
Zelaya descansa em sala da embaixada brasileira

O oficial do Departamento de Estado disse que os Estados Unidos estavam cientes que Zelaya queria voltar a Honduras, porque ele havia prometido fazer exatamente isso durante sua última visita a Washington. Mas o oficial disse que os Estados Unidos foram pegos de surpresa pelo aparecimento de Zelaya na Embaixada do Brasil, uma vez que ele era esperado em Nova York esta semana para falar à Assembleia Geral da ONU.

Após gás lacrimogêneo ter sido disparado para dispersar os manifestantes na terça-feira, o oficial do Departamento de Estado disse que os Estados Unidos estão profundamente preocupados com as ações do presidente em exercício. Ele disse ter ouvido relatos de que forças de segurança haviam tomado casas vizinhas à embaixada, incitando os Estados Unidos a enviar "fortes sinais" a Micheletti de que esperam que o governo "respeite a inviolabilidade do território e pessoal diplomático".

Embora os detalhes completos da viagem de Zelaya permaneçam desconhecidos, sua chegada definitivamente dificultou com que outras pessoas entrem ou saiam de Honduras. Preocupado com a insegurança, o governo fechou todos os aeroportos do país na terça-feira.

- Marc Lacey e Ginger Thompson

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