Missão no Iraque muda, mas riscos persistem para Obama

Apesar de cumprir promessa de campanha, presidente americano corre risco de ser alvo de críticas sobre situação pós-guerra do país

The New York Times |

O fim oficial da missão de combate dos Estados Unidos no Iraque nesta terça-feira cumprirá a promessa de campanha que ajudou a levar o presidente Barack Obama à Casa Branca, mas também apresenta riscos profundos, conforme ele busca reivindicar o crédito, sem fazer uma declaração prematura de vitória.

Enquanto filas de veículos cruzavam a fronteira e soldados chegavam com recepções alegres depois da partida da última brigada de combete do país árabe , Obama divulgou uma declaração contida por escrito e fez uma referência de apenas uma frase em dois eventos de arrecadação de fundos. Enquanto alguns chamaram o momento de o fim da guerra de sete anos, Obama procurou evitar o tipo de momento “missão cumprida” que assombrou o seu antecessor.

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Soldados de brigada americana em cerimônia que simboliza o fim da missão no Iraque
Mas a Casa Branca quer encontrar uma maneira de marcar o momento e lembrar os eleitores - faltando pouco mais de dois meses para as eleições de novembro - que ele cumpriu a sua promessa de retirar as forças de combate. Obama planeja fazer um discurso proeminente sobre a retirada na próxima semana e seus assessores estão discutindo a possibilidade de que ele se encontre com os soldados em regresso.

Simbolismo

O simbolismo da partida das tropas que foi transmitida pelas emissoras de TV mascara a realidade mais complexa em solo. Mesmo enquanto as últimas forças de combate partem e a missão muda formalmente neste dia 31 de agosto para um papel de apoio, 50 mil soldados americanos permanecerão no país para “aconselhar e dar assistência” por mais 16 meses, ainda correndo riscos e armados para o combate, caso seja necessário. Além do mais, o futuro do Iraque permanece repleto de desafios em meio a um impasse político persistente e a continuidade da insurgência.

“Dissimulação política é a norma em Washington e reivindicar a vitória e o fim da guerra é muito mais popular do que arcar com o fardo da liderança e lidar com a realidade”, escreveu Anthony H. Cordesman, especialista militar do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais em Washington, no site do centro na sexta-feira. “A guerra no Iraque ainda não acabou e não foi ‘vencida’. Na verdade, ela permanece em um estágio crítico desde 2003”.

Denis R. McDonough, chefe de gabinete do Conselho de Segurança Nacional, disse que o governo não tem ilusões. “Alguém acredita que a violência vai parar totalmente e os adversários da estabilidade e do progresso no Iraque vão descansar? Não”, ele disse. “Mas nós sabemos que as forças de segurança iraquianas estão em condições de, cada vez mais, assumir esse papel por si mesmos”.

A transição oficial é tanto uma mudança de rótulo quanto uma mudança de missão. Com a violência muito abaixo do seu pico em 2006 e 2007, as forças americanas têm cada vez mais repassado o comando para as unidades de segurança iraquianas que treinaram.

Conclusão

Mas após sete anos de uma guerra iniciada pelo presidente George W. Bush, com base em informações falsas, o desejo de finalidade, e talvez de conclusão, chamou a atenção para este momento e gerou um novo debate em Washington sobre o que tudo isso significou.

E após centenas de bilhões de dólares, mais de 4.400 mortes de militares americanos e pelo menos 100 mil mortes de civis iraquianos, talvez muito mais, valeu a pena? Será que derrubar um ditador e implementar uma jovem e frágil democracia fez diferença? E os Estados Unidos salvaram sua credibilidade ao permanecerem e estabilizarem o Iraque, mesmo se não conseguiram a vitória clara originalmente prevista?

“Se não podemos ter um desfile de vitória, pelo menos deveríamos tirar algumas conclusões definitivas”, disse Andrew J. Bacevich, especialista militar da Universidade de Boston, que perdeu um filho no Iraque e escreveu um novo livro: “Washington Rules: America’s Path to Permanent War” (Regras de Washington: O Caminho Americano para uma Guerra Permanente, em tradução livre). “Mas parece que não faremos isso. Nós queremos apenas seguir em frente, infelizmente”.

Em parte, isso se deve à deterioração da situação no Afeganistão, para onde Obama está enviando mais tropas, bem como à frágil economia em casa, onde milhões de americanos estão em busca de trabalho. Assim, apesar de sua oposição à guerra do Iraque ter animado o início de sua candidatura, atualmente ela parece uma questão secundária.

Durante um discurso para a arrecadação de fundos em Ohio na semana passada, por exemplo, Obama mencionou a transição no Iraque apenas de passagem. “Estamos mantendo a promessa que eu fiz quando quando comecei minha campanha para a presidência: no final deste mês, teremos retirado 100 mil tropas do Iraque e nossa missão de combate estará encerrada”, disse ele, mantendo o discurso em um evento para arrecadação de fundos em Miami.

À medida que marcam o momento, os democratas, em geral, não fazem qualquer menção ao aumento de tropas e à mudança de estratégia ordenada por Bush em 2007, que muitos creditam por ter mudado a guerra e possibilitado o fim do combate. Na época em que Bush deixou o cargo, ele havia selado um acordo com o Iraque para retirar todas as tropas americanas até o final de 2011. Após tomar posse, Obama acrescentou um prazo intermediário de redução das tropas para 50 mil até o final deste mês.

Bush

Bush apareceu de surpresa no aeroporto Dallas-Fort Worth no início deste mês para saudar as tropas que retornavam do Iraque. Apesar de a mídia não ter sido convidada, um vídeo caseiro publicado no YouTube mostra-o em roupas informais apertando mãos e posando para fotos com soldados que chegavam no terminal, um por um.

Apesar de Bush ter se recusado a discutir a mudança da missão, ex-assessores a veem como uma validação de que, após toda a dor e sangue, o Iraque pode finalmente ser um lugar melhor, governado por um sistema mais livre, mais democrático, que ainda pode servir de modelo em um Oriente Médio amplamente autoritário.

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Após bilhões de dólares gastos, 4.400 americanos mortos, ao menos 100 mil mortes de civis iraquianos e insurgência em níveis altos, êxito da missão é questionável
“Nós podemos ter uma certa medida de satisfação com o sucesso no Iraque”, disse L. Paul Bremer III, o ex-administrador da ocupação do Iraque. “Ainda não é um sucesso completo, obviamente, mas construir uma democracia leva tempo”. Ele acrescentou ainda que “uma democracia árabe-muçulmano bem sucedida revela a mentira dos extremistas islâmicos” que afirmam que a democracia é um anátema para o Islã e defendem uma forma dura de governo.

Stephen J. Hadley, que foi assessor de segurança nacional de Bush, disse que a transição deveu-se ao aumento ordenado pelo ex-presidente, ao qual Obama se opôs quando era senador.

Mas ele disse estar satisfeito que a equipe de Obama “tenha realizado a transição” e por parecer se orgulhar das realizações no Iraque. E esperar que o governo conclua a tarefa. “Se eles fizerem isso, eles reivindicar parte do crédito e eu seria o primeiro a dar-lhes crédito”, disse Hadley. “Mas eles precisam manter o foco e o compromisso”.

Para Obama, esse momento é um lembrete da lição aprendida por seu antecessor, após declarar o fim de grandes operações de combate na frente de um porta-aviões sob uma faixa que dizia “Missão Cumprida” em 2003. O Iraque era uma guerra e sem fim claro. “Não haverá cerimônia de rendição no convés de um navio de guerra”, concluiu Bush posteriormente.

Obama chegou à mesma conclusão, quase com as mesmas palavras. “Não haverá nenhum momento simples de rendição para marcar o fim da viagem”, declarou no início da primavera.

*Por Peter Baker

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