Miséria e incerteza dominam abrigos de sobreviventes no Japão

Em Ofunato, no norte do país, 61 abrigos hospedam mais de 8 mil pessoas em condições desesperadoras e primitivas

The New York Times |

Durante os últimos dias Takiko Kinno dormiu no chão de um ginásio lotado, sem eletricidade ou água corrente e vivendo de rações alimentares que no início eram de um bola e meia de arroz por dia.

Mas a parte mais difícil, segundo ela, era a incerteza sobre quanto tempo ela vai ter de ficar no abrigo depois que o tsunami da semana passada destruiu grande parte da pequena cidade portuária de Ofunato, no norte do Japão.

The New York Times
Desabrigados pelo tsunami passaram a viver em abrigo em Ofunato, depois do terremoto seguido de tsunami
"Nós estamos presos no limbo", disse Kinno, 69 anos, que partilha o ginásio com outros 500 moradores, na maioria idosos de 60 anos de idade ou mais. "Nós não sabemos onde vamos viver, como viveremos ou quanto tempo vai demorar para sairmos daqui”.

Essa é uma situação compartilhada por milhares de pessoas em todo o norte do Japão. Nas comunidades atingidas como essa, os refugiados do tsunami se reuniram em centenas de escolas, hospitais e ginásios públicos que foram convertidos em abrigos improvisados.

Em Ofunato, cidade com uma população de 41 mil, há 61 abrigos improvisados que hospedam 8.437 pessoas, segundo as autoridades.

Os moradores desses abrigos vivem frequentemente em condições desesperadoras e primitivas, com pouco mais de um teto sobre suas cabeças.

Eles passaram dias no escuro e frio, um calvário que ficou ainda pior quando uma tempestade de inverno trouxe neve pesada e temperaturas abaixo de zero a muitas das áreas devastadas.

Guerra

As privações ressaltam as dificuldades que o Japão tem enfrentado para responder aos 700  mil refugiados criados pelo terremoto e tsunami de sexta-feira, a maior crise humanitária do país desde a Segunda Guerra Mundial. "O governo central tem uma grande dívida e está sem dinheiro, então não podemos confiar nele", disse Noriko Kikuchi, 71 anos, um daqueles que procuram refúgio no ginásio de Ofunato.

Mas alguma ajuda finalmente começa a aparecer, geralmente sob a forma de alimentos e água trazidos por militares do Japão, depois de um período em que muitos abrigos estavam sem comunicação com o resto do mundo nos primeiros dias após o desastre.

No ginásio de Ofunato quatro banheiros portáteis chegaram alguns dias atrás para completar os dois banheiros super-utilizados. Uma salva de gritos foi ouvida no início da tarde quando a eletricidade foi parcialmente restaurada, dando aos refugiados sua primeira luz elétrica desde as ondas.

Aqueles que estão em abrigos tentam manter as rotinas ordenadas da vida japonesa normal, vista nas fileiras arrumadas de sapatos e botas enlameadas na porta de entrada dos abrigos, onde todos usam apenas meias.

Mas também há estresse: a falta de privacidade, os odores crescentes de centenas de corpos não lavados e os gritos de medo todas as noites durante os tremores menores que se seguiram ao terremoto de sexta-feira.

Os sobreviventes também se sentem isoladas de suas famílias e do mundo exterior, sem telefones, jornais ou acesso à Internet. "Nós não temos ideia do que vai acontecer com a gente", disse Kikuchi, 71 anos, cuja casa e pequena banca de jornais foram destruídas pelas ondas. "Eu não posso ligar para os parentes ou amigos para pedir ajuda".

*Por Martin Fackler

    Leia tudo sobre: japãoterremototremortsunamiusina nuclear

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG