Miséria acompanha somalis que tentam fugir da fome

Acampamento para refugiados no norte do Quênia recebe cada vez mais imigrantes que fogem de uma das piores secas em seis décadas

The New York Times |

O povo começa a marchar ao amanhecer, mais de mil todos os dias, exaustos, doentes e famintos. Surgindo repentinamente, no fino ar do deserto, eles chegam aos portões do maior acampamento de refugiados do mundo, em Dadaab, no norte do Quênia.

Eles estão fugindo de uma das piores secas na Somália em 60 anos. Muitos andaram durante semanas através de uma paisagem repleta de bandidos anárquicos e militantes, e com pouca comida.

No momento em que chegam, muitos mal conseguem ficar em pé, falar ou engolir. Algumas mães chegam com os corpos secos de seus bebês amarrados às suas costas.

Militantes islâmicos que controlam o sul da Somália forçaram a saída de organizações de ajuda ocidentais no ano passado, retirando o único sistema de apoio do povo no momento em que a seca estava chegando ao país.

Só agora, quando a escala da catástrofe está se tornando clara, com quase 3 milhões de somalis que necessitam de ajuda e mais de 10 milhões em risco no Chifre da África, os militantes cederam e convidaram os grupos de ajuda a voltar.

Al-Qaeda

Mas poucos grupos tomaram essa decisão por causa das complicações e dos perigos em lidar com um grupo brutal que está alinhado com a Al-Qaeda e transformou a Somália em um ponto central de terrorismo.

Os somalis não estão esperando. Dezenas de milhares, talvez até centenas de milhares, estão fugindo para o Quênia e a Etiópia em busca de ajuda, mas o governo queniano diz estar sobrecarregado e tem impedido as Nações Unidas de abrir um acampamento de US$15 milhões em Dadaab, que poderia ajudar absorver o fluxo.

Tudo está pronto para abrigar 40 mil outros refugiados, mas é precisamente isso que os quenianos temem. Cerca de 380 mil já vivem na amálgama de acampamentos que compõem Dadaab (planejado para hospedar 90 mil), e os quenianos temem que os somalis nunca mais voltem para casa, dada a turbulência em seu país desde que o governo central entrou em colapso em 1991.

Gerald Otieno Kajwang, ministro da imigração do Quênia, disse que "a quantidade de pessoas chegando ao país é muito grande e isso ameaça a nossa segurança".

O governo queniano vem enfrentando intensa pressão para abrir o novo acampamento, e autoridades indicaram que o farão em breve. O atraso fez com que milhares de refugiados se estabelecessem nos arredores de Dadaab, no deserto, cada vez mais longe de hospitais, água potável ou latrinas, muitos com crianças doentes protegidas do sol sob as árvores.

*Por Jeffrey Gettleman

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