Minutos antes da explosão, alguns iraquianos se tornam heróis

Ao tentar conter homens-bomba antes de atentados, policiais arriscam a própria vida e evitam mais mortes

The New York Times |

Enquanto o suicida apertava o detonador ligado a seu cinto de explosivos, preparando-se para jorrar fogo e estilhaços em uma procissão religiosa, um policial iraquiano chamado Bilal Muhammad Ali enfrentava uma escolha entre sua própria vida e algo maior.

Se corresse e se escondesse, Muhammad, 31 anos, teria a chance de salvar a si mesmo para continuar a sustentar sua mãe, viúva, para ajudar a educar seu irmão mais novo até a faculdade e para ver suas três filhas crescerem. Em vez disso, o agente – um muçulmano sunita – atirou-se sobre o homem-bomba, protegendo os fiéis xiitas do impacto da explosão.

"Ele deu sua alma para o país", disse sua mãe, Alaahin Hassan, segurando as filhas dele no colo ao lado de dezenas de mulheres que tomaram sua sala de estar esta semana usando véus negros e gemendo sua dor ritualizada. "Ele acreditava em Alá. Isso fez dele grande".

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Mural homenageia policiais iraquianos que morreram trabalhando
Em um país dividido por seitas e etnias, de aldeias como esta até o governo que está finalmente se formando em Bagdá, o último ato de Muhammad foi um estouro de heroísmo e humanidade em contraste com a crueldade que ainda atinge o Iraque.

Muitos iraquianos veem a polícia e o Exército como corruptos, incompetentes e brutais, um grupo ainda despreparado para proteger o país conforme os americanos se preparam se retirar. Mas a morte de Muhammad, um dos milhares de agentes das forças de segurança iraquianas, ofereceu um contraponto a essa visão.

Ashura

Na semana passada, Muhammad estava guardando a extremidade da celebração religiosa anual da Ashura conforme xiita ostentavam bandeiras e tocavam tambores para comemorar a morte de um dos membros fundadores de sua seita em 680 a.C. As cerimônias têm sido alvos de insurgentes sunitas e os líderes iraquianos implantaram grandes forças de segurança para proteger os fiéis contra ataques este ano.

Segundo testemunhas e policiais, Muhammad viu um homem suspeito se aproximar da multidão, com a mão no bolso. Muhammad, que foi policial durante cinco anos, parou o homem e lhe perguntou: O que você tem no bolso? O homem respondeu: Não é da sua conta.

Ao abrir a jaqueta do homem, Muhammad encontrou um cinturão de explosivos amarrado ao seu peito. Seja por instinto ou treinamento, ou pura falta de outras opções, ele agiu naquele instante.

Ataque

Gritando avisos para a multidão, passou os braços ao redor do homem-bomba. Conforme os dois homens caíram no chão de terra, a explosão dilacerou seus corpos deixando manchas de sangue nas paredes brancas de um pátio escolar.

Uma mulher e sua neta, que estavam sentadas nas proximidades, foram mortas e dezenas de outros ficaram feridos. Mas a polícia disse que o número de mortos teria sido drasticamente maior se Muhammad não tivesse se jogado sobre o homem-bomba.

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Sabah Ismail e Sabriya Abed seguram foto do filho Naseem Sabah Ismail, que morreu tentando deter um homem-bomba, em 2008
"Ele é um herói", disse o tio de Muhammad, Hamza Hassan, que passou o dia acolhendo simpatizantes em uma tenda funerária em frente à casa da família de Muhammad na cidade agrícola de Balad Ruz, perto da fronteira com o Irã. "A única opção era se tornar um mártir".

Desde 2004, cerca de 2,2 mil policiais foram mortos em Diyala, província que é um reduto da Al-Qaeda na Mesopotâmia e símbolo da mistura volátil entre sunitas, xiitas e curdos no Iraque. Eles foram mortos em amplas ofensivas contra delegacias de polícia, bombas magnéticas colocadas em seus carros, troca de tiros em postos de controle.

Pelo menos três deles, confrontando terroristas suicidas, tomaram a decisão extraordinária de colocar os seus braços em volta de seus assassinos para absorver a explosão.

Em Baquba, dentro de uma casa limpa perto das margens poluídas de um riacho de fluxo lânguido, a família de Naseem Sabah Ismail está bem familiarizada com os elogios ao heroísmo. Em janeiro de 2008, Ismail, 23 anos, se atirou em um velho que tentava detonar um colete suicida em uma procissão da Ashura. "Ele sabia que ia morrer", disse seu pai, Ismail Sabah. "E foi até ele mesmo assim".

Recompensa

O governo deu uma pensão à família do policial e alguns milhares de dólares para o sepultamento no cemitério xiita em Najaf. Mas, quase três anos depois, a família disse que seu sacrifício foi em grande parte esquecido. Após sua morte, as autoridades locais fizeram discursos efusivos e promessas de promover Ismail a primeiro tenente e construir uma estátua em sua homenagem. A estátua nunca foi construída, bem como a promoção nunca veio. "O governo só nos fez promessas", disse sua mãe, Sabriya Abed. "Mas era tudo mentira".

Na quarta-feira, amigos e parentes em Balad Ruz, reuniram-se em luto para lembrar Muhammad. Eles disseram que ele era o principal sustento da família depois que seu pai morreu na guerra entre Irã e Iraque nos anos 1980. Eles lembraram que Maomé amava levar suas filhas para piqueniques ou passeios de bicicleta pelas ruas esburacadas.

As ruelas lamacentas atrás da casa da família estavam tomadas pelas picapes e Land Cruisers dos agentes policiais, que ofereceram suas condolências e doaram alguns dinares iraquianos para ajudar a cobrir as despesas do funeral. Os comandantes disseram que iriam buscar uma promoção póstuma. E construir uma estátua em sua honra.

*Por Jack Healy, com reportagem de Omar Al-Jawoshy

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