Ministro afegão proíbe transmissão de cinco novelas estrangeiras

CABUL, Afeganistão - Depois assistir por quatro anos enquanto programas de televisão testavam os limites do decoro e conquistavam uma audiência devota nesse processo, os conservadores atacam novamente.

The New York Times |

Na última batalha da contínua luta entre conservadores culturais e liberais, o ministro da informação e cultura ordenou que as emissoras de televisão parem de transmitir cinco novelas nessa terça-feira dizendo que elas não estão de acordo com a "cultura e religião do Afeganistão".

O ministro, Abdul Karim Khurram, afirmou na semana passada que tomou essa decisão em conjunto com o Conselho de Clérigos, constituído pelos mais influentes líderes religiosos do País.

As companhias de televisão privadas inicialmente se recusaram a obedecer a ordem e disseram que vão apelar contra a decisão ao presidente do Afeganistão. Os programas, novelas produzidas na Índia, continuaram a ser transmitidos todas as noites e têm grande parte da população urbana cativa.

No entanto, conforme o prazo se aproximava uma das emissoras, a Ariana TV, aquiesceu e retirou a novela "Kumkum" do ar no domingo. A rede foi imediatamente inundada por ligações dos telespectadores, disse Abdul Qadir Mirzal, editor-chefe do canal.

O controle da televisão e seu conteúdo tem sido debatido há décadas. O rígido governo Taleban proibiu completamente as emissões e o governo anterior, liderado pelos líderes mujahedeen, proibiu qualquer aparição de mulheres cantoras e apresentadoras.

Mas sob o controle do presidente Hamid Karzai, que tem apoio ocidental, a televisão prosperou, com 17 companhias privadas surgindo nos últimos seis anos, 11 delas baseadas na capital Cabul. Diversas companhias de tevê a cabo também oferecem uma ampla seleção de filmes e programas estrangeiros.

As redes afegãs transmitem uma mistura de notícias, programas de música popular, séries e novelas importadas, e são muito populares, atraindo multidões à casas de chá e sorveterias. Programas de participação como a versão afegã de "American Idol", também têm muita audiência, bem como os jornais.

Muitos telespectadores do País em reconstrução estão tão absorvidos pelas novelas que correm para casa depois do trabalho para descobrir o que vai acontecer na trama. Será que Prina vai convencer seu marido que não tem um caso com o milionário Sr. Bajaj, em "Teste da Vida"? Poderá Tulsi, a heroína de "Porque a Sogra Já Foi a Nora", contornar os planos da ex-amante de seu marido? Ambas as novelas estão entre as cinco que foram proibidas.

As companhias de televisão também se fizeram sentir no fronte político, não apenas por transmitir notícias confrontadoras, mas também por assumir posições em debates étnicos e de linguagem, que refletem a divisão no Afeganistão.

Conforme o País se prepara para eleições presidenciais no ano que vem, alguns donos de emissoras e jornalistas alegam que a proibição de programas de televisão é parte de uma manobra por controle do espaço de transmissão. Líderes partidários abriram suas próprias emissoras, que já desafiam o governo de Karzai.

Karzai demonstrou que se alinha aos conservadores na controvérsia sobre as novelas. Apesar de ter afirmado que garantiria a liberdade de imprensa enquanto estivesse no poder, ele disse inúmeras vezes que programas que vão contra a cultura afegã não devem ser exibidos.

Apesar de suas inclinações liberais, Karzai já foi dominado anteriormente por conservadores em questões culturais. Depois de reclamações no Parlamento há dois anos, ele apontou o mais conservativo Khurram como ministro da cultura, substituindo Sayed Makhdoom Raheen, que coordenou a expansão da mídia depois da queda do Taleban.

Khurram ordenou a proibição das cinco novelas depois de protestos no Parlamento depois de uma cerimônia de premiação recentemente transmitida pela rede privada Tolo TV, que mostrou homens e mulheres afegãos dançando juntos, uma atividade que permanece um tabu no País.

O ministro defende sua ação dizendo ter feito menos do que o Conselho dos Clérigos, ou Ulema, solicitou.

"O Ulema queria que proibíssemos todas as séries de televisão", disse Khurram em entrevista. "Mas eu tentei proibir apenas os que causam mais problemas".

Descrevendo uma das novelas transmitidas pela emissora Tolo TV, o ministro disse: "Há cenas que são difíceis para uma família afegã assistir, como a de uma mulher com mais de um marido".

    Leia tudo sobre: afeganistão

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG