Militares dos EUA se preparam para deixar quartel-general em Bagdá

Conforme retirada se aproxima, soldados avaliam o que fica e o que sai de palácio iraquiano transformado na base de Camp Victory

The New York Times |

Durante a maior parte da guerra, nove imensos palácios em Bagdá – monumentos ao gosto grandioso e duvidoso de Saddam Hussein – serviram como sede para os militares americanos no Iraque. Agora os soldados irão desocupá-los e, como em qualquer mudança de casa, tentam determinar o que sai e o que fica.

NYT
Coronel Jerry Brooks é visto em palácio que integra a base Camp Victory, em Bagdá (07/11)

Comboios partem diariamente, mas nem tudo se encaixa. Os militares consideraram quais itens de valor histórico ou sentimental devem ser levados pelas tropas antes de 31 de dezembro, quando os últimos soldados americanos devem deixar o país.

Um item que irá com os americanos é o vaso sanitário usado por Saddam Hussein após sua prisão, com destino a um museu da Polícia Militar em Missouri.

Um item que fica é a cama do general David Petraeus. Por quase uma década ele e todos os outros generais comandantes no Iraque dormiram, estranhamente, em uma cama com uma cabeceira envernizada, em tons pastéis, com a imagem de duas pombas segurando fitas em seus bicos, sobrevoando um campo de papoulas rosa e azul.

Quando as tropas americanas tomaram o Palácio Al-Az como seu quartel e sede no início da guerra, elas optaram por manter os móveis franceses originais, incluindo a cama.

"Não vamos levar nada que pertença aos iraquianos", disse o tenente-coronel Jerry E. Brooks, um historiador do Exército. "Estamos apenas levando coisas que nós colocamos, que nós usamos."

Cercado por 45 km de muros de concreto, Camp Victory (Acampamento Vitória, em tradução literal) é a maior das 505 bases operadas pelos Estados Unidos no Iraque. Apenas 11 continuam abertas. Camp Victory, um complexo imenso, provavelmente será o último a apagar as luzes. Centenas de milhares de soldados americanos serviram ou passaram por aqui. Durante o aumento de tropas enviadas ao Iraque a partir de 2007, 42 mil soldados e quase o mesmo número de contratados viveram em Camp Victory.

Os militares optaram por não revelar a data exata do fechamento de Camp Victory, porque do lado de fora de seus muros os insurgentes permanecem ativos e isso poderia prejudicar a segurança dos comboios de partida.

"Toda vez que você coloca um caminhão nas ruas, é um risco", disse Brooks. Isso é um lembrete da realidade aceita há muito tempo aqui: que, apesar das milhares de vidas americanas perdidas e dos bilhões em projetos sociais para os iraquianos, a América também deixa para trás algo que não é a paz. O nome da base quase se torna um ponto de interrogação.

"Não se trata de ganhar ou perder, mas de fazer progressos significativos", disse o general Jeffrey Buchanan, porta-voz dos Estados Unidos no Iraque.

Os interiores dos nove palácios serão deixados como eles foram encontrados. Engenheiros civis da Marinha, ou reparadores navais, consertaram danos causados pelas batalhas, implementaram a fiação de acesso à internet banda larga e eletricidade de 110 volts, mas por outro lado deixaram o mármore falso, a folhagem dourada e o mobiliário kitsch inalterados.

Isso inclui uma cadeira que Yasser Arafat, líder palestino, deu a Saddam Hussein. É uma peça icônica da era Saddam com o descanso de braço entalhado na forma de cabeças de leões. Por isso, muitos soldados sentaram neste trono para fotografias e o estofamento está desgastado. Ela ficará no Palácio Al-Faw quando os militares entregarem as chaves.

A maioria dos milhares de soldados alocados aqui viveu em trailers conhecidos como "Chewvilles", um nome derivado de unidades habitacionais em contêineres. Dezenas de milhares destas unidades ficarão para trás. Os Estados Unidos estão deixando centenas de veículos não militares, antes utilizados para o transporte ao redor da enorme base, com a justificativa de que o transporte de volta custaria mais do que seu valor de segunda mão. No total, os militares estão deixando US$110 milhões em equipamentos.

Em Camp Victory os militares batizaram dezenas de locais em homenagem a soldados mortos, como o Heliporto Zembiec em homenagem ao Major Douglas A. Zembiec, morto em combate em Bagdá, em 2007. Memoriais e placas serão exibidos em bases dos Estados Unidos. Os militares também removeram das capelas todos os cartazes e símbolos religiosos cristãos.

"Como é a sensação de ser a última divisão do Iraque?", questionou o brigadeiro general Bradley A. Becker, vice-comandante, que está ajudando a supervisionar a retirada. "Alguns dizem que não é muito bacana ser a pessoa que encerra a nossa participação no Iraque. É uma responsabilidade enorme e uma honra. Estou contente por termos sido os escolhidos para fazê-lo".

A última refeição quente será servida aqui em 20 de novembro, um jantar adiantado de Ação de Graças. Depois disso, os soldados vão comer rações de campo durante as suas últimas semanas na base. As filiais do Burger King, Taco Bell e Subway que trouxeram algum conforto americano para o Iraque já se foram.

Saddam e seu primo Ali Hassan al-Majeed, conhecido como Ali Químico, ficaram presos em uma ilha em um lago artificial no centro da base, separada por uma ponte levadiça. O local, chamado Edifício 114, era ultraconfidencial. Os americanos deixaram sem reparos os danos causados por bombas em seu exterior como um disfarce, e construíram uma prisão de segurança máxima no seu interior. "O que queríamos fazer era garantir que não haveria nenhuma tentativa de libertar Ali Químico ou Saddam Hussein", disse Brooks. O edifício não tem eletricidade hoje e por dentro é escuro como nanquim. As telhas caíram. Fios se projetam da parede.

O vaso sanitário de aço inoxidável, juntamente com a porta de aço da cela de Saddam, já estão a caminho do museu da polícia militar em Fort Leonard Wood, Missouri.

Como prisioneiros, Saddam e seu primo faziam jardinagem no pátio de exercícios. As caixas de plantas deste hobby de fim de vida permanecem ali, abandonadas –cheias de barro e bitucas de cigarro. Não se sabe qual será o futuro do jardim de Saddam.

Por Andrew E. Kramer

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