Militares americanos usam web para refutar mensagens extremistas

Equipe com nativos do Oriente Médio traduzem textos extremistas contra os EUA e elaboram uma resposta para desqualificá-los

The New York Times |

O sol da manhã mal tinha iluminado a Baía de Tampa, na Flórida, quando Ardashir Safavi – nascido no Irã, refugiado na Turquia e educado nos Estados Unidos – começou a patrulhar duas dúzias de sites de língua persa, caçando adversários militantes no ciberespaço.

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Soldado no Afeganistão utiliza laptop para se comunicar com amigos e parentes nos EUA (17/2)

Sua missão era fazer a varredura de sites de notícias, blogs, redes sociais e artigos online para identificar aqueles que considerava como "contendo mentiras, desinformação ou simplesmente percepções equivocadas" sobre as operações militares dos Estados Unidos e a política do Pentágono em todo o Oriente Médio.

Nos últimos meses, Safavi e seus companheiros viram posts que incluíam fotografias manipuladas de Osama bin Laden pretendendo provar que o líder da Al-Qaeda não morreu em uma ação militar dos Estados Unidos . Eles encontraram blogs afirmando que o Pentágono estava acelerando os planos de guerra para invadir muitos países muçulmanos e outros ampliando acusações Taleban de que as tropas dos Estados Unidos estupram com impunidade em todo o Afeganistão.

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Safavi trabalha como parte da equipe de Engajamento Digital, criada em 2008 pelo Comando Central dos militares para "contra-atacar ideologias extremistas, promover a conscientização cultural e explicar os interesses dos Estados Unidos", disse o major David E. Nevers, chefe da equipe, que deve aprovar todas as respostas antes de serem publicadas em sites de língua estrangeira.

A equipe inclui 20 nativos da língua árabe, dari, persa, pashto, urdu e russo, a última uma língua compartilhada em Estados muçulmanos da antiga União Soviética na Ásia Central. Dado que o Comando Central é responsável por ações militares em locais de instabilidade que se estendem desde o Oceano Índico através do Golfo Pérsico até o Mar Vermelho, as pessoas aqui chamam sua sede de "Tampastão".

A expansão dos esforços do governo na guerrilha digital, tanto para ataque quanto defesa está entre as ações mais sigilosas realizadas pelos militares e pela comunidade de inteligência. Para combater o uso da internet pelo adversário, cibercombatentes americanos invadem salas de chat extremistas para semear confusão ou injetar códigos venenosos para derrubar sites de militantes. Às vezes, eles optam por não agir, mas, em silêncio, acompanham os movimentos online de jihadistas para saber seus planos.

Em contraste, a equipe de Engajamento Digital opera em total abertura: todas as mensagens contém um selo de reconhecimento do patrocínio oficial do Comando Central dos Estados Unidos.

Operadores da equipe "respeitosamente desviam insultos sem fundamento e muitas vezes irracionais, enfrentam adversários com evidências factuais e expõe propaganda extremista que poderiam não ser refutada", disse Nevers. "Todos os compromissos são transparentes e atribuíveis."

O único ofuscamento é o uso de pseudônimos online para proteger os funcionários civis contratados de qualquer possível retaliação.

O nome usado online por Safavi foi obtido de uma grande dinastia persa. Em uma manhã recente, ele encontrou mensagens de um persa provocativo que inspiraram uma sequência energética de respostas criticando a relação do Pentágono com um aliado complicado, o Paquistão, incluindo teorias de conspiração Washington versus Islamabad.

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A discussão era relevante para outros países além do Irã, uma vez que há grandes populações de língua persa no Afeganistão e no seu vizinho do norte, o Tadjiquistão. "Você já ouviu falar da Cortina de Ferro, é claro", disse Safavi. "Estamos aqui para furar a cortina eletrônica, porque os militares decidiram que não podem ceder esse espaço de informação aos extremistas violentos."

Safavi digitou um resumo traduzido da conversa, que em questão de minutos já contava com 29 publicações e havia sido lida por milhares de pessoas. Ele propôs uma resposta extraída de declarações políticas do Pentágono e do Departamento de Estado: elas descreveram os interesses de segurança compartilhados pelos Estados Unidos e o Paquistão, citando como prova o grande número de paquistaneses nas forças de segurança que foram mortos em batalhas contra insurgentes dentro das fronteiras desse país.

Então, ele enviou uma mensagem para o comando de Nevers em um formulário denominado "Permissão para Engajar".

A equipe de Engajamento Digital funciona no ciberespaço, mas não na velocidade da rede porque a tradução e a aprovação pode levar algumas horas. Ainda assim, o grupo tanta fazer da necessidade de supervisão uma virtude. Se um publicação ofensiva é encontrada no início da manhã, a resposta precisa estar online no início da tarde.

Paralelamente a esses esforços militares, o Departamento de Estado criou um centro de comunicações estratégicas contraterrorismo cujos analistas e blogueiros tentam entender o que inspira o seu público-alvo – homens de 18 a 30 anos de idade, principalmente no Oriente Médio – para o extremismo violento e encontrar formas para afastá-los disso.

"Nós realmente queremos ter um entendimento profundo de onde eles vêm, o que estão dizendo, como estão dizendo e o que os motiva", disse Richard LeBaron, um ex-embaixador dos Estados Unidos no Kuwait, que é coordenador do centro.

Na equipe de Alcance Digital do Departamento de Estado, analistas de árabe e urdu falam com extremistas em conversas online, identificando-se como representantes do governo dos Estados Unidos. "O fato de eles se falarem conosco indica que já conseguimos alguma coisa", disse LeBaron. "Eles costumam usar uma linguagem horrivelmente abusiva, portanto nossos funcionários precisam ter casca grossa."

Brian Fishman, um analista de contraterrorismo da Fundação New America, um grupo de pesquisa não-partidário em Washington, disse que, apesar de suas limitações, essas campanhas online de divulgação são ferramentas eficientes e de baixo custo na abordagem cada vez mais holística do governo contra os terroristas, especialmente à medida que os Estados Unidos retiram suas tropas do Iraque e Afeganistão .

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Coronel Jerry Brooks é visto em palácio que integra a base Camp Victory, em Bagdá (07/11)

Em muitos aspectos, segundo Fishman, justapor imagens factuais – vídeos das pregações de ódio do líder da Al-Qaeda, Ayman al-Zawahri, e os protestos triunfantes na Praça Tahrir , no Cairo – pode ser mais poderoso e mais eficaz do que qualquer mensagem que o governo possa transmitir. "Apenas demonstrar os fatos e deixar a realidade falar por si", disse Fishman.

Populares websites de língua árabe reconhecem o impacto da equipe de Engajamento Digital. Um blogueiro escreveu em www.islamtoday.net no final do ano passado que o esforço "representa uma mudança no estilo de engajamento normalmente utilizado pelos americanos com as populações da região, que geralmente envolve as elites e os governos e apenas em inglês."

O blogueiro reconheceu que a iniciativa online dos militares "abre um diálogo com os usuários que representam um segmento com diferentes interesses e opiniões" e que as publicações do Comando Central em "árabe suave" são "muitas vezes muito sofisticadas".

Oficiais militares admitem que além de respostas anedóticas, é difícil medir o impacto do programa.

Um software pode tabular o número de pessoas lendo as publicações em todo os sites de língua estrangeira, onde a equipe opera. Mas é impossível medir se as opiniões estão mudando – e, em caso afirmativo, se a equipe é uma influência significativa ou simplesmente trabalha para esvaziar o oceano da militância um dedal por vez.

"O mais importante é que estamos nos engajando em discussões inteligentes, honestas e francas", disse o major T. G. Taylor, chefe de operações de mídia do Comando Central. "O fato de que os fóruns cada vez mais nos permitem interagir com o público é, talvez, uma medida mais importante de nossos esforços de comunicação."

Um esforço recente realizado por parte do Comando Central envolveu responder a uma pergunta realizada em uma sala de bate-papo sobre o quê foi conseguido após uma década de envolvimento dos Estados Unidos no Afeganistão. "Hoje os afegãos podem desfrutar de mais direitos políticos, econômicos e sociais do que em qualquer momento na história do país", escreveu a a equipe de Engajamento Digital. Ela acrescentou: "Os dias de apedrejamento público e do espancamento de mulheres nas ruas acabaram."

Por Thom Shanker e Eric Schmitt

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