Militares americanos são acusados de manipular diagnósticos psiquiátricos

Caso de Susan Carlson levanta questões sobre se Exército dos EUA usa relatórios médicos como desculpa para se livrar de soldados

The New York Times |

A capitã Susan Carlson não era uma recruta típica quando se alistou no Exército aos 50 anos de idade em 2006. Mas os militares precisavam desesperadamente de profissionais de saúde comportamental e por isso a aceitaram.

Apesar de ser, em sua própria avaliação, "uma soldada fraca", ela recebeu críticas excelentes por seu trabalho em Fort Leavenworth, Kansas, onde aconselhava prisioneiros. Mas no ano passado, Susan, uma assistente social, foi destacada para o Afeganistão com a Guarda Nacional do Colorado e tudo desmoronou.

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Susan Carlson, dispensada do Exército após ser diagnosticada com transtorno de personalidade, é vista em sua casa em Mt. Pleasant, Wisconsin (05/02)

Depois que um soldado se queixou de que ela havia feito comentários sexualmente sugestivos, Susan foi suspensa de seus deveres de aconselhamento e enviada para um psiquiatra do Exército para avaliação. A análise do psiquiatra foi extremamente prejudicial: segundo um relatório médico, ela tinha um transtorno de personalidade, um diagnóstico usado pelos militares para dispensar milhares de soldados. Ela foi mandada para casa.

Susan contestou o diagnóstico, mas apenas meses depois descobriu algo poderoso enterrado em seu prontuário médico. "Seu comando pede especificamente um diagnóstico de transtorno de personalidade", dizia um documento assinado pelo psiquiatra.

Defensores dos veteranos dizem que Susan encontrou evidências claras de algo de que suspeitavam há muito tempo, mas que nunca haviam conseguido provar: que os comandantes militares pressionam os médicos a emitir diagnósticos psiquiátricos injustificados para se livrar de alguns soldados.

"Os registros médicos [de Susan] sugerem uma tentativa de seu comandante de influenciar os profissionais médicos", disse Michael J. Wishnie, professor da Escola de Direito de Yale e diretor de sua Clínica de Serviços Legais para Veteranos.

Nas últimas semanas, dúvidas sobre se o Exército manipula diagnósticos psiquiátricos para poupar dinheiro foram levantadas na Base Conjunta Lewis-McChord perto de Tacoma, Washington, onde soldados submetidos a avaliações médicas antes da alta queixaram-se de que os psiquiatras rescindiram seu diagnóstico de Estresse Pós-Traumático, impondo aos soldados diagnósticos como Transtorno de Personalidade, que não os qualificam para dispensa médica.

Diante dessas acusações, o Exército suspendeu dois médicos de uma unidade psiquiátrica forense especial. Os casos de 14 soldados foram revisados e seu diagnóstico de Estresse Pós-Traumático reafirmado para seis deles. "Nosso objetivo é fornecer um diagnóstico mais preciso", disse Maria Tolleson, porta-voz do Comando Médico do Exército.

Caberá a Guarda Nacional do Colorado decidir como Susan será dispensada. No mínimo ela quer que o diagnóstico de transtorno de personalidade seja removido de seu registro médico.

"Esse é um rótulo muito ruim", disse ela. "Sou uma 'soldada quebrada'. Sou velha. E eles só querem se livrar de mim."

Por James Dao

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