Militantes Haqqani usam esquadrões da morte no Afeganistão

Assassinatos e decaptações em massa assustam moradores que não denunciam crimes para as autoridades por medo de retaliações

The New York Times |

À medida que assassinatos seletivos aumentaram acentuadamente em todo o Afeganistão, os Estados Unidos e as autoridades afegãs passaram a acreditar que muitos deles são trabalho das unidades de contra-espionagem da rede Haqqani e de militantes da Al-Qaeda, acusados de matar informantes suspeitos e aterrorizar a população de ambos os lados da fronteira entre Afeganistão e Paquistão.

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Vendedor afegão conversa com soldado americano durante patrulha em Sabari, distrito na província de Khost

Oficiais da inteligência militar dizem que as unidades agem como esquadrões da morte e que uma delas, um grande grupo conhecido como Khurasan, que opera principalmente em áreas tribais do Paquistão, foi responsável por pelo menos 250 assassinatos e execuções públicas.

Outro grupo, cujo nome não é conhecido, trabalha principalmente no Afeganistão e pode ter sido responsável por pelo menos 20 mortes na província de Khost apenas durante o verão, incluindo uma decapitação em massa que veio à tona apenas depois que um vídeo foi encontrado na posse de um capturado insurgente. O vídeo mostra 10 corpos sem cabeça uniformemente espaçados ao longo de uma estrada pavimentada, enquanto suas cabeças foram colocadas em um semicírculo, seus rostos claramente visíveis.

Essa é mais uma indicação de que o Haqqani, uma facção principalmente alocada no Paquistão, permanece a parte mais perigosa de uma insurgência que faz pleno uso de uma fronteira porosa e muitas vezes mal definida, como mostrou o ataque da Otan que matou 24 soldados paquistaneses no fim de semana.

Embora as circunstâncias daquele ataque permaneçam obscuras, ele perturbou ainda mais as relações entre o Paquistão e os Estados Unidos , ao mesmo tempo que mais uma vez demonstrou como existe dentro do Paquistão regiões usadas como uma parte crítica da estratégia dos insurgentes.

Os americanos adotaram uma ofensiva que visa atacar os insurgentes quando eles entram no Afeganistão. Mas a nova onda de assassinatos mostra que, mesmo no momento em que a Otan retrata os insurgentes como um força enfraquecida, o Haqqani ainda pode fazer valer a sua influência, não apenas com atentados que chegam às manchetes, mas também através da intimidação e percepção de controle.

Um caso arrepiante atribuído ao segundo esquadrão da morte foi relatado depois que forças dos Estados Unidos no Afeganistão capturaram o líder sênior da Haqqani , Haju Mali Khan, e mataram seu vice. Poucos dias depois, os corpos de dois homens acusados de ajudar os americanos apareceram perto da aldeia onde Khan foi capturado. Barras de ferro escaldante tinha sido colocadas atravessadas em suas pernas. Uma das vítimas havia sido estripada, e ambos tinham sido baleados na cabeça e esmagados por pedras. O medo tomou conta da aldeia. "Você não tinha como reconhecê-los", disse uma testemunha que viu os corpos.

Em todo o Afeganistão, os assassinatos saltaram 61% nos nove primeiros meses deste ano, em comparação com o mesmo período de 2010, segundo estatísticas da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) - 131 assassinatos foram relatados nesse período . Autoridades da ONU dizem que começaram a notar um aumento acentuado em 2010, quando 462 assassinatos foram registrados, o dobro do ano anterior. Os dados não incluem muitas mortes em áreas remotas, como a decapitação em massa, porque os moradores não relatam esses crimes.

Oficiais da inteligência dos Estados Unidos dizem que o grupo do Afeganistão e o Khurasan parecem operar da mesma maneira. O Khurasan foi supostamente formado no início de 2009 na área do Waziristão, norte do Paquistão, sede do Haqqani, "em resposta à instensificação dos ataques realizados com aviões não tripulados pelos Estados Unidos". O grupo usa roupas pretas com braçadeiras verdes contendo seu nome completo, Itihad al-Mujahedin Khurasan, e atua em estreita colaboração com a Al-Qaeda na região. Estimativas de seu tamanho variam entre 100 e 2 mil membros.

Durante seu interrogatório, Khan sugeriu que outras armas estavam envolvidas na batalha pela influência. De acordo com quatro oficiais familiarizados com o questionamento, o líder disse aos seus interrogadores que o Haqqani e o Taleban haviam se aproximado do governo afegão e de oficiais militares, persuadindo-os a assinar um documento de cinco páginas secretamente prometendo lealdade à liderança do Taleban.

"Eles dizem aos oficiais que o Taleban vai estar de volta no poder dentro de 20 dias depois que a Otan partir , por isso, se quiserem viver, eles precisam assinar", disse uma das autoridades americanas, que falou sob a condição de anonimato. No entanto, oficiais dizem não ter encontrado nenhuma confirmação de tais juramentos.

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Em lugares como Sabari, um distrito rural a dezenas de quilômetros da fronteira com o Paquistão, assassinatos seletivos estão produzindo o efeito pretendido. Depois de uma execução à luz do dia de três homens em um bazar, na aldeia de Maktab, cerca de quatro meses atrás, os donos das lojas ficaram tão traumatizados que nunca relataram os assassinatos às autoridades.

Muitas vezes, as vítimas podem ter tido apenas um encontro de passagem com as forças da coalizão, ou nenhum envolvimento sequer, de acordo com oficiais, testemunhas e amigos e parentes das vítimas.

Autoridades americanas e afegãs descobriram os assassinatos apenas mais tarde quando um vídeo do episódio foi encontrado no celular de um insurgente capturado. Mesmo assim, autoridades americanas que mostraram o vídeo a um repórter do The New York Times conseguiram citar o lugar onde as mortes tinham acontecido, mas acreditavam que elas haviam ocorrido em outubro, cerca de três meses depois da data confirmada por testemunhas .

O vídeo mostra uma série de atiradores disparando conta dois homens enquanto donos de lojas se abaixavam. Os militantes então dispararam em um terceiro homem quando ele se sentou em uma cadeira de plástico branco na frente de sua loja. Quando o homem caiu para trás, um dos pistoleiros atirou mais de dez vezes em seu rosto e peito.

"Quem tentar ajudar os americanos e espiões terão de enfrentar isso", um dos homens gritou após os assassinatos, de acordo com uma testemunha, Ahmadullah, 25 anos, dono de uma loja que, como muitos afegãos, usa apenas um nome.

Ahmadullah disse que ninguém ousou denunciar o crime, mesmo as famílias dos homens que cuidaram dos corpos de distância. "Nós tínhamos acabado de assistir e ficar quietos e observar o que estava acontecendo com estas pessoas", disse.

"Eu conhecia aqueles homens", acrescentou. "Um deles era apenas proprietário de uma loja, os outros dois eram trabalhadores. Eles eram inocentes."

Um oficial militar dos Estados Unidos que viu o vídeo disse que não ficou surpreso que os moradores locais tenham conseguido relatar o episódio. "As pessoas que vivem em Sabari vivem o terror 24 horas por dia", disse, falando sob condição de anonimato. "Quando realizamos um ataque a um líder Haqqani", disse, um grupo de cerca de 15 membros desses esquadrões da morte "massacra as pessoas."

No entanto, quando perguntado sobre as mortes, o governador e o chefe de polícia local de Sabari disseram que não sabiam nada sobre eles. "Absolutamente nego tais relatos", disse Dawlat Khan Qayoumi, o governador do distrito. "Eu posso dizer-lhe, nos últimos cinco meses, não vi nenhum incidente."

Perguntas também cercam as decapitações filmadas. Muhammad Zarin, o comandante de uma unidade especial da polícia à paisana que vem investigando os esquadrões da morte, disse apenas que os homens eram de Khost e foram mortos há cerca de três meses na região de Mangal na província montanhosa de Musa Khel. Nem a Otan nem as Nações Unidas, ambas as quais acompanham os assassinatos, tinha qualquer registro da decapitações em massa, dos assassinatos em Bazaar Maktab ou dos dois homens mortos após a captura de Khan, refletindo o sigilo intenso com a qual os moradores têm guardado as mortes.

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Soldado americano patrulha distrito de Sabari, na província de Khost

Depois de um ataque anterior que não conseguiu capturar Khan na região de Musa Khel, as forças da coalizão divulgaram um relatório de que três anciãos da aldeia haviam sido sequestrados e três adolescentes degolados.

"Quando fomos investigar, não conseguimos qualquer prova ou informação", disse o coronel Christopher R. Toner, comandante da Primeira Divisão da Infantaria da Terceira Brigada de Combate, com sede em Khost e nas províncias de Paktia. "Mas conseguimos o suficiente sobre o que eu suspeito ser a verdade."

Autoridades de saúde pública também dizem que ouvem falar de dezenas de assassinatos parecidos, mas raramente são capazes de confirmá-los. "As pessoas não trazem os corpos para o hospital por medo do Taleban", disse o Dr. Fazal Mohammad Mangal do hospital provincial de Khost.

Zabit Amen Jan, ex-morador de Musa Khel, perdeu quatro irmãos para os insurgentes, inclusive dois estudantes em seus 20 anos, cujos corpos cheios de balas foram encontrados em junho. Uma carta escrita a mão encontrada em um dos corpos dizia que os homens ignoraram repetidas advertências para parar de trabalhar com as forças da coalizão. "Não havia outra maneira, exceto essa", diz a carta.

Jan disse que seus irmãos mais novos não tinham conexão com a coalizão e foram mortos só porque ele e outro irmão tinham se envolvido em política.

"As pessoas costumavam vir ao nosso bairro para piqueniques, porque a nossa área está cheia de montanhas e coberta de pinheiros e nogueiras", disse. "Agora as pessoas estão fugindo para a cidade de Khost ou Cabul ou para o Paquistão, porque há tantos assassinatos e sabem que o governo não pode protegê-los."

Por Ray Rivera, Sharifullah Sahak E Eric Schmitt

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