Mídia online sente gosto de liberdade amargo na Síria

Sites oficialmente proibidos, como o Facebook, têm sido principais ferramentas de divulgação e meios contra censura e repressão

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No início deste mês, um vídeo no qual professores batiam em seus alunos foi publicado no Facebook. Embora o Facebook seja oficialmente proibido na Síria, o vídeo rapidamente se tornou viral, com blogueiros sírios alimentando a raiva pública até que a história foi absorvida pelos meios de comunicação árabes.

Finalmente, o Ministério da Educação emitiu um comunicado dizendo que os professores tinham sido transferidos para funções afastadas dos alunos. O episódio foi um raro exemplo da forma como os sírios, usando o Facebook e blogs, conseguem obter uma tênue liberdade dentro do ambiente rigidamente controlado que é a mídia do país, onde qualquer crítica ao governo pode levar a anos de prisão.

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Khaled al-Ekhetyar trabalha para um site em Damasco, na Síria
"Nós temos um pouco de liberdade", disse Khaled Al-Ekhetyar, um jornalista de 29 anos de idade que trabalha em um site cujo cartão de visitas mostra um rosto com as mãos cobrindo os olhos e a boca. "Nós podemos dizer coisas que não podem ser ditas na imprensa".

Mas essa pequena margem é ameaçada por uma névoa sempre presentes de medo e intimidação, e alguns jornalistas temem que em breve possa ser extinta. Um projeto de lei que regulamentaria a mídia online pode reprimir blogueiros sírios e outros jornalistas, obrigando-os a registrar-se como membros do sindicato e a apresentar seus textos para análise antes da publicação. Outros países árabes regularmente prendem jornalistas que exprimem opiniões dissidentes, mas a Síria pode ser o mais restritivo de todos.

Propriedade do Estado

A maioria dos meios de comunicação sírios ainda é propriedade do Estado. Estabelecimentos de mídia de propriedade privada tornaram-se legais em 2001, quando a economia socialista começou lentamente a ser liberalizada após a ascensão do presidente Bashar Al-Assad. Mas grande parte do setor é de propriedade de membros da "oligarquia" síria - parentes de Assad e de outros oficiais de alto escalão do governo. Todos sujeitos a intimidação e controle pesado.

"O primeiro nível é censura", disse Ayman Abdel Nour, fundador do All4Syria.info, site independente onde Ekhetyar trabalha. "O segundo nível é quando enviam depoimentos e forçam-nos a publicá-los". Como muitos outros jornalistas e dissidentes, Abdel Nour deixou o país e agora vive no exterior.

Limites

Os "limites" básicos são bem conhecidos: nenhuma crítica ao presidente e sua família ou aos serviços de segurança, nenhuma menção de questões delicadas, como a minoria curda da Síria ou os alauítas, uma minoria religiosa à qual Assad pertence. Os jornalistas estrangeiros que violam estas regras são banidos do país (um fato que limita a cobertura da Síria neste e em outros jornais americanos).

Mas a medida exata do que é proibido ainda é obscura e isso gera medo que incentiva a imprecisão e a autocensura, segundo muitos jornalistas do país. A estudante e blogueira de 19 anos Tal Al-Mallohi foi presa no ano passado e permanece na prisão. Seu blog encorajava o governo sírio a fazer mais pelos palestinos, mas não representava críticas reais e as autoridades não deram qualquer razão para sua prisão.

Diversos blogueiros foram presos por expressar opiniões consideradas críticas ao governo sírio ou mesmo outros governos árabes, sob leis antigas que criminalizam o "enfraquecimento do sentimento nacionalista" e outros crimes de sentido amplo.

Três nãos

Outros foram presos por piadas. Um blogueiro, Osama Kario, escreveu uma paródia, em 2007, sobre os famosos "três nãos árabes" na sua recusa a fazer qualquer concessão a Israel (não à paz com Israel, não a negociações com Israel, não ao reconhecimento de Israel). Sua versão: "Não há eletricidade, não há água, não há internet". Ele foi preso por 28 dias, depois dos quais ele parou de blogar e não falou com colegas jornalistas sobre sua experiência.

A televisão e os jornalistas de rádio têm feito alguns esforços na tentativa de mudar os limites no últimos anos, com algum sucesso.

O site All4Syria.info conseguiu sobreviver desde 2004 com uma equipe rotativa de cerca de meia dúzia de escritores baseados na Síria. No início deste ano, o site publicou uma entrevista com três dissidentes políticos após sua libertação da prisão, algo que nenhum outro veículo do país se atreveu a fazer.

"A internet na Síria é um pouco como as publicações samizdat eram na União Soviética", disse Mohammad Ali Abdallah, cujo irmão Omar Ali Abdallah foi condenado a cinco anos de prisão em 2006 por contribuir com um fórum na internet que foi considerado subversivo pelas autoridades.

Rádios Privadas

No ano passado, algumas das novas estações de rádio privadas da Síria se juntaram aos blogueiros do país para criticar uma proposta de revisão da lei que teria tornado legal que homens se casassem com meninas de 13 anos. Sob pressão, os legisladores abandonaram a proposta.

Mas sucessos individuais nem sempre contribuem para um progresso mais amplo por causa do medo. "Mesmo quando alguém cruza uma barreira com sucesso, todo mundo permanece com medo, eles não usam aquilo como impulso para algo maior ", disse Ekhetyar. "Eles pensam que talvez tenha sido uma coincidência".

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Em um café de Damasco, jovem checa perfil no Facebook, um dos sites mais acessados na Síria
Muitos jornalistas online usam pseudônimos, acrescentou, uma prática que pode ser mais segura, mas que corrói sua credibilidade e os coloca em uma temerosa solidão em que não podem desenvolver padrões de qualidade. O Facebook tem sido um importante canal de escoamento para as frustrações políticas e sociais, mas também é frequentemente usado com anonimato.

E é impossível saber quantos sírios estão prestando atenção. Questionado sobre quem é o seu público, Ekhetyar fez uma pausa e disse com um sorriso cansado: "Meus amigos e a polícia secreta".

Facebook

Esse pode ser o motivo pelo qual as autoridades sírias, apesar da proibição oficial ao Facebook, YouTube e muitos outros sites, não temem o seu uso. A maioria dos funcionários do governo sírio, inclusive o presidente, tem sua página no Facebook. Entre em qualquer uma das muitas lan houses em Damasco e o gerente vai lhe mostrar como entrar no Facebook ou em outros sites proibidos. Servidores proxy estrangeiros são trocados entre os jovens como figurinhas de beisebol.

Em uma noite recente na tumultuada região de Bab Touma, na velha Damasco, Berj Agop de 26 anos estava entre uma multidão de jovens no Internet SpotNet Cafe, muitos deles casualmente navegando sites que são oficialmente proibidos. "Eu vi o vídeo dos professores batendo nos alunos", ele disse. "É uma vitória, com certeza, sem o Facebook, ninguém teria sabido sobre esse incidente".

Mas nas proximidades, um outro jovem que informou seu nome apenas como Taym, ofereceu uma opinião diferente. "A internet é como um pirulito para os jovens", ele disse. "Ela diverte e nos faz esquecer os problemas; é como Alice no País das Maravilhas: 'Eu sonho com um mundo melhor, um mundo melhor'", comparou.

*Por Robert F. Worth

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