Mesquita vira pronto-socorro para manifestantes no Iêmen

Voluntários improvisam hospital para cuidar de feridos nos protestos contra o governo, que já duram nove meses

The New York Times |

A calma rapidamente virou caos dentro da mesquita quando a primeira vítima da repressão a um protesto chegou ao local em uma maca. O jovem cobria seu abdômen com as mãos ensanguentadas.

Logo no local havia dezenas de vítimas de arma de fogo, cobrindo seus ferimentos enquanto eram levadas às pressas a uma sala projetada para oração e reflexão, mas que agora funcionava como um pronto-socorro para manifestantes baleados por seu governo.

"Quais são as razões para matar as pessoas? Você não pode justificar isso", disse Ghada Qassim, um médico chocado com a cena. "Elas não têm armas. É um desastre."

NYT
Manifestante é tratado por médicos em hospital improvisado dentro de mesquista em Sanaa, capital do Iêmen

Nove meses atrás, quando os manifestantes tomaram as ruas em grande número, exigindo o afastamento do presidente Ali Abdullah Saleh, voluntários transformaram esta mesquita em uma clínica de atendimento emergencial, onde foram realizadas cirurgias de emergência ou simplesmente foram tratados os atingidos por bombas de gás lacrimogêneo.

As forças de Saleh e as gangues que os apoiam têm repetidamente aberto fogo contra os manifestantes ao longo de meses de protesto. Às vezes eram balas de um franco-atirador, outras o fogo indiscriminado de uma Kalashnikov ou talvez estilhaços de um morteiro. Às vezes eram os manifestantes que caminhavam abertamente em direção às balas.

A mesquita sempre fica cheia de feridos e os voluntários – há cerca de 300 deles – sempre começam a trabalhar.

"Estamos aqui para que possamos fazer algo humanitário", disse Dambani al-Suheib, um paramédico de 28 anos, sentado na parte traseira de uma ambulância emprestada do Hospital de Tecnologia e Ciência.

Este foi mais um dia típico em um país que passa de uma crise sangrenta para a próxima. Os manifestantes não vão sair das ruas. O presidente se recusa a deixar o poder e as balas continuam a ser disparadas enquanto a mesquita continua a ser tomada por pacientes. O número de feridos aumentou quando a guerra urbana entre as forças governamentais e uma divisão de militares que desertaram teve início.

Quando os primeiros tiros foram disparados na terça-feira passada, Dambani saltou para a minivan que funciona como ambulância e saiu em disparada.

"Ficamos muito tristes por causa dos pacientes", disse Dr. Mohammed Qubati, chefe do hospital improvisado que durante semanas só foi para casa por apenas algumas horas. Nos outros dias ele dorme ao lado de outros voluntários no chão da mesquita.

"Vi pessoas com metade do corpo, metade da cabeça", disse ele. "O que podemos fazer? Nós choramos."

Duas marchas aconteceram neste dia, partindo do centro até a Universidade de Sanaa. Um grupo seguiu pelo bairro residencial Al Qa'a, que estava ocupado com gangues armadas pró-governo que rapidamente abriram fogo. Forças de Segurança Central usaram gás lacrimogêneo.

Quatro manifestantes morreram, um número que para os veteranos calejados deste confronto foi relativamente pequeno. Em março, atiradores mataram 50.

O pronto-socorro foi estabelecido de maneira improvisada, em março, durante os primeiros dias do movimento de protesto, depois que bandidos pró-governo começaram a atacar os manifestantes. A mesquita foi escolhida por sua localização central que proporciona um grande santuário para os feridos. Os imãs da mesquita consentiram e desde então hospitais, empresários, organizações não-governamentais e até mesmo a Organização Mundial da Saúde doaram suprimentos e dinheiro. Há uma farmácia onde manifestantes doentes podem encontrar remédios gratuitos e pacientes podem retornar para um acompanhamento.

"Estamos ajudando os civis", disse Ibrahim Dabwan, uma enfermeira voluntária. "Vamos ajudar qualquer civil, pró-governo ou contra o governo. Este é o nosso dever."

Em seus primeiros dias, o pronto-socorro era muito menos organizado. Os médicos tropeçavam nos feridos dispostos no chão de pedra. Mas a continuidade dos ataques deu prática à equipe que atua no local e logo médicos e enfermeiros passaram a se mover com mais facilidade pelo pequeno espaço.

"A coisa mais importante é determinar o campo da lesão: cuidados imediatos salvam vidas", disse Tarek Noman, um médico de formação ocidental que realiza a triagem dos pacientes, para determinar quem deve ser tratado primeiro.

Numa manhã bem cedo, antes dos confrontos começarem, um zelador vestido de verde calmamente varria o chão de pedra enquanto um punhado de médicos organizava seus suprimentos perto das cerca de 20 macas. Mulheres sentadas em um canto da mesquita preparavam gazes. Duas ambulâncias estavam estacionadas nos portões da mesquita para tentar garantir que apenas os pacientes, a equipe médica e os jornalistas possam entrar.

Quando uma mulher ferida chegou, houve caos quando os voluntários do sexo masculino tiveram de pedir ajuda de enfermeiras, que vieram correndo em suas túnicas negras. Nesta sociedade conservadora, as mulheres têm que ser tratadas separadamente dos homens.

Lá fora, Noman andava de um lado para o outro próximo ao portão principal, olhando para os corpos de dois manifestantes.

"Eles não deveriam ter transferido esses dois para o hospital", disse ele, frustrado que os médicos tenham usado as ambulâncias para transportar vítimas com pouca chance de sobrevivência.

"Eu sabia que eles iriam morrer", disse ele. "Eles foram baleados na cabeça."

Um jovem que tinha apenas uma tosse por causa do gás lacrimogêneo não pôde entrar na sala principal. Ali estava cheio demais por causa das vítimas a bala.

Por Laura Kasinof

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