Mesmo um enfraquecido Kadafi seria difícil de ser deposto

Governo de líder conta com apoio de tribos históricas do país, como a qadhadfa, a maghraha e a warfalla, que depuseram o rei

The New York Times |

Há 41 anos, o coronel Muamar Kadafi governa a Líbia com apenas um verdadeiro parceiro de administração ou potencial contrapeso: o conselho das ponderosas tribos da Líbia.

Com seu governo oscilando, as tribos podem agora desempenhar um papel decisivo em decidir se ele sobreviverá ou, de acordo com um conjunto de exigências circulado pelos rebeldes opositores, dará lugar a um governo interino.

Especialistas dizem que antigas lealdades e animosidades tribais contribuíram para a revolta desde o início. A região oriental, onde a revolta começou, conhecida como Cirenaica, é o coração da tribo senussi, origem do rei Idris 1º, o monarca que governou a Líbia depois que o país deixou o domínio colonial italiano e alcançou a independência plena em 1951.

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Rebeldes opositores na cidade de Brega, na Líbia
Foi a tribo de Kadafi, a qadhadfa, que vem da Líbia ocidental, e outras duas, a maghraha e a warfalla, que depuseram o rei em 1969. Os orientais dizem que Kadafi tem fome de dinheiro e equipamentos de sua região desde então, agravando os ressentimentos que permaneceram presentes após a queda do rei senussi e deixando a região em um estado mais ou menos constante de rebelião.

A tribo warfalla está oscilando, com seus líderes apoiando a oposição, mas seus subordinados em dúvida. “As duas outras tribos ainda parecem leais ao regime, no qual têm interesses pessoais", disse George Joffe, um estudioso do Norte da África na Universidade de Cambridge. Outras tribos nas regiões ocidentais de Fezzan e Tripolitânia estão "observando e esperando", explicou Joffe.

Segundo o especialista, outra fonte de oposição em potencial pode ser o antigo Movimento da Livre Diretoria, um grupo nacionalista árabe que executou o golpe de 1969, mas posteriormente foi marginalizado pelo governo de Kadafi.

Exército

Até mesmo o Exército pode ser uma ameaça ao governo. "Ficou bastante claro que o Exército de cerca de 45 mil soldados está dividido, mas em que proporções exatamente nós não sabemos", disse Joffe.

Kadafi sempre desconfiou do Exército e monitorou seu comportamento com cuidado. Ele deu atenção especial às unidades do leste rebelde, privando-as dos melhores equipamentos e treinamento, que passou para as tribos e unidades paramilitares mais leais, disse Shashank Joshi, um pesquisador do Instituto de Serviços Reais Unidos de Londres, especializado em Forças Armadas.

O próprio Kadafi vem de Surt, onde sua tribo se mantém forte. "A situação é mais fluída do que imaginamos, com Kadafi capaz de lançar operações militares fora de Trípoli, além de manter o controle sobre Surt", disse Joshi. "Kadafi manteve elementos significativos do Exército e perdeu os elementos que sempre teve medo de perder, aqueles filiados com as tribos que ele tinha como alvo".

A descoberta de grandes jazidas de petróleo mudaram a antiga negociação entre tribos e regiões da Líbia, algo que possibilitou a Kadafi construir um Estado mais centralizado para explorar esse recurso, disse Jean-Yves Moisseron, editor-chefe da revista francesa Maghreb-Machrek, focada em questões do mundo árabe.

As receitas do petróleo também permitiram que Kadafi espalhasse a riqueza entre as tribos, reduzindo os conflitos tradicionais, disse Moisseron, e implementasse um sistema bem equipado de paramilitares leais ao seu governo.

Ao mesmo tempo, Kadafi estabeleceu outras unidades militares e paramilitares, como a Brigada 32, com sede em Trípoli e comandada por um de seus filhos, Khamis. Essa brigada, que é conhecida como a ‘Brigada de Dissuasão’, é usada para a repressão interna e é apoiada por mercenários estrangeiros. Seu tamanho não é claro, mas acredita-se que seja equipada com armas e munições avançadas e formada por pessoas de fora.

Os mercenários em si são um desdobramento da Legião Islâmica, uma força expedicionária pan-árabe que Kadafi criou em 1972, logo após tomar o poder, quando tentou criar o grande Estado Islâmico do Sahel. Inicialmente centrado no Chade e Sudão, que era composto por imigrantes de países africanos mais pobres que estavam procurando trabalho.

A ideia foi reavivada a partir de 2000 para apoiar o governo, recrutando os milhões de subsaarianos que chegaram à Líbia em busca de trabalho ou como refugiados, disse Joffe.

Além disso, Kadafi criou o Movimento do Comitê Revolucionário – uma unidade paramilitar formada na sua maioria a partir de três tribos de confiança, a warfalla, a qadhadfa e a maghraha –, usado para amedrontar os adversários com a ideia de uma justiça revolucionária.

Em geral, disse Joffe, cerca de 119 mil líbios fazem parte dos serviços de segurança, incluindo o Exército de cerca de 45 mil soldados, de um país predominantemente desértico de cerca de 6,4 milhões de habitantes.

Pacto

Nos últimos anos, o pacto à base de petróleo na Líbia sofreu com a crise econômica mundial de 2008, que reduziu as receitas do petróleo do país em 40%, Moisseron escreveu em um artigo para o jornal francês Libération. "O sinal mais preocupante para o futuro imediato do coronel Kadafi é o rompimento do pacto tribal", alertou ele.

Joshi, no entanto, acredita que Kadafi mantenha ainda forças significativas. Ele deve continuar a controlar a força aérea, embora alguns elementos tenham desertado. E embora tenha havido confrontos em Trípoli – com atiradores e fogo de armas de baixo calibre em zonas da capital – seus soldados, forças de segurança e policiais à paisana estão por toda a parte. Muitos parecem ter mais medo de Kadafi do que estarem prontos para comemorar sua saída.

Embora o coronel possa muitas vezes soar delirante quando fala em público, ele e seus comandantes têm se revelado capazes de usar sua força com um certo cuidado, disse Joshi. "Não houve grandes massacres, o poder aéreo está sendo usado de maneira calculada e ele está lançando ataques de sondagem, enquanto faz esforços constantes nos arredores de Trípoli para verificar pequenos gestos de dissidência”.

A luta na Líbia "pode durar um longo tempo", disse ele. "Tripoli não é um bunker. E não se trata de uma decisão de um homem totalmente fora de contato com a realidade".

*Por Steven Erlanger

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