Mesmo sob repressão, Bahrein ainda enfrenta instabilidade

País é pedra angular da contrarrevolução que tenta conter mudanças no mundo árabe, mas muitos temem que opressão aumente violência

The New York Times |

Entre as revoltas que agitaram o Oriente Médio em 2011, derrubando ou colocando líderes em perigo, o Bahrein, reino antes conhecido por suas pérolas e bancos, emergiu como a pedra angular de uma contrarrevolução que visa estancar as demandas por democracia.

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Praça Pérola, que concentrava protestos antigoverno em Manama, no Bahrein, é vista vazia (20/08)

Enquanto o tumulto em outras partes se provou imprevisível – a ascensão dos islâmicos no Egito, a ameaça de guerra civil na Síria e a perspectiva de anarquia no Iêmen – o Bahrein sugere que a alternativa, um levante fracassado pela repressão, pode não ser menos perigosa.

Cinco meses após o início de uma repressão feroz contra um levante popular, a tensão sectária explodiu, a crise econômica se aprofundou e a vontade dos Estados Unidos de olhar para o outro lado deu a Washington a imagem de uma capital hipócrita.

"A situação é um barril de pólvora e qualquer coisa pode fazê-la explodir a qualquer momento", disse Ali Salman, secretário-geral da Al Wefaq, maior grupo de oposição legal do Bahrein.

"Se não conseguirmos trazer a democracia para este país, então o nosso país irá caminhar para a violência. Será em um ano ou dois anos? Não sei. Mas essa é a realidade."

Durante décadas, a abertura relativa e a desigualdade entrincheirada do Bahrein o tornaram um dos países mais agitados do mundo árabe, conforme a maioria xiita de cerca de 70% da população buscava mais direitos de uma monarquia sunita.

Mas fevereiro representou um novo capítulo na luta, quando revoltas do Egito e Tunísia chegaram ao Bahrein e, depois de confrontos sangrentos, os manifestantes permaneceram por semanas na Praça Pérola.

A repressão que se seguiu foi cruel: os grupos de direitos humanos dizem que os confrontos deixaram 34 mortos e mais de 1,4 mil presos. Até 3,6 mil foram demitidos de seus empregos e quatro pessoas morreram sob custódia depois de serem torturadas, no que o grupo Human Rights Watch chamou de "forma sistemática de repressão abrangente para punir e intimidar os críticos do governo e acabar com a dissidência pela raiz”.

Apoiado pela intervenção armada da Arábia Saudita, o rei Hamad bin Isa Al Khalifa declarou a lei marcial em março, e embora ela tenha sido revogada no dia 1º de junho, a repressão ainda ecoa em toda a ilha.

O mais perigoso, porém, é a exacerbação do ódio sectário. Ninguém afirma que sunitas e xiitas já viveram em harmonia aqui, mas o país permanece como um exemplo da maneira como distinções veneráveis de seita, etnia e história podem ser manipuladas no mundo árabe, muitas vezes cinicamente, em busca do poder.

Por Anthony Shadid

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