Mesmo longe do centro da destruição, cenário impressiona no Japão

Moradores da cidade de Nakaminato, distante da área mais afetada, avaliam estragos causados pelo terremoto seguido de tsunami

The New York Times |

Takakao Koguchi completou 78 anos na quinta-feira. Na sexta-feira, horas antes de sua festa de aniversário, ela viu uma onda de água negra tomar as ruas da pequena cidade pesqueira de Nakaminato, no Japão.

A onda seguia em direção a ela. Apenas 15 minutos tinham se passado desde que um devastador terremoto tinha sacudido Nakaminato e uma longa faixa da costa nordeste do país.

Ela correu até seu carro e conseguiu escapar antes da água cheia de destroços danificar uma das paredes de sua pequena pousada e deixar um rastro de destruição.

NYT
Takako Koguchi limpa sua pousada após passagem de tsunami por Nakaminato, no Japão

No sábado, as ruas estavam cobertas de uma lama marrom e grudenta e cheirando aos peixes mortos que foram arrastados pelas ondas.Takakao passou a noite fria em um centro comunitário, mas no sábado, assim que foi possível, voltou para sua casa. Ela não tinha comido nada em um período de 24 horas.

“As pessoas costumavam dizer que minha pousada era linda”, afirmou, enquanto tentava tirar o lodo e os peixes do chão da casa. “Veja como ela está agora. É desanimador.”

Horas depois de o mais forte terremoto da história do Japão atingir a costa nordeste, os moradores de Nakaminato continuavam em alerta. Eles passaram a noite sem eletricidade, água potável ou telefone, enquanto dezenas de réplicas do tremor atingiam a região. No domingo, eles faziam fila para abastecer veículos e comprar comida nos poucos postos de gasolina e supermercados abertos.

As cenas de destruição na cidade são especialmente assustadoras porque ela está longe das principais áreas atingidas. Nakaminato está na extremidade sul da região mais afetada pelo tremor seguido de tsunami, que devastou vilas inteiras mais ao norte da costa. Nakaminato está a cerca de 250 quilômetros de Sendai, a cidade mais próxima do epicentro do terremoto.

Antes do tremor e das ondas, Nakaminato era uma espécie de cidade adormecida, deixada para trás pelo crescimento industrial do país nas últimas décadas. Os moradores – muitos deles idosos deixados por filhos seduzidos pela vida urbana – ganhavam a vida principalmente com a pescaria. O coração da cidade era uma cooperativa de pescadores à beira-mar.

No sábado, os moradores de Nakaminato foram cercados por sinais de que o que lhes servia de sustento estava em frangalhos. Freezers gigantes da cooperativa foram empilhados em frente a uma parede para onde foram levados pelas ondas, e que ficava muito longe de onde estavam localizados anteriormente. O ar cheirava a peixe estragado. Quarenta e dois barcos pesqueiros, virados para todas as direções, eram vistos em cima de um cais de concreto.

Os peixes estavam por toda parte, com a boca aberta.

Yukinao Nemoto, 34 anos, motorista de uma empilhadeira, foi ao cais no sábado e parecia tentar absorver o caos à sua volta. Ele disse que estava carregando um barco na tarde de sexta-feira quando percebeu que a base da empilhadeira estava raspando no chão. Ele demorou um tempo para entender que a terra estava tremendo: a empilhadeira tinha chegado ao chão porque todo o solo embaixo dela tinha afundado oito centímetros.

Yukinao olhou para o mar e viu ondas chegando ao litoral em ritmo acelerado. Ele saltou da empilhadeira e correu para uma colina próxima, escapando por pouco. “Simplesmente larguei tudo e corri”, contou.
Não está claro se a água que atingiu a cidade ultrapassou o paredão construído para barrá-la, ou se entrou por uma passagem usada pelos barcos pesqueiros todos os dias.

'Não conseguia ficar em pé'

Yukio Kobayashi disse que estava em sua plantação de cebola quando sentiu os primeiros tremores. “Não conseguia ficar em pé. Tive que deixar o campo engatinhando”, contou, jogando-se ao chão para mostrar o movimento. “E então eu vi o tsunami. Eu podia vê-lo.”

Ele passou a noite com cerca de outros cem moradores no ginásio de uma escola da cidade, em meio à escuridão e ao frio, ouvindo o rádio em busca de informações. De sua casa, Yukio levou apenas um gerador de energia e um aquecedor de querosene, que segundo ele eram as únicas fontes de aquecimento para as pessoas amontoadas no ginásio. Ninguém dormiu, e as réplicas do tremor deixavam todos em alerta.

No sábado, sua plantação estava coberta por lama. Até então, Yukio nunca tinha visto um tsunami. “Essa é a primeira vez em mais de 70 anos que algo assim acontece”, afirmou.

Em outra parte de Nakaminato, Hiromi e Kiko Ogawa estavam em seu restaurante, limpando a lama e tirando os destroços que encheram o local. Quando sentiram o tremor, os dois imediatamente fugiram em um de seus dois carros.

Um dia depois, o restaurante cheirava a água do mar e sujeira. O enorme freezer onde guardavam comida, que ficava fora do restaurante, desapareceu. O outro carro estava no topo de uma pilha de pedaços de madeira.

Segundo eles, vai levar muito tempo para o restaurante reabrir.

Chiyako Ito disse que estava em sua casa quando o tremor começou. O terremoto foi tão forte que Chiyako, uma produtora de arroz de 72 anos, caiu de joelhos. Conforme o abalo foi diminuindo, ela correu para fora de casa, mas foi levada ao chão novamente por uma réplica.

Deitada no chão, ela viu o celeiro cair em cima de um trator e dois carros, amassando-os. Mas o pior ainda estava por vir: as águas do tsunami varreram o rio próximo à sua fazenda, perdendo força a apenas alguns metros de sua casa. “Fiquei paralisada de tanto medo”, contou.

No sábado, enquanto andava por vidros, xícaras e pratos quebrados em sua casa, ela disse que se sentia indefesa. “Não tenho eletricidade, água encanada e telefone”, afirmou. “Não tenho ideia do que está acontecendo”.

“Meu coração ainda não se acalmou”, acrescentou. “Tenho medo que aconteça de novo.”

Por Martin Fackler

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