Mesmo em um mau momento, a GM prevê um bom futuro

A General Motors sugou o sangue de seus consumidores por décadas. Durante os últimos 30 anos, ela perdeu quase 1% da fatia de mercado a cada ano, vendeu 45% de seus novos veículos nos EUA em 1980, 35% em 1990, 28% em 2000 e, até agora, vendeu 19% neste ano.

The New York Times |

Então, imagine que alguém peça para você fazer uma previsão conservadora sobre a fatia de mercado da GM em relação a daqui a cinco anos. O que você diria? Foi precisamente o que foi perguntado aos executivos da GM enquanto organizavam o plano de reestruturação para convencer a Casa Branca a salvar a companhia da falência.

A resposta deles foi 19%.

Isso mesmo: com a companhia buscando uma concordata de falência no tribunal, sua força de trabalho teve um corte de 21 mil empregos e suas decisões agora estão sujeitas à aprovação de Washington. Os executivos da GM previram que a empresa de repente poderia se tornar melhor em explorar seus clientes.

Esse pequeno triunfo da esperança sobre a experiência ¿ e o fato de que a administração Obama ainda aprova o plano de reestruturação ¿ leva diretamente à grande razão para se preocupar com o pacote de resgate da GM. A Casa Branca não tinha uma boa opção a não ser resgatar a montadora. Mas se o pacote terá sucesso em criar uma empresa menor e saudável, seus executivos e a fiscalização do novo governo precisam ser realistas quanto aos problemas da companhia.

Eles não podem continuar insistindo em que já deram a volta por cima ¿ o Cadillac CTS foi o Motor Trend Car do ano de 2008! ¿ e que o público americano acabará sendo esperto o bastante para percebê-lo.

De fato, o pacote resolverá diversos grandes problemas da GM. Os trabalhadores aceitam cortes dolorosos em troca de seus benefícios da aposentadoria. Os acionistas perdoaram dívidas. As regras rigorosas de trabalho que enfraquecia a produtividade e criatividade foram retiradas. A administração de Obama está se preparando para refazer o quadro de diretores.

Todos esses passos deveriam ajudar a companhia a focalizar na produção de carros que pessoas suficientes queiram comprar. Mas a GM ainda não explico como conseguirá fazê-lo. E o otimismo não é considerado uma estratégia.

Seria mais fácil acreditar que a GM alcançou um ponto de virada se já não tivéssemos ouvido as mesmas informações tantas vezes.

Detroit resiste, informou a Forbes, em 1977. A GM caminha para uma nova era, anunciou o Business Week, em 1984. Mesmo no ano passado, a revista imprimiu uma fotografia de Rick Wagoner, chefe-executivo, próximo à manchete Senhores, comecem a mudar de direção.

Ao menos, certas vezes a mídia injetou algumas informações de ceticismo, mas os executivos da GM geralmente não o fazem.

Eles são uma versão de ironia gratuita daqueles fãs do Brooklyn Dodger, constantemente dizendo, espere até o ano que vem.

Mas esse ano nunca chega porque os carros da GM não são tão bons. Se você já experimentou a alegria de seu carro alugado ser um Toyota Corolla ao invés de um Chevrolet Impala, você sabe do que estou falando. Os dados também mostram que isso é verdade. Pesquisas mostram que os carros da GM quebram com mais facilidade do que os carros japoneses.

O último julgamento, claro, vem do mercado. Como o de Susan Helper, uma economista da Universidade Case Western Reserve, aponta que os carros de Detroit são consistentemente precificados em US$ 2 mil a US$ 3 mil abaixo do custo de seus pares japoneses, e que, apesar disso, continuam a perder espaço no mercado.

O mais preocupante é que muitos compradores de carros com seus 20 ou 30 anos nem levam em conta comprar um carro americano. E esses jovens compradores estão substituindo de forma eficiente os clientes leais da Chevrolet, Ford, Chrysler com seus 60 e 70 anos, diz a análise de John Wolkonowicz. Essa é a razão pela qual a fatia de mercado de Detroit não para de cair.

O analista e seus colegas da IHS Global Insight, empresa de pesquisa, observaram a concordata de falência preenchida, nesta semana, e tiveram suas próprias projeções. Eles previram que a fatia de mercado cairia para 17%, em 2014, (sem contar uma diferença de poucos décimos, a GM previu uma pequena queda para 18,5%, em 2014, dos mais de 19% atuais). A Global Insight também acha que a indústria de vendas se recuperará mais lentamente do que a GM.

A referência resultante é significativa. A Global Insight espera que a GM venda 20% a menos de carros do que a companhia espera, tanto neste ano quanto no próximo.

Apesar disso, é surpreendente o bastante a maneira como conseguimos algumas razões verdadeiras para o otimismo. Mesmo sob a lição de uma previsão menos favorável, a GM ainda deve ter lucros, de acordo com a Global Insight. A previsão interna da administração de Obama é ainda mais conservadora, e a companhia ainda começaria a ganhar dinheiro em apenas dois anos.

Por quê? Os cortes que a administração exigiu da companhia são grandes o suficiente para fornecer-lhe algum balanceamento de capacidade.

Esses cortes têm o potencial de fazer mais do que apenas reduzir custos. Eles querem tornar mais fácil para a companhia focalizar suas marcas que ainda existem. Ela será um pouco mais parecida com a Honda e um pouco menos com a antiga companhia.

Seus executivos se referem a isso como a abordagem do quanto menos, melhor, e um exemplo brilhante é o Chevrolet Malibu. Em 1980, Malibu era uma espécie de sedan. Apesar disso, em 2007, a GM vendeu apenas 33 Malibus para cada 100 Accords que a Honda vendeu, de acordo com a Autodata. Então houve um redesenho que tornou o Malibu mais suave e mais confortável. Para cada 100 Accords vendidos neste ano, foram vendidos 59 Malibus.

Agora alguns céticos duvidam que esses números alcancem muita coisa. Eles dizem que a GM é fundamentalmente uma companhia quebrada, que continuará seu rumo em direção a irrelevâncias. E eles podem estar certos.

Mas agora que o governo é dono da maior parte da companhia, ele também deve tentar torná-la viável.

É claro que isso não quer dizer um micro gerenciamento ¿ como, usando um exemplo relevante, produzir carros econômicos mesmo que os consumidores não queiram comprá-los. Isso também não significa deixar os executivos da GM operar com uma mão livre.

A julgar por suas últimas previsões otimistas, eles ainda não entenderam a situação. A maioria dos carros não é confiável ou atraente o suficiente. Esse ¿ não os compradores de carros que também estão demorando em perceber quando encontram algo bom ¿ continua sendo o grande problema.

Na manhã desta segunda-feira, após a GM pedir a concordata, Fritz Henderson, seu chefe-executivo, participou de uma coletiva de imprensa em Nova York. Hoje, disse ele, marca o começo do que será uma nova companhia, uma nova GM, dedicada a construir os melhores carros e caminhões.

Parecia como algo que você deve ter lido em um desses artigos de revista otimistas, de 1979 ou 1989 ou 1999. Apesar disso, aqueles dentre nós que fazem parte do novo grupo de donos majoritários da marca GM ¿ os contribuintes ¿ devem esperar que Henderson esteja certo.

Também temos de esperar que a administração de Obama obrigue tanto ele quanto seus colegas a serem realistas.


Por DAVID LEONHARDT


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