Mensagens de ex-rapper contra Ocidente alarmam autoridades alemãs

Cuspert, que já fez turnês com cantores como DMX, hoje faz vídeos que incitam o ódio aos EUA e ataques terroristas

The NewYork Times |

O homem que as autoridades de segurança alemãs chamam de um grande risco parece uma figura saída de um vídeo de rap, principalmente por causa das tatuagens em suas mãos. Na direita, as letras "STR8" (reto, em tradução livre) e na esquerda "Thug" (bandido, em tradução livre).

"Estas tatuagens são dos dias em que eu vivia a vida de um descrente", disse Denis Mamadou Cuspert, ao cerrar os punhos e olhar para as tatuagens. "Alá vai apagá-las de mim um dia."

Cuspert, antes um famoso cantor de rap da Alemanha, é hoje um dos mais conhecidos intérpretes de nasheeds, a música sacra islâmica, em alemão. As autoridades de segurança dizem, no entanto, que ele é uma figura influente que incita a violência e a agitação através de vídeos e discursos inflamados que encorajam terroristas a atacar o Ocidente.

NYT
Oficiais alemães garantem que Denis Mamadou Cuspert, que já foi um rapper chamado Deso Dogg, é um risco para a segurança nacional
Segundo os oficiais, pessoas como ele inspiraram o ataque a dois pilotos americanos no aeroporto de Frankfurt, em março. Arid Uka, 21 anos, acusado dos assassinatos, cujo julgamento começou em Frankfurt na quarta-feira passada, disse que abriu fogo contra um ônibus cheio de membros do serviço americano depois de ver um vídeo que mostrava mulheres muçulmanas sendo estupradas por homens em uniformes militares dos Estados Unidos. As autoridades americanas disseram que o vídeo – que Cuspert, 35, reconheceu ter publicado em sua página no Facebook e que Uka copiou – foi encenada por insurgentes.

Uka disse que estava ouvindo em seu iPod canções nasheeds que pediam oposição contra as forças de ocupação e do Ocidente, enquanto seguia para o aeroporto, pouco antes do tiroteio.

"A música fez com que eu sentisse raiva", Uka disse ao juiz na quarta-feira, referindo-se às letras das músicas.

Durante uma confissão chorosa, ele disse que o Islã havia lhe dado força após um período de depressão, mas que agora ele percebeu que danificou a sua fé.

Investigadores de terrorismo alemães veem Cuspert como uma ameaça, que provoca os jovens irritados. Alguns até mesmo o comparam a Anwar al-Awlaki, o pregador nascido nos Estados Unidos e que agora se esconde no Iêmen, também acusado de promover a violência por meio de palestras e vídeos.

"Depois de estabelecer a conexão através da música ele apresenta a ideologia radical para uma plateia já receptiva", disse Raphael F. Perl, que dirige a unidade antiterrorismo da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa.

Em entrevista concedida em uma mesquita local, Cuspert negou qualquer conexão direta com Uka, apesar de ter dito que apoiava suas ações.

"O irmão não matou civis", disse ele. "Ele matou os soldados que estavam a caminho de matar muçulmanos".

Essa é uma mensagem semelhante àquela divulgada em seus vídeos publicados no YouTube e sites jihadistas que fizeram Cuspert se tornar popular entre os partidários da Al-Qaeda principalmente na Europa. Como prova de seu alcance, um homem que atende pelo nome de "Abu Bilal" nas áreas tribais da fronteira entre Afeganistão e Paquistão, falou sobre Cuspert. "A voz do irmão atingiu o coração de muitas pessoas aqui também."

Cuspert faz discursos em toda a Alemanha e os jovens são atraídos por sua história pessoal, incluindo sua participação em gangues de rua de Berlim – ele disse que costumava ser um "menino muito ruim" – e a noção de que ele finalmente encontrou o “caminho” certo.

O músico diz que a sharia, o código legal do Islã baseado no Alcorão, permite a auto-defesa. "Meu dever é usar minha voz para dizer às pessoas a verdade, e a verdade é que a jihad é um dever", disse ele.

As autoridades de segurança dizem que os jovens que estão clicando em seus vídeos não percebem que o que eles estão ouvindo foi inspirado por uma teologia radical jihadista baseada no ramo Salafi fundamentalista do Islã.

No final de junho, Cuspert gravou uma canção nasheed que elogiava o ex-líder da Al-Qaeda, Osama bin Laden. "Seu nome corre no nosso sangue", ele canta.

"Eu jurei lealdade ao Mulá Muhammad Omar, emir do Taleban", disse ele na entrevista, sorrindo. "Ele é um dos grandes homens."

Em seus discursos, Cuspert expressou indignação com ataques realizados por aeronaves americanas em áreas tribais do Paquistão, Iêmen e Somália, e afirmou que seu desejo maior agora é a morte do presidente Barack Obama, que ele disse ser um inimigo do Islã.

Suspeitando que Cuspert estava planejando se juntar aos seus amigos no Paquistão, as autoridades alemãs em julho exigiram que ele entregasse seu passaporte. "Eu lhes disse que o perdi", disse ele.
Até agora as autoridades dizem que não tiveram provas suficientes para prendê-lo por seus discursos, mas eles estão tentando colocá-lo atrás das grades por crimes que ele teria cometido durante sua vida pregressa, como rapper.

Em 18 de agosto, Cuspert foi julgado por porte ilegal de armas. Os promotores disseram que ele mostrava uma arma em um vídeo e que a polícia encontrou cartuchos de munição durante uma busca em seu apartamento. As autoridades de segurança alemãs afirmam querer prender Cuspert e parar a sua "propaganda de vídeo para a jihad." O juiz condenou Cuspert, mas poupou-lhe uma pena de prisão, ordenando o pagamento de uma multa de 1.800 euros, cerca de US$ 2.600.

Antes de assumir seu novo nome, Abou Maleeq, Cuspert tinha outra vida. Ele nasceu e foi criado em Berlim por sua mãe alemã. Seu pai, que era de Gana, deixou a família quando Cuspert era um bebê. Quando os conflitos com seu padrasto, um ex-soldado do Exército americano disciplinador e rigoroso, aumentaram, Cuspert foi enviado para um lar para crianças. Após cinco anos, ele voltou para casa.
"Eu cresci com o racismo", disse Cuspert. "Apesar da minha mãe ser alemã, alguns professores naquela época me chamavam de 'negro' e tratavam mau todas as crianças muçulmanas."

Sua posição contrária à política externa dos Estados Unidos aumentou em 1990, nos meses que antecederam a primeira guerra do Golfo Pérsico, que o fez participar de manifestações em Berlim.
"Nós marchamos, gritamos e queimamos a bandeira americana", disse ele, sorrindo.
A invasão do Iraque em 2003 tornou-se uma fonte de novos conflitos com o padrasto. Ele entrou para gangues de jovens, porque, segundo ele, estava em busca de uma identidade e encontrou nas ruas de Berlim, com os filhos de imigrantes, árabes e turcos.

Ele disse que desde cedo pratica o boxe tailandês, taekwondo e jiu jitsu. Assistentes sociais na Alemanha o enviaram para uma fazenda especial na Namíbia, que procura reabilitar delinquentes juvenis.
Em 1995, ele encontrou um novo mercado para a sua raiva: como o rapper “Deso Dogg". Ele disse: "Minhas canções eram sobre o tempo na prisão, racismo, guerra."

Sua carreira musical decolou. Ele fez turnê com rappers como DMX e trabalhou na trilha sonora de um filme alemão. Mas depois de sobreviver a um acidente de carro, ele começou a questionar seu estilo de vida e se virou para o Islã em busca de respostas. Em 2010, ele encerrou sua carreira como rapper e voltou seu foco para o combate dos Estados Unidos e do Ocidente.

A mensagem deixada por ele na caixa postal de seu celular não faz segredo sobre seu objetivo final na vida. "O martírio é o que há de mais bonito", diz ele em sua gravação. "Alá é o maior."

*Por Souad Mekhennet

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