Menino vítima de mina terrestre comove Israel

Após mobilização de garoto de 11 anos, surge movimento para remover parte das 260 mil minas existentes nas fronteiras do país

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Israelense Daniel Yuval, de 11 anos, no Parlamento em 10/05/2010. Ferido por mina terrestre, ele pede que país remova artefatos para evitar que mais pessoas sejam feridas
Em seu ano de intercâmbio em 1984, o americano Jerry White, aluno da Universidade Brown, pisou em uma mina terrestre enquanto caminhava com amigos nas Colinas do Golan. A explosão arrancou parte de sua perna direita e quase o matou.

O acidente também definiu o curso de sua vida - levando-o a fundar a instituição atualmente conhecida como Survivor Corps (Corporação Sobrevivente, em tradução livre), que persuadiu dezenas de países a remover minas terrestres e a proibir sua produção e utilização. O grupo recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 1997.

Mas Israel não se encontra entre esses países. Oficialmente em guerra com dois de seus vizinhos e em busca de se proteger contra invasões de todos os lados, esse país acredita que suas fronteiras minadas têm servido à sua segurança e ao interesse nacionais.

"Sempre recebemos a mesma resposta aqui", disse White, que continua a visitar e fazer lobby em Israel. "Eles dizem, 'Não podemos dialogar com os nossos vizinhos sobre as minas terrestres a menos que seja como parte de um tratado de armas. Precisamos das minas terrestres para prevenir o terrorismo'."

Mas, em fevereiro, o cenário mudou. Daniel Yuval, um precoce menino de 11 anos, passeava pela região do Golan em um campo no qual outras famílias brincavam de jogar bolas de neve. Ele pisou em uma mina que arrancou sua perna direita abaixo do joelho e atirou estilhaços contra sua irmã de 12 anos, Amit.

Ao longo dos anos, outros foram feridos pelas minas terrestres. Mas, no início desta semana, Daniel, equipado com uma prótese, entrou no Parlamento em Jerusalém com sua família e outras vítimas para dizer a um comitê ali reunido que chegou a hora de Israel remover suas minas terrestres.

"Quando acordei da operação no hospital e vi que minha perna direita tinha sido amputada, disse à minha mãe que não queria que mais ninguém fosse ferido pelas minas terrestres e pretendia fazer algo a respeito", disse em uma declaração.

Daniel não reclamou de seu destino, tampouco culpou alguém por seu sofrimento. Em vez disso,  começou a trabalhar, dizendo ao primeiro-ministro Benjamin Netanyahu por telefone e a uma série de outros funcionários de alto escalão pessoalmente que a política de Israel precisa mudar.

Pela primeira vez no país, isso pode realmente acontecer. No Parlamento de 120 cadeiras, 73 membros copatrocinaram uma lei que busca estabelecer uma autoridade nacional para a remoção de minas "que não são necessárias para fins de segurança". O projeto de lei precisa de três leituras no próximo mês e apoio do governo, que ainda não se posicionou.

O fato de o Hamas, em Gaza, e o Hezbollah, no sul do Líbano, ocasionalmente usarem minas terrestres recentemente pode representar um problema.

Mas aqueles que acompanham a questão em Israel dizem sentir um grande ímpeto de ação, afirmando que a maior parte das 260 mil minas existentes nas fronteiras - algumas de guerras de décadas atrás, outras colocadas ali por inimigos - pode finalmente passar por um processo de remoção que deve levar entre 5 e 10 anos, com um custo de cerca de US$ 60 milhões.

A mudança acontece conforme 68 senadores americanos têm incentivado o presidente Barack Obama a considerar a assinatura do tratado internacional que proíbe minas terrestres.

Nem os Estados Unidos nem Israel usam essas minas atualmente, dizem analistas, mas, assim como China, Índia, Rússia e grande parte do Oriente Médio, eles têm se recusado a assinar o tratado para eliminar as minas existentes.

Tzachi Hanegbi, membro do partido de oposição Kadima e presidente da comissão parlamentar de defesa e assuntos externos, assumiu a causa dizendo que até White falar com ele pessoalmente a questão nem sequer havia sido levantada.

"Sou membro do Knesset há 22 anos e nem imaginava o problema ou o fato de que existe um tratado da Organização das Nações Unidas assinado por 158 países contra o uso de minas terrestres", disse. "Como muitos em Israel, sinto-me triste e humilhado que tenha levado tanto tempo para sabermos disso."

Na reunião do comitê liderada por Hanegbi nesta semana, Daniel Yuval sentou-se a seu lado na cabeceira da mesa. "Muito obrigado, Daniel, por nos ajudar a entrar na família das nações", disse Einat Wilf, Parlamentar do Partido Trabalhista.

Tzipi Livni, líder da oposição, acrescentou: "Daniel, você pagou caro mas está comovendo está sociedade para que faça a coisa certa."

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Soldados israelenses se refrescam em local de batismo cercado por campos minados em Qaser El Yahud (12/05/2010)
Para White, o que aconteceu aqui nos últimos meses é uma grande conquista. Ele trouxe Diana, a Princesa de Gales, para sua causa na década de 1990 e, mais tarde, a Rainha Noor da Jordânia, mostrando que compreende a importância de personalidades e o poder da fama. "O que Diana simbolizava internacionalmente para o combate às minas terrestres, Daniel simboliza para Israel", afirmou.

Como resultado do interesse da Rainha Noor e de outros membros da família real da Jordânia, o país decidiu remover as minas terrestres de suas fronteiras, principalmente a maior, dividida com Israel - removendo cerca de 58 mil artefatos.

Na fronteira entre a Jordânia, Israel e os territórios ocupados da Cisjordânia, ao longo do Rio Jordão, onde se acredita que Jesus tenha sido batizado, peregrinos e turistas de Israel têm de atravessar por uma área cercada de minas terrestres e vigiada por soldados.

Um dos temas que Netanyahu tem frequentemente mencionado como fonte de uma futura cooperação entre os Estados de Israel, Jordânia e um futuro Estado palestino é a peregrinação cristã. A remoção das minas do local de batismo de Cristo ajudaria, reconhecem os oficiais israelenses. White também reconhece que a remoção conjunta das minas terrestres ao longo do Golan seria um projeto para um futuro tratado de paz entre israelenses e sírios.

*Por Ethan Bronner

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