Meninas adolescentes defendem homens violentos

NOVA YORK - No corredor da Academia Hostos-Lincoln no Bronx esta semana, duas meninas da nona série falavam sobre o cantor Chris Brown, 19, que enfrenta duas acusações por supostamente ter agredido sua namorada, a cantora Rihanna, 21. No começo nenhuma das meninas acreditava que Brown, um cantor talentoso, pudesse fazer aquilo. Eu achava que ela estava mentindo ou que os tablóides tinham inventado essa história, disse uma das meninas.

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Rihanna e Chris Brown em apresentação anterior ao escândalo

Rihanna e Chris Brown em apresentação anterior ao escândalo

Mesmo depois da foto de Rihanna com o rosto machucado chegar à internet, elas ainda defendiam Brown. "Ela provavelmente o irritou tanto que ele apenas reagiu", disse a outra estudante. "Sabe como é? Provocou."

As meninas concordam que Brown teve uma reação excessiva. De acordo com documentos legais, a briga do mês passado começou depois que Rihanna leu uma mensagem de texto enviada a Brown por outra mulher. Então Brown bateu, mordeu e enforcou a cantora.

Ele deve ser punido? Não, dizem as garotas, cujos nomes não serão revelados a pedido de sua escola. Afinal de contas, elas dizem, Rihanna parece ter se reconciliado com ele.

"Ele não deveria ter problemas se ela não acha que ele tem que pagar", disse uma menina. "Ela provavelmente sente que foi sua culpa, então o aceitou de volta". Sua amiga concorda. "Eu não acho que ele irá bater nela deste jeito de novo", ela disse.

Em blogs e sites de relacionamento, adolescentes têm disputado opiniões a respeito deste altamente divulgado episódio - talvez pela primeira vez sua geração tenha que lidar com a violência entre casais.

O que pode ser surpreendente é a quantidade de meninas que defendem Brown. Enquanto milhares de adolescentes abandonaram o cantor, muitos outros (de qualquer raça e sexo) o defendem, geralmente às custas de Rihanna.

Em uma pesquisa recente feita com 200 adolescentes pela Comissão de Saúde Pública de Boston, 46% disseram que Rihanna foi a culpada pelo que aconteceu, 52% disseram que a culpa foi de ambos, apesar de saber que os ferimentos de Rihanna precisaram de atendimento médico. Em uma discussão no Facebook, uma menina escreveu: "ela provavelmente bateu em uma parede e ficou com vergonha por isso culpou Chris".

Esta reação assusta pais e profissionais que trabalham com adolescentes, além de fazer com que Oprah Winfrey falasse sobre a violência em relacionamentos adolescentes em seu programa. Meninos que apoiam o comportamento de Brown decepcionam, mas não chocam, disse Marcyliena Morgan, diretora executiva do arquivo de hip-hop de Harvard. "Mas as meninas! O que nós fizemos de errado?", ela disse.

Debaixo da demonstração de julgamento, as meninas adolescentes parecem perplexas com o desenvolvimento da história, que prejudica sua fidelidade às celebridades, suas fantasias de relacionamentos românticos e os terríveis mistérios da violência íntima (a selvageria da agressão bem como a rapidez com que Rihanna aparentemente concordou em vê-lo novamente).

Certamente desde o início garotos e garotas acusaram Chris Brown online, demonstrando simpatia pela princesa pop, RiRi. Mas quando a cantora aparentemente voltou para Brown, seus fãs se voltaram contra ela. "QUE VERGONHA RIHANNA!!!", escreveu uma menina.

Brian O'Connor, do Fundo de Prevenção à Violência, disse que porque os adolescentes veem tudo como absoluto, eles lutam para entender a complexidade dos motivos pelos quais uma mulher volta ao homem que abusou dela. "Há amor e lealdade ali", ele disse. "Ela não quer que o relacionamento acabe. Ela quer que a violência termine".

Mesmo fazer com que esta geração de meninas adolescentes veja a violência como um abuso parece um desafio. Tricia Rose, que ensina cultura afro-americana na Universidade de Brown, disse que os cantores e seus jovens fãs fazem parte de uma geração que cresceu envolta no hip-hop comercial, que foi influenciado pelo tom agressivo demonstrado nos comentários dos adolescentes. O apoio a Brown por muitos artistas também gerou uma certa fidelidade entre seus fãs.

"Este é o ar que hip-hop respira", disse Rose, autora de "The Hip Hop Wars" (Guerra do Hip-Hop, em tradução livre). "A comemoração do estereótipo da masculinidade agressiva e física que geralmente justifica a resolução de conflitos através da violência. Isso não justifica, mas não pode ser ignorado". Além disso, as meninas adolescentes não devem apoiar Rihanna porque ela é mulher, dizem especialista em cultura jovem. Elas veem a si mesmas com a mesma responsabilidade que os meninos. Igualdade é o nome do jogo, e não irmandade.

Por JAN HOFFMAN

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