Memórias secretas mostram um raro olhar sobre a política da China

Em maio de 1989, enquanto discutia com rivais de partidos autoritários sobre como lidar com a ocupação da Praça da Paz Celestial por estudantes, o chefe do Partido Comunista da China convocou uma audiência pessoal com Deng Xiaoping, patriarca dos bastidores.

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Livro só é publicado após 20 anos da morte de Zhao

Pediram que o chefe do partido, Zhao Ziyang, fosse à casa de Deng na tarde de 17 de maio, para o que ele pensou ser uma conversa particular. Para sua surpresa, ao chegar, ele descobriu que Deng havia reunido diversos membros-chave de Politburo (comitê executivo de numerosos partidos), incluindo adversários de Zhao.

 Eu percebi que as coisas já tinham tomado um rumo ruim, lembrou Zhao em memórias gravada secretamente, que apenas agora veio a público ¿ uma prestação de contas em primeira pessoa sobre crises políticas entre os maiores cargos do Partido Comunista chinês.

Em relação à linguagem corporal impaciente de Deng e aos ataques destrutivos recebidos por ele de seus rivais, Zhao diz nas memórias que agora estão sendo publicadas em forma de livro ser óbvio que Deng já havia decidido rejeitar a proposta de Zhao de diálogo com os estudantes e a imposição da corte marcial.

Gravações

Parece que minha missão na história já chegou ao fim, declarou Zhao conversando com um veterano do partido, mais tarde naquele dia. Eu disse a mim mesmo que não importa o que acontecer, eu não serei o secretário geral que mobilizou os militares para acabar com os estudantes.

Como Zhao havia percebido, ele estava sendo colocado em segundo plano e logo seria difamado para que o partido se dividisse. Limparam-no e o colocaram sob prisão domiciliar até sua morte em 2005.

Mas nesse tempo, de aposentadoria forçada, Zhao acabou gravando, secretamente, suas próprias explicações em 30 fitas cassetes de música que foram levadas para fora do país por ex-assistentes e partidários. As memórias contam sua subida ao poder nacional nos anos 80, suas batalhas com a antiga guarda, sua aliança e conflitos com Deng, enquanto perdia um estilo soviético de controle e ajudava a colocar a China em um caminho de poder econômico dinâmico, ao qual o país chegou hoje.

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Ao centro, Zhao, chefe do Partido Comunista da China, em foto de maio de 89

Obstáculos

Zhao também conta como foi enganado durante sua prolongada liderança estudantil pró-democracia em manifestações a partir das quais ele conseguiu ser pioneiro da abertura econômica chinesa ao mundo e introduzir, inicialmente, forças de mercado em agricultura e indústria ¿ passos que ele diz ter sido impetuosamente confrontados por opositores autoritários e nem sempre completamente apoiado por Deng, líder supremo, que, frequentemente, é creditado por suas políticas orientadas pelo mercado competitivo.

No fim dos anos 70, enquanto chefe do partido na província Sichuan, Zhao começou a desmantelar o estilo maoísta das fazendas coletivas. Deng, que havia há pouco consolidado seu poder após a morte de Mao, o levou para Pequim em 1980, como primeiro-ministro com um mandato de mudanças. Zhao, que como outros líderes chineses tinha pouco treinamento e experiência no mercado econômico, descreve suas batalhas políticas e erros como tentiva de dar mais controle à livre iniciativa.

Em 19 de maio, quase 20 anos após a queda de Zhao, as transcrições editadas começaram a ser publicadas em um livro, Prisioneiro do Estado: A Jornada Secreta do Premiê Zhao Zyiang (Prisioner of the State: The Secret Journal of Premier Zhao Ziyang, título original de Simon e Schuster). Uma edição no idioma chinês está sendo publicada em Hong Kong.

Roderick MacFarguhar, um especialista de Harvard em China e autor da introdução do lançamento, disse que a obra lhe deu uma nova visão sobre o papel central de Zhao no planejamento de estratégias econômicas, incluindo algumas como a promoção do comércio exterior em províncias costeiras, plano o qual ele incentivou Deng a tomar ao invés de seguir outro rumo.

Deng Xiaoping era o chefão, mas no dia-a-dia era Zhao quem realmente arquitetava as reformas, disse MacFarguhar.


Por ERIK ECKHOLM


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