Memorial do 11 de Setembro esconde 'herói' muçulmano

Considerado suspeito de ataque, Mohammad Hamdani morreu enquanto ajudava vítimas, mas é relegado a segundo plano em monumento

The New York Times |

Ele foi enterrado com honras após os ataques de 11 de Setembro pelo Departamento de Policia de Nova York e foi considerado um herói pelo comissário de polícia da cidade. Ele também foi citado no Ato de Patriotismo como um exemplo de muçulmano americano. Keith Ellison, um dos dois muçulmanos do Congresso, chorou durante uma audiência em março enquanto o descreviam como um homem paquistanês-americano do Queens, que havia sido erroneamente suspeito de estar envolvido nos ataques.

Apesar dessa história, Mohammad Salman Hamdani, talvez o mais conhecido muçulmano americano a morrer nos ataques, está longe de ser encontrado na longa lista de nomes de trabalhadores de resgate que chegaram primeiro à cena do desastre no Memorial Nacional do 11 de setembro em Manhattan. Seu nome tampouco pode ser encontrado entre os das vítimas cujos corpos foram encontrados nos destroços da Torre Norte, onde seu corpo foi finalmente achado, em 34 partes.

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O nome de Mohammad Salman Hamdani é visto no memorial em homenagem às vítimas do 11 de Setembro em Nova York, nos EUA

Em vez disso, seu nome aparece por último no painel do memorial das vítimas do World Trade Center, ao lado de um espaço em branco, com os nomes das outras vítimas que não se encaixaram nas rúbricas criadas pelo memorial. Essa seção é para aqueles que tinham apenas uma conexão distante, ou até mesmo nenhuma, com o World Trade Center.

A colocação do nome de Hamdani na lista tem alimentado preocupação e raiva a respeito de como o seu legado foi tratado após o 11 de Setembro, quando, aparentemente devido a suas raízes paquistanesas, sua religião muçulmana e sua formação como bioquímico no Queens College, ele caiu sob suspeita. Seu nome apareceu em um panfleto enviado por fax para delegacias de polícia; manchetes de jornais acabaram tornando seu status como o de uma pessoa procurada para interrogatório.

"Eles não querem que qualquer um com um nome muçulmano seja reconhecido no Marco Zero com tais honras", disse sua mãe, Talat Hamdani, 60, em sua casa em Lake Grove, Long Island, com a voz cheia de dor. "Eles não querem alguém com o nome Mohammad lá em cima."

Para Talat Hamdani, o fato de seu filho não ter sido reconhecido no memorial como um agente de resgate foi a última de uma série de injustiças que ela acredita ter começado com uma batida em sua porta por dois policiais em outubro de 2001. Ela, seu marido e seus outros dois filhos estavam ligando para necrotérios e hospitais tentando localizar o corpo. Mas os policiais queriam fazer perguntas e pediram uma foto dele que estava na geladeira, que mostrava Hamdani, 23, com a mesma idade com qual morreu, em sua formatura da faculdade ao lado de um amigo do Afeganistão.

Foi na mesma época que a imagem de Hamdani como cadete oficial da polícia circulou pelas delegacias de polícia em um panfleto com as palavras escritas à mão "Prender e deter. Notifique o capitão do esquadrão", relatou o New York Times posteriormente. Investigadores visitaram o dentista de Hamdani e confiscaram seus registros dentários.

Apenas em março de 2002, quando a família foi finalmente informada que os restos de Hamdani tinham sido encontrados nos destroços mais de cinco meses antes, a nuvem negra que estava sobre o seu nome foi limpa.

Acabaram descobrindo que sua trajetória era uma clássica história de Nova York. Sua família havia imigrado do Paquistão quando ele tinha pouco mais de um ano, seu pai abriu uma loja de doces, sua mãe se tornou professora do ensino médio e Hamdani frequentou a escola católica Greenpoint, no Brooklyn, até a oitava série.

Ele se tornou um técnico de emergência médica e passou um ano fazendo trabalho voluntário para a MetroCare, uma empresa particular de ambulâncias. Ele era cadete da polícia havia três anos e tinha feito o teste para entrar na academia, mas estava esperando para ver se seria aceito na faculdade de medicina.

Na manhã de 11 de Setembro de 2001, sua família e seus amigos acreditam que Hamdani tenha visto as torres queimando dos trilhos do metrô elevado do Queens, a caminho de seu trabalho em um laboratório de análise de DNA na Universidade de Rockefeller, e descido para ajudar.

"Temos aí um exemplo claro de como podemos tornar o mundo um lugar melhor", disse o prefeito Michael R. Bloomberg como um dos dignitários que apareceram no funeral de Hamdani, realizado com honras pela polícia em uma mesquita em abril de 2002. "Ele tomou uma posição e foi ajudar quando a maioria das pessoas teria ido embora."

Durante anos, Talat Hamdani acreditou que a polícia havia plenamente reconhecido o sacrifício de seu filho. Ela cuidava de seu distintivo de bronze que usava como cadete da polícia que o comissário de polícia, Raymond W. Kelly, lhe dera para dissipar qualquer dúvida sobre quem havia sido seu filho.

Por isso, ficou chocada quando, em 2009, recebeu uma notificação do memorial do 11 de Setembro dizendo que o nome de Hamdani estaria listado entre aqueles com "conexões fracas" com o World Trade Center.

Ela tentou chamar a atenção de políticos e até mesmo escreveu uma carta ao presidente Barack Obama, de quem recebeu uma respeitosa, porém vaga resposta assinada à mão.

A colocação de seu filho na lista tinha caído nas mãos de várias questões burocráticas. Não existe uma seção no memorial para os trabalhadores de resgate ou de primeiros socorros informal, que se acreditava terem ido voluntariamente para as torres para ajudar, mas que ainda não eram membros de uma agência oficial de primeiros socorros.

Grupos organizados por membros da família das vítimas acabaram se contentando com o conceito de "adjacência significativa" para orientar a colocação de nomes, permitindo-lhes colocar os nomes das vítimas próximos aos das pessoas com qual trabalhavam ou que conheciam. O que não funcionou no caso de alguém como Hamdani, que, aparentemente, não conhecia ninguém lá.

"O modelo tem uma falha", disse Tom Roger, membro do conselho da fundação do memorial, que estava profundamente envolvido nessas discussões. "Essa foi a parte triste disso tudo. Se você não era afiliado a um dos grupos que estava na mesa de negociações, ninguém estava representando sua causa. "

Enquanto isso, o Departamento de Polícia não incluiu o nome do Hamdani entre a sua própria lista dos que morreram no ataque porque "ele ainda era um estudante", disse Paul J. Browne, porta-voz do departamento. Um cadete da polícia é o equivalente a um estagiário e não chega a ser um policial de pleno direito ou até mesmo um policial matriculado na academia.

"Mas isso não tira o mérito das ações de Mohammad naquele dia", disse Browne, por e-mail. "Pelo contrário, na verdade ele merece mais mérito ainda - já que não precisava responder aos chamados de ajuda, mas foi mesmo assim, por livre e espontânea vontade."

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Talat Hamdani, a mãe de Mohammad, lamenta a falta de reconhecimento do legado de seu filho

Linda Sarsour, diretora da Associação Árabe-americana da cidade de Nova York, disse que reconhecer Hamdani como um socorrista "seria um grande gesto para dizer à comunidade que nós reconhecemos que tivemos muitos muçulmanos-americanos que arriscaram suas vidas ou perderam suas vidas naquele dia".

Roger, da fundação do memorial, perguntou se o nome de Hamdani não poderia aparecer na seção do Departamento de Polícia do memorial com um asterisco ao lado de seu nome dizendo que ele era um cadete da polícia. A reverenda Chloe Breyer, diretora-executiva do Centro Ecumênico de Nova York, também sugeriu que fosse feito algum tipo de sacrifício nessa questão.

"Isso mostra uma enorme falta de imaginação por parte da polícia de Nova York e faz com que o museu não consiga pensar em uma maneira de reconhecer adequadamente o sacrifício especial que ele fez e o quanto sua mãe sofre diariamente", disse ela em um e-mail.

Talat Hamdani, que deu início a uma bolsa de estudos da faculdade do Queens em nome de seu filho, ainda não tem certeza do quanto quer insistir na questão. No final das contas, ela está orgulhosa dele.

"Todos aqui são iguais, não importa aonde estejam enterrados, se seu nome está na lista ou não", Talat Hamdani lembra ter dito ao se deparar perante o nome de seu filho no memorial, no 10 º aniversário dos ataques. "O mundo lembrará de você por seus atos."

Por Sharon Otterman

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