Membros de ONG americana são impedidos de deixar o Egito

Ação do governo ocorre aparentemente no sentido de investigar criminalmente grupos pró-democracia financiados por estrangeiros

The New York Times |

As autoridades egípcias impediram o filho de um membro do gabinete americano e ao menos cinco outros funcionários de duas ONGs dos EUA de deixar o Egito, no que aparenta ser outra ação do governo do país no sentido de investigar criminalmente grupos que promovem a democracia e que são financiados por estrangeiros.

Leia também:
- Forças de segurança do Egito invadem escritórios de ONGs

- WikiLeaks: EUA financiaram movimentos pró-democracia no Egito

AP
Funcionários da ONG Instituto Nacional Democrático aguardam enquanto autoridades egípcias realizam busca em seu escritório, no Cairo (29/12)

Autoridades do grupo Intituto Internacional Republicano disseram que as autoridades egípcias impediram o chefe responsável por Cairo, Sam LaHood, de pegar um voo no aeroporto há alguns dias. Seu pai é Ray LaHood, o secretário de Transporte e ex-deputado republicano por Illinois.

Funcionários do grupo disseram que, segundo oficiais egípcios, outros quatro, incluindo outros americanos, tinham sido impedidos de viajar para fora do país também.

Membros de uma organização semelhante, o Instituto Nacional Democrático, disse também nesta quinta-feira que seis de seus funcionários foram impedidos de viajar, incluindo três cidadãos americanos. Não ficou claro quantos americanos que trabalham para grupos desse tipo foram proibidos de viajar.

O episódio ocorre em meio a um momento tenso nas relações entre Washington e Cairo. Um ano depois da junta militar ter tomado o poder após a queda do ex-presidente Hosni Mubarak , Washington tem pedido publicamente aos generais que entreguem o poder aos civis o mais rápido possível. Os deputados também começaram a trabalhar para colocar novas condições no envio ao Egito de mais de US$ 1,3 bilhão por ano de ajuda militar em relação à transição democrática, embora o governo Obama não ter demonstrado inclinações para permitir isso.

O Conselho Militar egípcio, em troca, tem sugerido por meses que os EUA podem estar financiando ONGs e grupos humanitários que promovem a democracia com intenção de desestabilizar o Egito, parte de um crescente sentimento anti-ameriano que emana do governo militar. Os generais têm procurado até culpar a violência nas ruas por essa "interferência estrangeira".

O conselho também manteve as leis da Era Mubarak que pedem que qualquer financiamento estrangeiro de organizações sem fins lucrativos egípcias seja enviado primeiro pelo governo, que depois repassa apenas para os grupos licenciados. O governo raramente emite licenças para grupos genuinamente independentes da sociedade civil, garantindo assim que a maioria deles permaneça em um tipo de legalidade obscura e, portanto, vulneráveis a sofrer processos - inclusive os grupos apoiados pelos EUA.

Desde a queda de Mubarak há um ano, o governo americano passou a prover financiamento de maneira mais direta aos grupos egípcios sem passar pelo governo, na expectativa de que a transição política no país significasse uma política mais aberta em relação às organizações da sociedade civil.

Mas há alguns meses, o governo liderado pelos militares iniciou uma investigação formal sobre o investimento estrangeiro nos grupos, e isso resultou recentemente em incursões realizadas por esquadrões da polícia que confiscaram documentos , computadores e dinheiro desses grupos, incluindo o Instituto Internacional Republicano e o Instituto Nacional Democrático. Os institutos possuem fortes laços com líderes do Congresso americano e trabalham para promover a prática da democracia eleitoral em países ao redor do mundo.

Lorne W. Craner, presidente do Instituto Internacional Republicano , expressou preocupação sobre a investigação e a recusa do governo egípcio em cumprir as promessas de por um fim ao caso e devolver os documentos, computadores e dinheiro apreendidos de sua organização e de outras. "Aqui estamos nós depois de todas essas semanas e depois de todas essas garantias e as coisas estão piorando."

As incursões provocaram uma nova onda de críticas do congresso americano e de autoridades do Departamento de Estado dos EUA, incluindo o secretário de Defesa Leon Panetta e o embaixador Anne Patterson, que disseram que receberam a garantia diretamente de membros do conselho militar de que iriam parar de invadir os escritórios e devolver as propriedades confiscadas. Mas as autoridades do governo posteriormente defenderam as incursões como uma parte legítima da investigação e disseram que nada seria devolvido até que a averiguação fosse finalizada.

O presidente Barack Obama também trouxe a questão à tona em uma conversa por telefone com o chefe de Estado ativo do Egito, Hussein Tantawi, informou a Casa Branca em um comunicado recente.

Em uma coletiva marcada no Cairo, Michael Posner, um assistente do secretário de Estado responsável pelas questões de direitos humanos, alertou repetidas vezes na quarta-feira que antes que o Egito consiga receber sua ajuda anual de Washington, o governo deveria certificar ao Congresso que o país está fazendo progressos em direção à democracia.

"É a prerrogativa do Congresso que diz que nossa futura ajuda militar será condicionada a uma transição democrática", disse, acrescentando que a questão da liberdade das associações e as incursões em organizações não-governamentais "é uma parte muito importante do pacote".

Ele acrescentou que, "obviamente, qualquer ação que crie uma tensão com nosso governo faz com que todo o pacote se torne mais difícil".

Ele se negou a comentar especificamente sobre cidadãos americanos que foram impedidos de viajar.

Por David D. Kirkpatrick e Steven Lee Myers

    Leia tudo sobre: egitoongeuaconselho militar

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG