Medo em conflitos na China faz vítimas em ambos os lados

URUMQI ¿ Primeiro a multidão de linchadores foi para cima do menino deficiente da etnia uigur, que trabalhava de engraxate na estreita viela, com facas e pedaços de pau nas mãos. Então, ela se voltou para os dois homens que trabalhavam na mesa de recepção no hotel Light of Dawn.

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Abulimit, direita, com um amigo em Urumqi,
em 8 de julho, um dia após ser atacado

Os homens fugiram para um quarto dos fundos e trancaram a porta de madeira. Ela rapidamente cedeu às dúzias de homens da etnia han que a golpeavam, chutavam e davam socos. Um golpe de faca atingiu a cabeça de Abulimit Asim, e depois mais outro.

Eles queriam nos matar, mas não tinha lugar para fugirmos, disse Abulimit, 23, na quarta-feira, um dia após o ataque. Sua cabeça estava com uma bandagem e vestindo uma camisa branca ainda respingada de sangue seco. Estávamos desprotegidos.

Abulimit sobreviveu à explosão mais fatal da violência étnica na China, em décadas, quando os uigures e Han massacraram uns aos outros por dias, em toda a capital regional, com 2,3 milhões de pessoas. Mas a agressão a ele é também o último capítulo de uma longa história de castigo feita pelos han, grupo dominante na China, mas relativamente recém-chegados na região desértica ocidental de Xinjiang.

Imigração

Assim como muitos uigures, etnia de idioma turco dos muçulmanos sunitas, sua história começa em uma extensão de Oasis urbanos ao sul de Xinjiang, formados por uigures no século 10, após imigrarem dos estepes da Mongólia. Há cinco anos, Abulimit e sua família abandonaram sua terra pobre no sul para buscar fortuna nas torres resplandecentes de Urumqi.

Ele se viu em meio a pessoas cuja língua não falava, mas eram quem dominava o poder - político, econômico e cultural - por toda Xinjiang. Embora os uigures sejam o maior grupo étnico entre as 20 milhões de pessoas da região, os grupos de han, muitos apenas camponeses pobres, se concentraram no local por décadas, em parte pelo incentivo do governo. Urumqi agora tem mais de 70% de pessoas dessa etnia.

Eles não nos escutam, disse ele, enquanto saía de uma delegacia, na quarta-feira, após tentar reportar o ataque.

Violência

A frustração que os uigures guardavam explodiu em 5 de julho, quando um combate entre ao menos mil manifestantes uigures e policiais acabou virando uma noite sangrenta, na qual jovens uigures tumultuavam pelas ruas, matando civis han. Pelo menos três dias depois, multidões de han armados com facas e pedaços de pau vagavam pela cidade exigindo vingança.

O governo chinês diz que, ao todo, ao menos 184 pessoas foram mortas, três quartos delas eram han, e acrescentou que os responsáveis são terroristas. Mas muitos uigures afirmam que centenas deles foram mortos a tiros pelas forças de segurança chinesa e massacrados por multidões de han.

O que surgiu foram duas versões distintas de violência, duas narrativas de vítimas.

Para os uigures, o papel de vítima já é muito familiar, dizem eles. Nossas tradições, nossa vestimenta, nossa língua, eles querem se livrar disso tudo, disse um comerciante uigur, na mesma viela em que Abulimit vive e trabalha. Eles querem que nos tornemos han.

Divergências

Oficiais chineses dizem que uigures são tratados com respeito e, até mesmo, recebem vantagens sobre os han quando se trata de política de planejamento familiar e admissões em universidades, dentre outros fatores.

Mas muitos uigures dizem que se sentem excluídos com as rápidas mudanças em Xinjiang, especialmente aqueles como Abulimit, que são do sul. Criados em remotos oasis urbanos como Kashgar, Yarkand e Khotan, eles têm menos grau de escolaridade e raramente falam o mandarim. Além disso, são mais religiosos.

Somos apenas camponeses de Khotan, disse a mulher de Abulimit, vestindo um manto preto e um lenço branco florido na cabeça.

A região budista se localiza na Silk Road, já Khotan fica no extremo sul do quente vale do Tarim. Ele é conhecido por suas jóias feitas de minério e carpetes de seda, mas há também um ar de desespero. Todo dia, moradores garimpam o leito seco do rio buscando por minerais, esperando encontrar uma única pedra que transformaria suas vidas.

Abulimit, sua mulher e duas crianças deixaram o local e foram para Urumqi há cinco anos, seguindo seus parentes. Eles viajaram de ônibus por 24 horas até o norte, atravessando o Deserto Taklamakan.

A região mais antiga de uigures tem o cheiro de suas feiras islâmicas ao redor da Ásia. Os mercados a céu aberto vendem comida e deixam um odor pesado de kebab assado (comida oriental feita de carne) se espalhando pelas calçadas. Pequenas passagens que ficam atrás de mesquitas.

Aqui e próximo aos subúrbios, as ruas são cheias de migrantes do sul de Xinjiang, que vendem, em carroças de madeira, desde frutas ou bens domésticos baratos até cobertores. Geralmente, esse é o único trabalho que conseguem. Com pouco conhecimento de mandarim, não podem competir com os migrantes han, mesmo por algo tão servil como o trabalho de pedreiro.

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O quarto onde Abulimit se trancou para fugir da multidão de han que o atacou

Discriminação

Os han nos discriminam, disse o mercante que trabalha na mesma viela que Abulimit. Algumas empresas querem apenas trabalhadores dessa etnia. Mesmo muitos uigures graduados não conseguem trabalho.

Diversos uigures de classe média dizem em entrevistas que migrantes mais pobres vindos do sul foram culpados pelas mortes de civis han em 5 de julho, frustrados pela sua incapacidade de conseguir um emprego decente.

Abulimit teve mais sorte do que muitos. Um irmão mais velho é dono de uma pensão na viela, que vai até o sul na Tianchi Road, a oeste do coração da região uigur. Abulimit conseguiu um trabalho no escritório do hotel Tang Nuri, ou Light of Dawn, e ele e sua família se mudaram para um pequeno quarto no quinto andar de outro hotel no canto de uma rua sem saída da viela.

Ataques

O beco, em parte um gueto para migrantes de Khotan no extremo das vizinhanças de han, foi um verdadeiro alvo para os ataques de represália feitos por vigilantes han que quase aconteceu em Urumqi, em 7 de julho. Nesse dia, cerca de duas horas da tarde, dúzias de homens armados com facas e pedaços de pau transformaram a larga avenida em uma entrada para a viela. Eles bateram em um dono de uma loja de conveniência, Abulajang, 32, que agora tem problemas para andar e mal pode mexer a cabeça.

Agora, não tenho uma boa impressão dos han, disse ele. Quando saio, acredito que aqueles chineses han que me veem me odeiam.

Abulajang e muitos outros na área dizem que, naquele dia, havia cerca de 30 soldados paramilitares próximo à boca da viela para, aparentemente, parar qualquer violência. Mas eles não fizeram nada, disse Abulajang.

Em seguida, a multidão foi atrás do menino deficiente que trabalhava de engraxate, ao lado de fora do hotel Light Dawn. Ele foi golpeado na cabeça e esfaqueado nas costas, disse um tio-avô, Muhammad Jang.

Dentro do hotel, Abulimit e um seguranla, Abdul Rahman, impediram a passagem do quarto onde estavam, próximo à mesa de recepção. Os vigilantes fizeram um grande buraco na porta.

Não conseguíamos pará-los, disse Abulimit. Eu desmaiei quando começaram a me bater e a me esfaquear.

A multidão prosseguiu, talvez pensando que haviam matado o homem.

No último fim de semana, o sangue deles, já seco, ainda estava no chão branco e azul da sala e no sofá de vinil.


Por EDWARD WONG

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