Medo e alívio se misturam após conflito na Nigéria

MAIDUGURI ¿ A paisagem dessa metrópole marcada pelo conflito confirma um preço caro pago pelos homens. Prédios queimados, destruídos e cheios de furos de balas onde tropas realizaram um ataque sangrento contra um grupo islâmico extremista, na semana passada.

The New York Times |


Os moradores permanecem em barracas e delegacias, com medo de retornar ao que restou de suas casas. E as forças de segurança continuam indo de porta em porta em busca de integrantes do grupo, perpetuando o sentimento de medo na cidade.

Quando encontram alguém que acreditam ser um integrante, eles o executam na hora, e isso é algo que começou durante o fim de semana, disse um morador, Ibrahim Nijda, afirmando que seu tio foi morto no conflito.

Mas há também um alívio, especialmente entre aqueles que se sentiram depredados pelo grupo extremista e sua rejeição à ideologia e instituições do Ocidente. Eu não posso fingir que não estou feliz que eles estão sendo mortos, disse Amina Ibrahim, mãe de oito crianças.

Ela disse que os integrantes do grupo fizeram uma lavagem cerebral em seu filho de 29 anos, que o colocou contra a família e contra os valores que a mãe lhe ensinou. Eles pediram que o filho de Ibrahim destruísse certificados que ele obteve em escolas de ensino ocidental. Eles nos tiraram nosso filho, disse ela.

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Professora Julliana Aunie (esquerda) é vista com seus alunos sentados
em frente à escola destruída pela onda de violência na semana passada

O ataque do governo contra o grupo, cujo nome popular, Boko Haram, é uma frase em haússa (um dos idiomas falados na Nigéria) com uma conotação de rejeição à educação ocidental, aparentemente deixou centenas de mortos nessa cidade nortista, capital do Estado de Borno. Mas as autoridades ainda vão divulgar o número de mortos. E mesmo assim há pessoas dizendo que alguns policiais mencionaram pessoas sendo enterradas coletivamente.

Oficiais do governo foram muitos mais decisivos em suas proclamações de vitória, dizendo que reprimiram uma insurgência perniciosa de islamitas que desafiaram o Estado com ataques a delegacias.

Ainda assim, questões sobre a morte do líder do grupo, Mohammed Yusuf, continuam a ser levantadas. A BBC publicou uma foto de Yusuf vivo, quando estava detido, levantando a possibilidade de que tenha havido um assassinato extrajudicial, enquanto alguns afirmam que ele foi morto enquanto estava sendo capturado.

Além disso, analistas advertem que o derramamento de sangue, na semana passada, não acabaria com os motivos que o desencadeou.

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Crianças desalojadas são vistas em refúgio na delegacia, em busca de
proteção contra explosão de violência nos últimos dias

Uma grande característica dos jovens que se juntaram a esse movimento é que muitos deles perderam a confiança no Estado, disse Nnamdi Obasi, um analista nigeriano para o Grupo de Crise Internacional.

Ele disse que o confronto e a violência poderiam gerar futuros conflitos em um local onde a economia e as injustiças sociais estão inflamadas. O grupo atraiu seguidores úteis em regiões com muitos pobres e desempregados.

Os integrantes vivem uma vida separada da sociedade, pregando rigorosas tarefas da lei islâmica, a interpretação literal do Alcorão e o ódio a instituições  - como a polícia ¿ associadas a tendências ocidentais.

Eles eram reconhecidos por ter barbas longas e usar turbantes, símbolos de sua rejeição do que eles consideram uma modernidade pecaminosa do Estado. Antes de ser bombardeada por forças de seguranças, sua área delimitada incluía uma mesquita, uma clínica e áreas de lazer. Agora a área está limpa e deserta.

O desprezo do Boko Haram pelas leis do Estado secular nigeriano é evidente. Ele não obedece aos regulamentos que exigem o uso de capacetes para mototáxi, uma forma comum de transporte, em Maiduguri. Um confronto por causa desse assunto levou a um ataque policial contra membros do grupo em junho, no qual 17 levaram tiros, um episódio que pode ter provocado o ataque às delegacias na semana passada, embora os agressores estivessem muito mais bem armados.

AP

Professora Julliana Aunie observa escola
que foi destruída durante a onda de violência

Antes de tudo isso começar havia tentativas de diálogo, disse Obasi. Em vários Estados, os chefes de polícia disseram que seus convites foram completamente ignorados. O Boko Haram os tratou com absoluto desprezo como agentes de um Estado Ocidental corrupto.

O apelo do grupo evidentemente deixou os oficiais surpresos. Paul Lubeck, sociólogo político da Universidade da Califórnia, em Santa Cruz, que é especialista em Nigéria, disse que muitos integrantes são pessoas educadas no estilo Ocidental que não conseguiram achar emprego.

Poucos moradores mostraram simpatia pelo Boko Haram, parecendo apoiar a declaração do porta-voz do governo do Estado, Usman Ciroma, de que o ataque libertou nosso povo.

Mas o grupo parece ter seus partidários. Ciroma confirmou que um político local, cujos jornais nigerianos dizem ter conexão com o grupo extremista e é suspeito de ser um de seus financiadores, foi morto.

Ele foi pego com armas, disse Ciroma. Sabemos que ele foi morto. De acordo com ele, investigadores ainda estão saindo em busca de patrocinadores ou qualquer um que for detido enfrentará a fúria da lei. Contudo, a repressão não conseguiu resolver o verdadeiro problema, disse Obasi.

Há uma cultura de um governo incompetente e corrupto, para garantir que nada substancial seja feito pelo emprego ou pela educação, disse. Se os governos permitirem que essa cultura continue impune, se o ambiente social e econômico continuar assim, então haverá grupos discriminando a forma como o assunto foi tratado, grupos que provavelmente se revoltarão contra o Estado.


Por SENAN MURRAY e ADAM NOSSITER


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