Massacre no Afeganistão reacende debate sobre estresse pós-guerra

Apesar de Robert Bales ter sido enviado quatro vezes ao Iraque e ao Afeganistão em uma década, Exército diz que turnos não são incomuns

The New York Times |

O sargento Robert Bales , acusado de matar 16 civis no Afeganistão, foi enviado quatro vezes ao Iraque e ao Afeganistão no período de uma década, um recorde de combate que no mínimo sugere que ele tenha passado por momentos de muito estresse. Ele estava bastante preocupado em ser enviado ao Afeganistão, sua esposa escreveu em seu blog no ano passado, e sua família tinha esperança de que ele fosse enviado para servir na Alemanha, Itália ou Havaí.

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Mas oficiais do Exército disseram no fim de semana do dia 17 de março que os turnos servidos por Bales não são incomuns, especialmente em uma força militar que tem tido um ritmo árduo e repetitivo como consequência de duas guerras consecutivas, fazendo com que sejam algumas das situações de conflito mais duradouras da história do país.

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Robert Bales (à esquerda) em foto tirada em agosto de 2011 durante treinamento em Fort Irwin, na Califórnia
"Muitos soldados acabam servindo quatro turnos e nem por isso são acusados de coisas como essa", disse o coronel Thomas W. Collins, porta-voz do Exército.

Nas próximas semanas é possível que ocorra um debate em torno dos quatro turnos servidos por Bales e sua importância em contribuir para a trajetória que o levou até a aldeia no distrito de Panjwai, que fica na província de Kandahar, no sul do Afeganistão, onde foi acusado de ter ido de porta em porta atirando e apunhalando civis afegãos, na maioria crianças e mulheres. O debate poderá acabar em uma corte marcial se seu caso for a julgamento.

Mas, até agora, seu perfil - que inclui um histórico de ferimentos de guerra, pressões financeiras, a decepção por ter sido desconsiderado para uma promoção, problemas com oficiais da lei e sua mulher, que passou por uma gravidez e chegou a criar a filha sozinha - é idêntico ao de muitos outros soldados do Exército americano.

11 de Setembro

Desde os ataques de 11 de Setembro de 2001, mais de 107 mil dos 570 mil soldados americanos - o atual tamanho do contingente ativo do Exército americano - foram implantados três vezes ou mais, disseram oficiais do Exército. E existem casos de até sete ou oito turnos, especialmente entre unidades de operações especiais que fazem passagens mais curtas pelas zonas de guerra.

Bales, 38 e pai de dois filhos, já tinha um histórico de ter participado de turnos mais longos, apesar de sua passagem por Panjwai dever durar apenas nove meses.

Seu advogado, John Henry Browne, disse no dia 17 de março que Bales tinha se alistado no serviço militar aproximadamente um mês depois dos ataques de 11 de Setembro, por motivos de patriotismo. "Ele não se alistou pensando 'eu vou matar os inimigos' e sim 'eu vou fazer algo para poder ajudar o meu país'", disse.

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Estudos recentes sobre o estresse causado por múltiplos turnos chegaram a conclusões ambíguas. Um relatório divulgado em 2011 pelo Centro de Vigilância de Saúde das Forças Armadas revelou que alguns problemas, como o abuso de álcool ou transtornos mentais, eram mais comuns após um único turno do que após vários realizados consecutivamente. Ele sugeriu que algumas pessoas não aguentavam o serviço militar após a primeira implantação, abrindo espaço para que um grupo mais forte pudesse continuar.

Força

Mas um outro relatório militar divulgado no ano passado revelou que a moral das forças de combate no Afeganistão estavam em declínio e que problemas de saúde mental foram percebidos após turnos repetidos.

Ele concluiu, com base em entrevistas feitas com mais de 1,2 mil soldados e fuzileiros navais, que por causa das implantações repetidas os soldados estavam mais propensos a vivenciar eventos traumáticos em combate - explosões, ferimentos, a morte de companheiros e até mesmo de um inimigo pelas suas mãos. "Existem poucas coisas que agem sobre a psique humana de uma maneira tão extrema quanto a exposição a um combate e as coisas que só acontecem em uma guerra", disse o tenente-general Eric B. Schoomaker, que na época era o cirurgião geral do Exército.

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Oficiais do Exército apontam que o número de soldados que tiveram três ou mais turnos, cerca de 20% da força militar em serviço ativo, inclui aqueles em unidades de apoio e que trabalham nos escritórios dos quarteis generais e que não enfrentam as mesmas pressões do que os que lutam a guerra no campo de batalha. "Nós sempre dizemos que as guerras não possuem uma linha de frente", disse Collins. "Mas o fato é que a grande maioria dos que morrem são os soldados das unidades de infantaria."

Bales, que passou quase toda a sua carreira na Base de Lewis-McChord, perto de Tacoma, Washington, fazendo parte da brigada Stryker 3, que foi apelidada por causa dos veículos blindados Stryker, fazia parte da infantaria e por isso tinha que enfrentar um risco maior toda vez que era enviado para combate.

Missão

Pouco se sabe até agora a respeito do turno de Bales em Panjwai, uma região rural de campos de uvas e casas de tijolos de barro no subúrbio de Kandahar, capital da província. Mas a sua unidade parece ter sido encarregada de construir uma força policial local, uma tarefa frustrante que requer muitas vezes organizar homens afegãos suspeitos em uma força de segurança. Embora Panjwai seja mais tranquila do que costumava ser, em grande parte por causa da força implantada pelo governo Obama na região, ainda há risco de violência.

Bales recebia um salário extra cada vez que era acionado em turno, embora recebesse apenas US$ 150 a mais por seu serviço de combate e US$ 250 a mais por estar longe de sua família, de acordo com oficiais do Exército, o total de sua remuneração anual livre de impostos quando ele estava em uma zona de guerra, incluindo subsídios de alojamento e de alimentação, somavam cerca de US$ 68 mil.

NYT
Casa em de Robert Bales e família em Lake Tapps, Washington.
Em seu terceiro turno no Iraque, em 2010, um veículo no qual estava capotou, possivelmente por causa de uma bomba. Bales feriu sua cabeça e, provavelmente, sofreu uma pequena lesão cerebral traumática, que em casos crônicos pode levar a problemas cognitivos e à perda do controle dos impulsos.

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Browne, que disse que iria se reunir com Bales na prisão em Fort Leavenworth, Kansas, disse que Bales havia perdido uma parte do seu pé em um outro acidente também, aparentemente devido a uma bomba, e que parte do arco de seu pé foi removido depois do acidente. Por isso, era possível que ele pudesse estar sofrendo de estresse pós-traumático.<¿/p>

Além de tudo isso, ele também ficou decepcionado por não ter sido escolhido para uma promoção de cargo. Antes de Bales ter sido enviado para o Afeganistão, os militares o haviam treinado para ser um recrutador, disse Browne. Mas simplesmente o informaram que ele iria para o Afeganistão.

"Ele ficou muito decepcionado", lembrou Browne. “Mas ele é um soldado e cumpre as ordens que lhe são dadas."

*Por Elisabeth Bumiller e John H. Cushman Jr.

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