Massacre na Noruega revela força da extrema direita na Europa

Oposição à imigração, globalização e multiculturalismo cresce em grande parte do continente europeu

The New York Times |

Reuters
Norueguês Anders Behring Breivik, acusado pelo massacre na Noruega, é visto dentro de veículo ao deixar corte onde teve sua primeira audiência em Oslo
Os ataques realizados na Noruega na sexta-feira atraíram nova atenção para os extremistas de direita não apenas no país, mas em toda a Europa, onde a oposição aos imigrantes muçulmanos, à globalização, ao poder da União Europeia e à união em prol do multiculturalismo tem se mostrado uma poderosa força política e, em alguns casos, um estímulo à violência.

O sucesso de partidos populistas que apelam a um sentimento de perda de identidade nacional levou as críticas contra minorias, imigrantes e muçulmanos das salas de bate-papo na internet para a política. Embora os partidos em geral não apoiem a violência, alguns especialistas dizem que um clima de ódio no discurso político tem incentivado indivíduos violentos.

"Não fico surpreso com atentados como o da Noruega porque sempre existirão pessoas para as quais atitudes mais radicais são necessárias", disse Joerg Forbrig, analista do German Marshall Fund, em Berlim, na Alemanha, que estudou as questões de extrema-direita na Europa. "Isso (o ataque) pode acontecer em muitos lugares e há problemas mais amplos por trás deste tipo de ação.”

Em novembro, um homem sueco foi preso na cidade de Malmo, na Suécia, em conexão com mais de uma dúzia de ataques contra imigrantes que deixaram ao menos uma vítima fatal e nunca foram resolvidos. Os ataques, nove dos quais aconteceram entre junho e outubro de 2010, pareciam ser a obra de um indivíduo isolado. Mas os Democratas Suecos de extrema direita chegaram ao Parlamento pela primeira vez em setembro do ano passado, depois de conquistarem 5,7% dos votos na eleição geral.

Os ataques também serviram para alertar os serviços de segurança da Europa e dos Estados Unidos. Concentrados em combater os terroristas islâmicos, estes serviços podem ter subestimado a ameaça dos radicais domésticos, incluindo aqueles incomodados com o que consideram ser uma influência do Islã.

Nos EUA, os ataques despertaram lembranças do atentado realizado em Oklahoma em 1995, quando o extremista de direita Timothy J. McVeigh usou uma bomba feita com fertilizantes para explodir um prédio do governo federal, deixando 168 mortos. O atentado de Oklahoma foi ofuscado pelos acontecimentos de 11 de Setembro de 2001.

De acordo com o analista Joerg Forbrig, grupos isolados de extrema direita surgiram e desapareceram rapidamente na Europa entre as décadas de 1960 e 1990. Mas nos últimos anos as declarações de extrema-direita parecem ter perdido grande parte do tabu pós-Segunda Guerra até mesmo entre alguns partidos políticos proeminentes.

O aumento da imigração, combinado à ampla movimentação livre de pessoas dentro de uma União Europeia ampliada - como a perseguida minoria de ciganos -, ajudou a estabelecer as bases para um nacionalismo por vezes antiquado e chauvinista.

Grupos deste tipo estão ganhando força da Hungria até a Itália, mas eles são particularmente evidentes em países do norte da Europa que há muito têm tido políticas de imigração mais liberal. A chegada rápida dos refugiados, requerentes de asilo e imigrantes econômicos, muitos deles muçulmanos, levou a um recuo significativo em lugares como a Dinamarca, onde o Partido do Povo Dinamarquês tem 25 dos 179 assentos no Parlamento, e na Holanda, onde o Partido da Liberdade de Geert Wilders obteve 15,5% dos votos na eleição geral de 2010. Wilders é famoso por ter comparado o Alcorão, livro sagrado do Islã, ao “Minha Luta” de Adolf Hitler.

Tanto os partidos de extrema direita dinamarqueses quanto os holandeses estão apoiando governos minoritários precários, embora não participem diretamente no comando de ministérios. Com isso, avançam em direção a uma aceitação generalizada.

Os ataques de sexta-feira foram rapidamente condenados por líderes de todo o espectro político europeu. A chanceler alemã Angela Merkel foi particularmente enfática ao falar sobre o que chamou de um "crime terrível”.

O tipo de ódio que pode abastecer tal ação, disse ela, vai contra a "liberdade, respeito e crença na coexistência pacífica".

Algumas das principais motivações citadas por Anders Behring Brevik, acusado pelos ataques na Noruega, são questões centrais no momento. Merkel, o presidente francês Nicolas Sarkozy e o primeiro-ministro britânico David Cameron declararam o fum do multiculturalismo recentemente.

O multiculturalismo "falhou, e falhou completamente", disse Merkel a colegas democratas-cristãos em outubro, embora ressaltando que os imigrantes eram bem-vindos na Alemanha.

Talvez a mais surpreendente reviravolta tenha acontecido na Grã-Bretanha, um país que por muito tempo foi considerado o mais amigável da Europa em relação aos imigrantes até que uma série coordenada de ataques atingiu Londres há seis anos. Em um de seus discursos mais famosos, Cameron disse na conferência de segurança de Munique, em fevereiro, que as décadas de política de multiculturalismo do país incentivaram "comunidades segregadas" onde o extremismo islâmico pode prosperar.

A França, um Estado laico onde toda religião é ferozmente banida da esfera pública, esteve por muito tempo isolada e chegou a ser repreendida por sua oposição ao laissez-faire do multiculturalismo. As meninas que aparecem nas escolas públicas do país com o véu muçulmano são suspensas, assim como professoras ou qualquer outra funcionária do setor público.

Se no início de sua carreira política Sarkozy pareceu suavizar seu entendimento do secularismo oficial, ou sua "laicidade", ele se esforçou para voltar atrás. No ano passado, realizou um debate sobre a "identidade nacional" e neste ano proibiu as muçulmanas de usarem o véu que cobre todo o rosto.

Isso não impediu a Frente Nacional de extrema direita, agora liderada por Marine Le Pen, filha de seu fundador, de crescer nas pesquisas de opinião, com algumas prevendo que ela poderia chegar ao segundo turno na eleição presidencial do próximo ano. Marine, que condena a União Europeia e o euro, comparou os muçulmanos rezando nas ruas diante de mesquitas superlotadas à ocupação nazista.

Este mês, o jornal Berliner Zeitung informou que neonazistas estão atacando os escritórios do Partido Esquerda, de extrema esquerda, com uma frequência crescente. No Estado de Mecklenburg-Vorpommern, na antiga Alemanha Oriental, as estatísticas indicam que houve 30 ataques desse tipo no primeiro semestre de 2011 em comparação com 44 ataques em 2010.

Devido ao seu passado nazista, a Alemanha observa os extremistas atentamente e os partidos da extrema direita têm dificuldade de ganhar força, não chegando a ter representantes no Parlamento. Na Finlândia, o Partido Finlandeses Verdadeiros, um partido populista nacionalista fundado em 1995, tornou-se o terceiro maior partido no Parlamento finlandês, depois de obter 19% dos votos em abril. E o Partido do Progresso da Noruega, da direita populista, é o segundo maior do país, tendo obtido 23% dos votos na última eleição parlamentar, em setembro de 2009.

"Os grupos de direita noruegueses sempre foram desorganizados, nunca tiveram líderes carismáticos ou contaram com o apoio financeiro que se vê na Suécia", disse Kari Helene Partapuoli, diretora do Centro Norueguês contra o Racismo. "Mas nos últimos dois ou três anos a nossa organização e outras redes antifascistas têm alertado para um aumento na temperatura do debate político e para a possibilidade de que grupos violentos tenham se estabelecido no país.”

A cena da direita na Noruega está ligada ao resto da Europa por meio de fóruns na internet, nos quais o discurso de ódio se prolifera e manifestações de extrema direita atraem participantes de vários países.

"Este pode ter sido o ato de um homem solitário, individualista, louco e paranóico", disse Hajo Funke, cientista político da Universidade Livre de Berlim, que estuda o extremismo de direita, referindo-se a Anders Behring Brevik. “Mas a extrema direita cria uma atmosfera que pode levar essas pessoas para o caminho da violência”.

Por Nicholas Kulish

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