Massacre de imigrantes deixa rastro de lágrimas na América Latina

Apesar de dificuldades e perigos, como guerra das drogas, muros e agentes da fronteira, migrantes continuam a se arriscar

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Gilmar Morales foi avisado que a viagem ao norte seria difícil, por isso se alimentou com ovos e linguiça, comprou alguns sanduíches de presunto na venda do outro lado da rua, disse à mãe que a amava e partiu com outros dois parentes por um caminho comumente percorrido pelos jovens da pequena cidade de Agua Caliente, na Guatemala, um dos países mais pobres da América Latina.

Algumas semanas mais tarde, sua mãe o reconheceu em meio a 72 corpos de imigrantes da América do Sul e Central mortos na semana passada no nordeste do México, perto da fronteira do Texas, em uma imagem do noticiário de TV. Era Gilmar, com aquela conhecida camiseta listrada de amarelo e branco e calça azul.

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O pai e a viúva do guatemalteco Gilmar Morales, uma das vítimas da chacina no México
“Eles nos disseram que irão enviar o seu corpo”, disse o pai dentro da pequena casa de alvenaria da família, ao lado de um altar de flores e velas em homenagem a Gilmar, 22 anos, e seus companheiros que seguiram para o norte, mais tarde confirmados como vítimas do massacre.

Apesar de todas as dificuldades e perigos que tinham adiante – a guerra das drogas no México, os muros, os agentes da fronteira, as tropas da Guarda Nacional, o fervor anti-imigrantes e uma economia frágil – eles seguiram caminho.

E eles continuam a morrer, muitas vezes nos desertos, por vezes nas mãos de ladrões e sequestradores, e agora, em uma reviravolta surpreendente, aparentemente nas mãos de uma quadrilha de drogas em busca de dinheiro ou, eventualmente, de recrutas, embora ninguém saiba com certeza.

As autoridades mexicanas confirmaram na quarta-feira que estão interrogando um sobrevivente de Honduras, mais um além do equatoriano que primeiro alertou para os assassinatos.

Números

O número de mortos neste massacre é surpreendente: 21 hondurenhos, 12 salvadorenhos, um brasileiro, cinco guatemaltecos. E esses são apenas os que foram identificados. A corrida aos ministérios dos países de onde se acredita que os imigrantes sejam provenientes sugere que mais do que esses 72 tiveram um destino incerto.

Tanto os Estados Unidos quanto o México dizem que a imigração está em baixa por causa da economia e da forte segurança na fronteira americana. Mas o fluxo real é impossível de se determinar.

“Estamos profundamente preocupados com as notícias constantes de violações dos direitos humanos dos imigrantes em território mexicano”, disse Haroldo Rodas, ministro das Relações Exteriores da Guatemala.

Parece evidente que a atração do Norte vai ser difícil de superar, principalmente nas cidades pequenas e aldeias pobres de onde partem muitos homens e mulheres, geralmente no final da adolescência, quando se deparam com pouca esperança e optam por arriscar por uma vida melhor.

*Por Randal C. Archibold

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