Massacre continua no Congo apesar do socorro estar próximo

KIWANJA, Congo ¿ Pelo menos as balas cessaram, e Francois Kambere Siviri pode atravessar a porta de casa. Depois de se esconder todas as noites das balas trocadas entre rebeldes e a guarda nacional nesta pequena, mas estratégica cidade, ele estava desesperado para dar uns passos para fora.

The New York Times |

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"Pow, pow, pow," disse sua mãe, a viúva Ludia Kavira Nzuva, reproduzindo como os rebeldes mataram seu filho de 25 anos bem na frente da casa da família. Quando abandonaram o corpo dele, contou, um deles se virou e disse: Voilá, ele é seu presente.

Em pouco menos de 24 horas, pelo menos 150 podem ter morrido, a maioria deles rapazes, sumariamente executados pelos rebeldes no mês passado, quando apertaram o cerco em partes do leste do Congo, de acordo com testemunhas e investigadores de direitos humanos. 

Mesmo assim, com os assassinatos tomando conta, um contingente de cerca de 100 soldados de paz das Nações Unidas, estava a poucos quilômetros distante do local, esforçando-se para entender o que estava acontecendo fora dos portões da base. Os soldados tinham poucos equipamentos e homens, disseram autoridades da ONU, e estavam concentrados em evacuar voluntários amedrontados e procuravam por jornalistas estrangeiros que haviam sido sequestrados. Impressionados, eles não tinham inteligência e capacidade  ou mesmo um intérprete que poderia falar as línguas locais.

Os soldados de paz disseram que não tinham ideia de que os assassinatos estavam acontecendo até que tudo estava acabado.

Crueldade 

As execuções em Kiwanja são um estudo da crueldade espalhada pelos grupos armados que lutam por poder e recursos no leste do Congo. Mas esses acontecimentos também são um exemplo do contínuo fracasso da maior força de paz do mundo, que tem o dever de proteger os congolenses da brutalidade.

Nesse caso, o fracasso se deve a uma mistura de comunicação precária e organização, equipamento inadequado, colapso da inteligência e uma má sorte espetacular, disse lugar-tenete Coronel H.S. Brar, comandante dos solados indianos com base em Kiwanja.


Invtestigadores denunciam atrocidades contra a população civil do Congo / AP

Mas as mortes e a fracassada resposta ao avanço dos rebeldes foram sintomas dos problemas que atingem as forças de paz no Congo há anos, disse Anneke Van Woudenberg, pesquisadora da Human Rights Watch, que investigou os assassinatos mês de dezembro. Os ataques rebeldes  foram até liderados por um comandante procurado por acusações de crime de guerra pela Corte Criminal Internacional.

"Kiwanja é um desastre para todo mundo, disse Van Woudenberg. A população foi traída não só pelos rebeldes que cometeram terríveis crimes, mas também pela comunidade internacional que falhou em não protegê-la.

Só no último ano, milhares de centenas de pessoas foram forçadas a abandonar suas casas quando os rebeldes, liderados por desertados da guarda geral, travaram uma insurgência contra o governo e seus aliados militares.

Em entrevista, o general rebelde, Laurent Nkunda, negou que as tropas dele tenham executado civis, acusando as milícias aliadas do governo de tentar fazer com que os rebeldes pareçam maus.

Nós não podemos matar a população, disse ele. Não faz parte do nosso comportamento matar e estuprar.

Mas, extensas entrevistas com vítimas, voluntários e investigadores dos direitos humanos mostram que os homens de Nkunda realizaram uma operação militar de porta em porta durante dois dias quando rapazes e outras pessoas foram executadas.

Exército x Rebeldes

O problema começou em 28 de outubro quando tropas do Exército do Congo deixaram a cidade, com medo do avanço das tropas de Nkunda.

Os soldados, que já haviam sido derrotados pelos homens de Nkunda no sul, saquearam e violentaram enquanto fugiam, levando tudo de valor e até forçando os residentes a ajudar no transporte dos objetos roubados, segundo contam investigadores e vítimas. Residentes temerosos precisaram escolher entre duas opções ruins: seguir o exército que fugia ou esperar para ver o que os rebeldes poderiam trazer.  

Com os soldados já distantes, as tropas de Nkunda tomaram a cidade de Kiwanja e Rutshuru sem disparar um tiro. Imediatamente, eles ordenaram que aos residentes que permaneciam nas cidades que colocasse fogo nos campos que abrigavam cerca de 30 mil refugiados, proclamando que agora já era seguro retornar às vilas, contaram as testemunhas.

Eles disseram que era seguro e que todos deveriam ir para casa, disse Francois Hazumutima, professor aposentado que vivia perto do campo. Mas nenhum de nós nos sentíamos seguros.

Uma semana depois, em quatro de novembro, uma milícia conhecida como Mai Mai organizou um ataque surpresa em Kiwanja. Mas os rebeldes logo derrotaram o Mai Mai ¿ e ordenaram que todos os residentes saíssem.

Mas muitos residentes que ficaram temiam que suas casas pudessem ser saqueadas, eram muito velhos ou estavam muito doentes para fugirem de lá, como informaram testemunhas. Outros simplesmente não receberam a mensagem para deixar a cidade.

Os rebeldes chegaram à porta de um comerciante de 25 anos, batendo e ameaçando atirar. Havia disparos em todos os lugares, disse ele, em condição de anonimato. Eles pediram dinheiro. Eu dei a eles US$ 200.  

Ele então assistiu impotente enquanto rebeldes entraram na casa a vizinha, onde morava seu irmão de 22 anos. O rapaz, um estudante, não tinha dinheiro com ele. Os soldados ordenaram que ele se deitasse no chão. Eles esfaquearam o rapaz no pescoço com baionetas e atiraram na cabeça dele, contou o comerciante.   

Eles disseram, Se você não tem dinheiro, você é Mai Mai, disse. Todos que eram jovens estavam destinados a morrer.


Milhares de refugiados buscam abrigo seguro / AP

De acordo com as testemunhas e gravações de vídeo, Jean Bosco Ntaganda, comandante de Nkunda, comandou as tropas responsáveis pelos assassinatos. Ntaganda, cujo nome de guerra é Exterminador, é procurado pela Corte Criminal Internacional por crimes cometidos enquanto estava no comando de outro grupo armado.

Soldados de paz

Enquanto isso, a confusão reinava na base das tropas de paz. Um grupo de soldados localizados em um ponto decididamente não estratégico, aconchegavam-se em um vale vulnerável e com pouca visão da área ao redor.

O único tradutor dos soldados deixou a base em 26 de outubro e não havia sido substituído até duas semanas depois. Mas mesmo em tempos normais a comunicação é limitada. Para fazer preparativos de logística, os soldados das forças de paz dependem largamente dos civis que trabalham em negócios regulares durante a semana e têm os finais de semana livres. Incapaz de falar à maioria da população e quase sem inteligência e capacidade, Brar busca seu caminho por meio de rumores nebulosos, especulações e desinformações.

Durante esse tempo todo havia um vácuo de informação, disse Brar.

Somente com uma companhia de soldados e três veículos blindados, os coronéis estavam vencidos, acrescentou. Patrulhas precisaram ser abortadas porque os rebeldes e as milícias abriram fogo com armas pesadas que poderiam perfurar os veículos. Os soldados de paz disseram que não conseguiam saber a diferença entre os diferentes grupos armados e temiam ferir civis.  

Por LYDIA POLGREEN

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