Marinha dos EUA faz recrutamento em centro homossexual

Com fim de proibição que impedia militares gays de assumirem opção sexual, recrutador desbrava novos territórios em Tulsa

The New York Times |

O sargento Anthony Henry, recrutador dos Fuzileiros Navais da Marinha dos Estados Unidos, chegou até o maior centro comunitário homossexual em Tulsa, no Estado de Oklahoma, e estacionou sua van com uma “estratégia de saída” em mente. “Estacionei bem na curva para poder ir embora rapidamente, caso necessário”, afirmou.

Teve início um dos momentos mais estranhos da história dos Fuzileiros Navais dos Estados Unidos – e sem os protestos e insultos que Henry temia. O sargento tinha sido convidado a criar um posto de recrutamento militar no Centro de Igualdade Dennis R. Neil, um dia após o término da lei conhecida como "Don't ask, don't tell" (“não pergunte, não conte”, em tradução livre). E ele passou a maior parte do tempo conversando com um grupo de mulheres lésbicas que entrou no centro para perguntar sobre como poderiam se alistar nos Fuzileiros Navais.

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Sargento Anthony Henry, recrutador da marinha, conversa com lésbica em centro gay de Tulsa

"É problema seu e você não precisa compartilhar sua sexualidade com ninguém", disse Henry para Ariel Pratt, que perguntou se ela iria enfrentar descriminação nas Forças Armadas por ser lésbica. "Mas você também está livre para passear no shopping com a sua namorada."

Pratt, 20 abis, perguntou a Henry porque ele gosta de fazer parte dos Fuzileiros Navais.

"É como uma pequena família", disse ele. "Ficamos com raiva uns dos outros, brincamos uns com os outros, mas não deixamos ninguém zombar da gente."

"Isso é muito legal", disse Ariel.

Os fuzileiros foram os que mais se opuseram ao término da lei, mas foram os únicos dos cinco ramos militares convidados a comparecer com um centro de recrutamento. Embora os Fuzileiros Navais se orgulhem de ser o grupo militar com o maior nível de testosterona, eles também acreditam ser o melhor de todos os grupos militares. Com o término da lei, os fuzileiros parecem determinados a provar que serão melhores do que o Exército, a Marinha, a Força Aérea e a Guarda Nacional no recrutamento de gays, lésbicas e bissexuais.

A julgar pelo recrutamento em Tulsa, os Fuzileiros Navais ainda não serão imediatamente inundados por candidatos homossexuais que esperam conseguir se alistar. O centro comandado por Henry recebeu apenas três mulheres em quatro horas, e nenhuma delas era a recruta ideal. As equipes de televisão locais que tinham ido presenciar a ação acabaram tendo que se contentar com a falta de atividade.

A primeira recruta em potencial, a primeira tenente Misty McConahy da Guarda Nacional de Oklahoma, perguntou se os Fuzileiros Navais tinham vagas para qualquer oficial de saúde, sua especialidade. Henry explicou que não, que os Fuzileiros Navais utilizam a Marinha para atendimento médico.

"Ela tem que ter muita coragem para falar (sobre sua opção sexual) desse jeito", disse Henry, depois de ver Misty cercada por repórteres. "Seu comandante provavelmente irá ver isso a noite na TV."

A segunda recruta com potencial, Pratt, sobrinha de um benfeitor do centro de direitos dos homossexuais, tinha cicatrizes em seu braço esquerdo de machucados da sua época de escola - uma desqualificação médica quase certa para os Fuzileiros Navais.

"Tenho participado de recrutamentos há muito tempo", Henry lhe disse. "Esses cortes são fatores muito difíceis de ignorar". Ele anotou seu nome e número de telefone e disse que iria fazer algumas ligações para ver o que poderia fazer.

A terceira recruta em potencial era uma jovem obesa de 25 anos que abandonou a escola no ensino médio. Henry lhe disse gentilmente que ela deveria tentar o recrutamento novamente, depois de obter seu diploma e de entrar em forma.

Entrar para os Fuzileiros Navais não é fácil para ninguém. Como eles mesmos afirmam, apenas 1 em cada 10 candidatos estão qualificados para o serviço. A maioria dos rejeitados possui uma variedade de problemas como asma, transtorno de déficit de atenção, excesso de peso (um home de 18 anos com 1,80 m não pode pesar mais de 81 kg antes de participar do campo de treinamento), tatuagens excessivas, lesões nas juntas, a ausência de um diploma do ensino médio e um histórico de abuso de drogas - apenas o uso moderado da maconha é considerado aceitável.

A crise na economia tornou as vagas dos Fuzileiros Navais ainda mais desejáveis no momento em que os irão diminuir o número de recrutas por causa das guerras no Iraque e no Afeganistão, que vêm perdendo força. Além da economia, disse Henry, um veterano de três missões no Iraque, o outro motivo é o mesmo de sempre: "Eles querem ser um Fuzileiro Naval para explodir coisas".

Os Fuzileiros Navais foram ao Centro dos Direitos dos Homossexuais a convite de Toby Jenkins, diretor executivo do centro, que disse não ver melhor maneira de comemorar o fim da lei "Don’t Ask, Don’t Tell" em um Estado conservador que apoia as Forças Armadas.

"Já que nós lutamos por 15 anos pelo direito de estar nas Forças Armadas, decidimos convidar os recrutadores militares e ver se eles estavam disponíveis", disse. "Mas ninguém estava preparado para esse convite. Era como se eu estivesse falando com pessoas assustadas."

Os Fuzileiros Navais de fato pensaram que o convite de Jenkins poderia ser um golpe, e por isso verificaram seu histórico e conversaram com seus superiores, que conversaram com seus superiores e assim em diante. Em seguida, eles respiraram fundo e decidiram comparecer.

Com o passar do dia, os fuzileiros disseram que o movimento fraco foi compensado pela exposição que tiveram na mídia. Henry e seu oficial de relações públicas, o capitão Abraham Sipe, concederam entrevistas a cinco canais de televisão locais, três repórteres da imprensa escrita e um correspondente da Rádio Pública Nacional. Apoiadores dos Direitos dos Homossexuais também pararam para cumprimentá-los.

"Toby disse que haviam homens bonitos de uniforme aqui", disse Cecilia Wessinger, 46, uma amiga de longa data do centro, que fez sua visita por volta das 14h.

Ela agradeceu Henry por ter vindo e admitiu que ficou surpresa em vê-lo.

Às 17h os Fuzileiros Navais empacotaram sua barraca e partiram com planos de voltar mais tarde para participar de um painel de discussão. Tudo isso era território inexplorado. Como Henry tinha dito anteriormente, é um novo mundo que os Fuzileiros Navais precisam desbravar: "No começo vai ser uma mistura de choque e pavor".

Mas como bom Fuzileiro Naval, ele segue um princípio: "Minha opinião é: se conseguirem passar por nosso campo de treinamento relâmpago, que é o mais difícil do mundo, devem ter a oportunidade de vestir o uniforme."

Por Elisabeth Bumiller

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