Manifestantes querem mudança e unidade em força militar do Iêmen

Parentes do ex-presidente Saleh controlam divisões militares, enquanto comandante opositor controla outra unidade das forças

The New York Times |

À medida que o Iêmen entrava em uma nova era política em que Ali Abdullah Saleh já não exercia nenhum poder no país, os manifestantes contrários ao governo permaneciam nas ruas não satisfeitos com a situação em que o país se encontrava.

"Nós fechamos esse capítulo dos últimos 33 anos ", disse a estudante Nadia Abdullah, 27 anos. "Isso fez parte do nosso primeiro objetivo. Mas ainda temos Ahmed e Yahya", disse ela, indicando parentes de Saleh que ainda controlam grandes divisões das Forças Armadas do país.

No decorrer do ano passado, os manifestantes do Iêmen construíram um acampamento fixo em Saana, a capital do país, criando uma grande cidade de tendas azuis e verdes na frente da Universidade de Sanaa. Tendo como objetivo principal a retirada de Saleh do poder, os manifestantes resistiram a ataques sangrentos das forças governamentais, tempestades e lutas internas.

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Iemenitas assistem à cerimônia de posse de Hadi, cuja chegada ao poder marca o fim dos 33 anos do regime de Saleh (27/2)
Então, na semana passada, como parte de um acordo de transferência de poder, os iemenitas participaram de eleições presidenciais antecipadas e votaram no ex-vice de Saleh, Abed Rabbo Mansour Hadi, o único candidato na cédula. Assim, de uma hora para outra, Saleh se tornou o ex-presidente do Iêmen.

Exigência

Mas, em vez de ficar contentes com seu triunfo e ir embora para casa, os manifestantes determinaram que a Praça da Mudança, como seu acampamento ficou conhecido, permanecerá como está até que haja uma revisão completa da divisão militar do país.

"Vamos ficar aqui até que o Exército se reestruture e só então vamos considerar nossa revolução como bem sucedida", disse Mohammed al-Jaradi, um jovem ativista que caminhava entre as barracas para ir almoçar após as orações do meio-dia.

Os filhos e sobrinhos de Saleh controlam as divisões militares e de segurança do país, enquanto um comandante militar opositor, o major-general Ali Mohsin al-Ahmar, que apoia o movimento dos protestos, controla uma outra unidade. Em setembro, cada tropa em seu respectivo lado se envolveu em confrontos nas ruas de Sanaa que chegaram a durar semanas.

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Segundo analistas, o poder que esses líderes militares exercem é bem maior do que o de Hadi porque cada divisão age como se fosse uma milícia independente leal ao seu comandante. Os manifestantes afirmam que sem uma força militar nacional unida, a tentativa de democratizar o Iêmen não valerá nada.

Quando perguntado se a revolução da juventude do Iêmen havia sido bem sucedida, Osama Sultan, um estudante manifestante, respondeu com um sinal de dúvida. "O importante agora é saber o que Hadi irá fazer a respeito do Exército", disse Sultan, sentado ao lado de seu laptop em uma tenda na Praça da Mudança.

Em uma cerimônia na tarde de segunda-feira no palácio presidencial de Sanaa, Saleh introduziu Hadi como sendo o novo presidente do Iêmen, uma transferência de poder que ocorreu de maneira suave mesmo após os confrontos que abalaram o país no decorrer do ano passado, durante o qual centenas de pessoas foram mortas. O atual e o ex-presidente do Iêmen ficaram lado a lado e fizeram discursos patrióticos sobre a maneira como os iemenitas tinham se reunido para superar o caos.

Foco dos protestos

Mas na Praça da Mudança, que se estende por cerca de 3,2 km ao longo de uma estrada principal, os manifestantes não deram muita atenção aos eventos que ocorreram no palácio. Como prova de que pretendem permanecer na rua, os manifestantes têm fortalecido suas barracas nas últimas semanas, transformando-as em casas semipermanentes feitas de tijolo cinza. Alguns penduram varal de roupas no meio da rua e outros chegaram até a plantar jardins de flores diante de suas residências improvisadas. Acredita-se que as facções da oposição estejam pagando alguns dos manifestantes para permanecer no local e fornecendo refeições gratuitas aos manifestante.

"A principal mudança agora é a da perspectiva do povo", disse Sultan. "Os iemenitas estão notavelmente mais otimistas ultimamente, na esperança de que a presidência de Hadi lhes dê uma oportunidade de começar de novo."

"Mas, se aqueles que são responsáveis pelo país ficarem exercendo sua mesma função, então nenhuma mudança irá acontecer.", advertiu.

Os manifestantes estavam ansiosos para que Saleh deixasse o país. O ex-presidente retornou recentemente ao Iêmen depois de ter ido procurar tratamento médico nos Estados Unidos, e oficiais do governo disseram que ele pretende se mudar nos próximos dias para a Etiópia ou para os Emirados Árabes Unidos.

"Nós consideramos que a eleição foi o primeiro passo de nossa revolução iemenita", disse o manifestante Ibrahim Sheikh.

Colapso

Apesar de sua alegria ao ver Saleh forçado a sair de seu palácio, o xeque estava consciente de que o país continua desesperadamente pobre, com um governo com muita pouca infra-estrutura e que suas dificuldades provavelmente não irão mudar do dia para a noite.

"Nós queremos trabalhar, queremos uma educação melhor", disse ele. "O problema é que a corrupção está espalhada por toda a sociedade. O chefe da corrupção se foi e isso deve começar a fazer com que as coisas melhorem um pouco."

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Os sinais de colapso do Estado estão presentes em todo lugar. Ministérios foram destruídos pela guerra do ano passado em Sanaa. Se um guarda de trânsito não aparece para trabalhar, os carros ficam praticamente parados nos cruzamentos. Tiroteios entre membros de tribos mataram pelo menos sete pessoas nas ruas de Sanaa nos últimos dias.

Mesmo alguns dos iemenitas mais otimistas falam sobre o futuro do país no condicional. "Se não chegarmos a um acordo sobre como proceder durante o próximo ano, os problemas irão voltar", disse Tala Aqlan, um membro do Partido Socialista. "E podem voltar ainda pior do que eram anteriormente."

* Por Laura Kasinof

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