Manifestantes do Egito têm paixão, mas não liderança clara

Egípcios saem às ruas para pedir renúncia de presidente, mas não têm nome de peso na oposição

The New York Times |

No cenário de revolução que se tornou a Praça Tahrir, a própria paixão que inspirou os protestos locais foi compensada na segunda-feira por uma questão que poderia determinar se o presidente Hosni Mubarak irá abrir mão de quase 30 anos de poder: Quem irá falar em nome dessas pessoas que nunca tiveram uma voz?

O desafio ao governo de Mubarak apenas aumentou na segunda-feira, conforme os protestos na praça cresceram de centenas de pessoas antes do amanhecer para milhares ao anoitecer. Mães seguravam crianças sobre os ombros gritando o refrão da revolta: "O povo quer a queda do governo!"

AFP
Manifestantes contrários ao governo entram em confronto com partidários de Muabrak na Praça Tahrir, no Cairo
Os organizadores encorajaram a presença de uma multidão ainda maior na terça-feira, conforme os manifestantes procuravam aproveitar o momento e o governo se recolhia. Mas do outro lado da praça, uma certa trepidação atingia a crescente euforia. Muitos manifestantes sugeriram que os próximos dias irão testar se a revolta popular irá superar uma incipiente oposição que até agora não conseguiu acompanhar a movimentação.

"Isso é o que me preocupa", disse Gasser Abdel-Razeq, um ativista de direitos humanos que se juntou à multidão em êxtase de homens e mulheres, religiosos e seculares, ricos e pobres, mas, antes de tudo, jovens e oprimidos. "Para onde isso vai? Como criar uma liderança que possa representar essas pessoas sem dividi-las?"

Suas perguntas representam o desafio do momento não apenas para o Egito, mas também para o resto do mundo árabe – como negociar a transição de poder de governos apoiados pelos Estados Unidos, que têm se mostrado mais eficazes em eliminar qualquer alternativa a eles. Mas isso é ainda mais difícil no Egito, onde muitos dos manifestantes têm exigido nada menos do que o desmantelamento do status quo.

Nos últimos dois dias, a Irmandade Muçulmana tem emergido mais forte nos protestos, mas sua presença é frequentemente mais controversa do que unificadora. Mohammed ElBaradei, prêmio Nobel e crítico do governo, apontado como uma figura de consenso para uma oposição vagamente alinhada, gera tanto ressentimento quanto apoio.

Alguns manifestantes disseram que não precisam de liderança para uma revolta que está derrubando a velha ordem. Outros ponderam se alguém poderia articular as frustrações de uma geração que, conforme os eventos se desdobravam rapidamente na noite de segunda-feira, está mais perto do que nunca de forçar a queda de Mubarak.

"Nós não queremos ElBaradei ou a Irmandade Muçulmana, e não queremos o partido governista", disse Mohammed Nagi, um manifestante de 30 anos de idade. "Aqui sentimos como se todo mundo está andando sozinho, falando por si próprio, porque não há nenhum grupo que nos represente". Em suma, ele disse: "Nós não queremos o que temos”.

Clareza

O fato de que o movimento não tem, nas palavras de uma ativista, "estrutura e liderança claras" tem ajudado a cativar o mundo árabe, que o tem recebido com um misto de alegria e romantismo. Um jornal local dedicou quase toda sua edição a isso.

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No Cairo, partidários de Hosni Mubarak usam cavalos para enfrentar multidão que pede a renúncia do líder egípcio
“As pessoas estão aprendendo que o anseio pela liberdade, pela dignidade, pela justiça e pelo emprego é uma ambição legítima", disse Sateh Noureddine, um proeminente colunista libanês. "Este é um momento histórico que está ensinando tudo ao mundo árabe. Eles estão aprendendo que, se tomam as ruas, podem realizar seus objetivos”.

Na atmosfera carnavalesca da Praça Tahrir, também conhecida como Praça da Libertação, os manifestantes falam em superlativos sobre a rebelião, ecoando sentimentos pronunciados em toda a região. "Revolução no Nilo", dizia a manchete de segunda-feira do Al-Akhbar, um jornal esquerdista libanês. "Uma múmia combate os vivos".

Mas, mesmo os mais sóbrios falam sobre a transformação que um levante de apenas uma semana de idade, teve sobre um povo até então tratado como vassalos e não como cidadãos, por um Estado que via eleições como um exercício programado de afirmação.

Diante de saques e incêndios criminosos, bairros se organizaram em comitês de defesa populares, incluindo homens armados com tudo, de chicotes a mangueiras. Apesar de terem coordenado com o Exército, eles conseguiram garantir a segurança praticamente sozinhos, quarteirões após quarteirões, diante do total colapso da autoridade policial no sábado.

"O comitê popular nos protege melhor do que a polícia", disse Mohammed Maqboul, um advogado presente na praça. "Eles guardam nossas ruas 24 horas por dia”.

Da praça aquecida pelo sol, a sensação de poder tem tomado conta do centro da cidade, onde voluntários distribuem bolachas, chá e bolo. Jovens varrem as ruas, organizam a segurança e verificam identidades em postos de verificação em uma demonstração de mobilização popular que qualquer governo de transição terá que, pelo menos, reconhecer.

"Pela primeira vez, as pessoas sentem que pertencem a este lugar", disse Selma Al-Tarzi, uma cineasta de 33 anos de idade.

A própria energia da revolta conseguiu desestabilizar muitos em uma cidade que se instalou em uma certa sonolência depois dos eventos tumultuados de uma geração anterior – a nacionalização do Canal de Suez, as guerras com Israel e uma paz incerta. E isso irritou muitos que também reagem à adoção da revolução por parte dos manifestantes com um outro termo: “balbala”, ou seja, confusão e caos.

"Precisamos de paciência", gritou Atef Ammar, um advogado que discutiu com os manifestantes. "O resultado desta democracia que vocês trouxeram é impor bandidos e saques a todos nós”.

“Você está com o regime!" um manifestante acusou.

"Por que não podemos esperar?", respondeu ele. "Nós não queremos que o país seja destruído”.

Alguns homens começaram a gritar com ele, empurrando-o.

"O sistema todo tem de acabar", gritou Mustafa Ali, um manifestante. "Não apenas Mubarak!"

De fato, a oposição, juntamente com quase todos os representantes da sociedade civil do país, tem sido dominada pelo ritmo e pela escala da insurreição. Jovens organizadores buscaram pressionar os protestos adiante, juntando-se a figuras da oposição que esperam negociar com o governo, mas muitos deles admitem que sua influência sobre as multidões é desprezível.

"Eu sinto que El Baradei não é um egípcio", declarou o manifestante Seraggedin Abu Rawash. "Ele viveu toda a sua vida no exterior, e agora está tentando montar a revolução".

Irmandade muçulmana

Rawash, um engenheiro de 21 anos de idade, é membro da Irmandade Muçulmana, a qual assumiu um papel muito mais proeminente nos protestos desde domingo, organizando orações na praça, mas mantendo-se entre si. O mantra de seus seguidores é que eles vão participar, mas não liderar.

"Nós somos parte do povo", disse Rawash. Mas mesmo a sua presença levou a debates entre os mais seculares sobre as intenções do grupo, que ainda é a mais poderosa oposição do Egito.

"Não à Irmandade, não aos partidos", dizia um grito de guerra na segunda-feira. "Revolução da juventude". Outra faixa dizia: "A revolução do povo, não dos partidos".

Por enquanto, um dos movimentos populares mais espetaculares da história do Egito está contando com a energia da rua, mesmo que o governo tenha aberto suas portas para negociações.

"Se os jovens continuarem a ir para as ruas quando sentirem que a revolução está sendo tirada de suas mãos, não tenho preocupações com o regime, o Exército ou a Irmandade", disse Abdel-Razeq. "Se isso significar uma vida melhor, um Egito melhor, um emprego melhor, eles vão continuar".

*Por Anthony Shadid, com colaboração de Nada Bakri

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